25.10.08

convite: pensar


Proponho aqui uma questão para pensar. E convido os leitores a opinar.

Durante a pré-campanha para as eleições legislativas antecipadas de Fevereiro de 2005, a jornalista Ana Sá Lopes terminava assim o seu relato (Público de 22-01-05, p.2) do discurso de um dos líderes partidários numa sessão política:
«O líder social-democrata apelou ao eleitorado que votou PSD nas legislativas de 2002: "Ninguém que confiou em nós tem razão para deixar de confiar." Mas esta frase foi toldada por um terrível lapsus linguae. Na realidade, o que se ouviu foi Santana dizer: "Ninguém que confiou em nós tem razão para deixar de desconfiar".»

O que é que permite à jornalista escrever que aquele dirigente partidário afirmou "Ninguém que confiou em nós tem razão para deixar de confiar", quando o que se ouviu ele dizer foi "Ninguém que confiou em nós tem razão para deixar de desconfiar"?

Alguém quer fazer desta questão um debate sobre a linguagem?

A Lenda De El Rei D. Sebastião

24.10.08

a cegueira dos ideólogos

15:06

I - Um prefácio cautelar


É sempre arriscado comentar citações isoladas de um texto mais vasto que não conhecemos. Contudo, das duas uma: ou a citação respeita o texto original, no sentido em que o texto original não desmente ou não atenua em outros passos o que consta da citação - e, nesse caso, estamos autorizados a comentar essa citação sem reservas e tudo o que dizemos vai direitinho para o autor original; ou a citação é uma má citação, porque descontextualiza ao ponto de trair o texto original - e, nesse caso, o que temos é de culpar o citador: pela desonestidade, pela inépcia, ou mesmo porque a citação deficiente denuncia o que o citador queria dizer e, em vez de dizer pela própria voz, disse deformando a voz de outro.


II - Uma tese repentista sobre uma espécie de sobreviventes


Vem este arrazoado a propósito de uma citação que o Público estampa hoje, de uma frase de Luís Pais Antunes no Jornal de Negócios de ontem. É assim:
«Nos tempos conturbados que atravessamos, o que 'fica bem' é gritar contra a 'ganância', o capitalismo, os privados, as ideias liberais e defender o papel insubstituível do Estado como refúgio e garante de todos os valores e princípios.»
Pois, o que aqui se mostra é uma imensa deficiência lógica. Apresenta-se como alternativa exclusiva aquilo que não tem de o ser. O Estado pode colaborar na garantia de certos valores e princípios, sem que tenha de fazer isso para todos. O Estado pode fazer parte dessa garantia, temporariamente ou dependendo das circunstâncias concretas, sem ser para isso insubstituível. E pode querer-se que o Estado tenha algum papel sem deixar de ser "pró-capitalista"; e pode reconhecer-se que há casos de ganância excessiva sem deixar de reconhecer o papel positivo de uma vontade moderada e razoável de ter mais e melhor.
É que há mais opções em aberto do que aquelas que os "ideólogos" são capazes de compreender. E aqui chamo "ideólogos" aos que fazem tudo o que podem para impedir que vejamos a realidade que está à frente dos nossos olhos. [Embora reconheça que outra classe de ideólogos são os que pensam que o que está a acontecer só tem uma determinada solução: aquela específica receita que os seus manuais revolucionários (mesmo que escondidos debaixo da cama) aconselham.] Esses "ideólogos" são os verdadeiros "cegos": querem dizer-nos que o fracasso das suas teses simplistas não existe. E para defenderem isso não encontram melhor argumento do que negar que existe aquilo que todos vemos. Até os cegos.

[Permito-me o descaramento de recomendar de quem é esta crise?]

Soberba, um dos pecados capitais. Por Milo Manara.

BD, Amadora, Festival Internacional, agenda




É já o 19º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, ou FIBDA 2008.
Somos amantes de BD, não de toda, porque não há gostos para tudo, mas este festival é uma festa de cultura a não perder. Não teremos tempo para reportagens bloguistas, mas aconselhamos os que ainda não gostam de BD a dar umas espreitadelas e a tentar perceber qual a razão de ainda não terem descoberto os prazeres deste mundo (bedéfilo).

Começa hoje. Este é o sítio do Festival. De sítio em sítio até ao FIBDA 2008. Boas leituras!

são os robots como crianças?



«Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que faltasse à sua entrevista – essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoraram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, 1958
(consultada a 2ª edição, de 1966, na Portugália Editora, pp. 14-15)

É espantoso este comentário de Vergílio Ferreira, em dois sentidos. Primeiro, em 1958, uma certa compreensão de questões que poderiam ser suscitadas pela robótica. Em segundo lugar, e noutro sentido, e constituindo para mim algum desapontamento, uma certa incompreensão das crianças. Para dizer como seria pobre o mundo dos robots, compara-o ao mundo das crianças. Já se teria esquecido, nesse tempo, da sua meninice? Contudo, em certo sentido, quando deixamos a meninice - sim, talvez seja isso - perdemos certas coisas imediatas. Embotamos alguns sentidos. Mas sofisticamos outros, ou não? Ou o problema é mesmo esse: "sofisticar"?

23.10.08

planos da pólvora, receitas culinárias



(Clicar, aumentar. Cartoon de Marc S.)


Os projectos grandiosos não estão condenados a ter sucesso...
Ele é o primeiro plano americano, o segundo plano americano, o plano dos europeus, o plano dos alemães, o dos ingleses, o dos espanhóis, o de Portugal, ele é a revolução por decreto para ontem que se faz tarde, a "moralidade" agora de repente a todo o vapor, ele é ai jesus a economia real, e as pequenas e médias empresas, e as famílias (qualquer dia "as pequenas e médias famílias", que em Portugal serão as micro, como as nossas PME), e os aforradores, e os anjos do céu aflitos com os créditos de santidade ao cuidado do cardeal prefeito da congregação da causa dos santos, e o cardeal aflito com o preço da púrpura...
Agora de repente lembramo-nos de tudo. E queremos o céu já. Por decreto. Por portaria. Por despacho normativo. Para todos. E a saldo - porque é um céu que se vende, pode ser saldado.
E que tal pensar a sério num mundo iníquo cujos mandantes até agora assobiavam para o ar?

[Contudo, há uma coisa ou outra que obedece aos comandos da máquina. Molemente. Até ver. Euribor a seis meses baixa dos cinco por cento. Enquanto outros esperam que seja agora a hora da vingança das suas revoluções eternamente falhadas: por exemplo, embarcando no discurso da diabolização do sistema financeiro. Dias incómodos estes, para um social-democrata como eu, tentado pela utopia, tentado pelo cepticismo, mas muito desconfiado dos profetas (tanto como dos anti-profetas). E afinal apenas interessado nos de cá de baixo.]

[Novo acrescento. Parece haver uma lei da proporção inversa entre a responsabilidade dos políticos com visão, que dizem e fazem o que deve ser dito e feito quando não é essa a corrente, e a capacidade para produzir palavras convenientes montadas no que todos os demais papagueiam. Durão Barroso, apelou hoje, em Pequim, ao estabelecimento de uma "nova ordem financeira internacional". Isso é quando os planos da pólvora são receitas de culinária. Cozinhar mais um mandato em que o presidente da Comissão Europeia, em vez de se assumir como o líder do órgão que tem a responsabilidade pela iniciativa, está sempre cativo das delicadezas de todos, especialmente dos grandes.]

é tudo surpresa?

fé na ciência









Este anúncios são do creme de beleza Tho-Radia. Estes reclames extravagantes relativos a supostos benefícios para a saúde a crédito do rádio eram comuns nos primeiros anos do século XX.







O creme Tho-Radia também era anunciado como capaz de curar as queimaduras solares.





O Tho-Radia era vendido nas farmácias, c. 1935.



Os que pensam que o rótulo "ciência" é uma garantia absoluta de razoabilidade - deviam pensar nestas pequenas coisas. E não me venham dizer que isto é atacar a ciência, porque as novas fogueiras inquisitoriais não nos impedem de pensar!

Material de base in Maria Rentetzi, Trafficking Materials and Gendered Experimental Practices: Radium Research in Early Twentieth Century Vienna, (e-book) Columbia University Press, 2007, http://www.gutenberg-e.org/rentetzi/index.html

22.10.08

a crise explicada aos miúdos



Hipotecas "subprime" - The Last Laugh - George Parr - legendas em espanhol



Para mais tarde recordar...

o david de miguel ângelo foi aos states

o Público foi comprado pelo Povo Livre?



Segundo o Público de hoje, em título na página 6 da edição impressa, "Deputados socialistas e membros do Governo passaram dois dias a fazer oposição à oposição". É uma notícia sobre as jornadas parlamentares do PS. Trata-se, portanto, de uma crítica a um partido numa normal actividade partidária. A esgrimir argumentos de luta partidária. Se o partido da maioria não ligasse nenhuma aos argumentos da oposição, isso é que seria aplaudido?
Espero que o Público, nas próximas eleições legislativas, faça uma declaração de apoio a um dos partidos concorrentes, como os jornais de referência fazem noutras paragens onde a civilização se impõe. Assim saberemos ao que vamos quando compramos o jornal. (Já sabemos, mas não porque eles se confessem.)
Ou será que o Público tem dificuldade em fazer isso porque não apoia nenhum partido em particular, mas sempre e apenas qualquer oposição a este governo?

21.10.08

colado com cuspo



Teixeira dos Santos afirma que alterações do PSD ao orçamento agravariam défice .


Líder do PSD prevê que Portugal cresça metade da estimativa do Governo em 2009 .


Será que o Ministro das Finanças ainda não percebeu que esse argumento já não se sustenta sozinho?
Quando o governo tenta compatibilizar duas ideias (primeiro, há outras premências além do défice; segundo, o rigor orçamental continua necessário), não basta defender o orçamento apenas com base numa dessas ideias e ignorar a outra. Quanto mais não seja porque o novo estilo de Ferreira Leite provavelmente não exclui tentar roubar o discurso "despesista" (com ou sem aspas) à esquerda parlamentar e sindical. Se ainda não se percebeu isto, podemos contar com um argumentário governamental colado com cuspo - talvez para se parecer mais com o simplismo raciocinativo da oposição?!

[Acrescento.]

Portugal no topo das desigualdades da OCDE.


Mas pior do que isso é a nossa social-democracia colada com cuspo: damos passos certos (e não se percebe como alguns não compreendem isso), mas passos curtos e nada protegidos contra os ventos da próxima madrugada. E temos de olhar para aí, sem nos assustarmos com os que conduzem Jaguar e temem que o papo-seco que a criança come tenha sido dado pelo Estado em vez de ganho suando as estopinhas.

atribuições sociais


Em meados dos anos 1940, Fritz Heider e Mary-Ann Simmel (*) mostraram um filme de animação (reproduzido abaixo) a uma série de pessoas e pediram-lhes para descreverem o que viam.





A maior parte dos observadores elaborou teorias acerca do círculo e do pequeno triângulo estarem apaixonados, acerca do triângulo grande que era mau e tentava correr com o círculo, acerca do triângulo que deu luta e permitiu ao seu amado círculo refugiar-se na casa, ...
Esta experiência é pioneira em chamar a atenção para o facto de as pessoas tenderem a usar descrições de comportamentos de interacção recorrendo aos termos que correspondem às nossas interpretações do comportamento social. A nossa capacidade para atribuir estados mentais àqueles com quem interagimos é tão importante na gestão das nossas relações, e fazer isso está de tal modo enraizado nos níveis mais fundamentais do controlo não deliberativo do nosso comportamento, que mesmo para descrever entidades que sabemos perfeitamente que não têm estados psicológicos (como as formas geométricas do filme) usamos termos que remetem para essas atribuições de estados mentais. Isso deve-se também à expectativa de que assim comunicamos melhor a nossa descrição a outras pessoas que dispõem do mesmo mecanismo interpretativo que nós.
Outra maneira de encarar esta questão é dizer que esta experiência demonstra que nós não vemos só aquilo que vemos. Também vemos o que nós próprios colocamos em cena.
Naquilo a que costumo chamar "ciências do artificial", este mecanismo pode ser explorado para darmos nós às máquinas aquilo que elas não têm: nós vemos o que queremos ver, mesmo que elas o não exibam.
Abaixo, outra animação que "brinca" com esta questão.





Noutra ocasião complementaremos esta nota com uma apresentação breve da teoria de Dennett acerca da postura intencional.

REFERÊNCIA:
(*)F. Heider and M. Simmel. "An experimental study of apparent behaviour". American Journal of Psychology, 57, pp. 243–259, 1944.