4.10.08

os factos são uma grande chatice



Escrevi aqui há dias que não há ASAE a mais.
Contudo...
Os "seres ideológicos" não ligam nenhuma aos factos. Acham que os factos é que têm de se encaixar nas suas ideias. E ai dos factos se os desmentem. O já longo ódio pseudo-liberal ou pseudo-anarquista à ASAE é um bom exemplo disso tudo. Alguns, nessas circunstâncias, escolhem a via do insulto: como escreve CMF "será falta de vergonha ou de neurónios". Quem não pensa como eles? Chama-se-lhes, por exemplo, "os súbditos do costume".
Isto a propósito desta posta.

[Ao CMF, um esclarecimento: não vou aí deixar comentários por em ocasiões anteriores ter recebido reacções urticárias à presença de um não convencido (eu) nesse espaço "libertado". Assim, para não lhe sujar os tapetes, falo daqui.]

3.10.08

The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom

2.10.08

esgotaram-se os colchões


Teixeira dos Santos: instituições portuguesas demonstram robustez para resistir à crise.


Consta que o Ministério das Finanças abriu os cordões à bolsa para que todas as instituições financeiras a operar em Portugal possam comprar colchões. É nos colchões que deverão guardar o dinheiro que ainda têm, fugindo assim ao mercado de crédito interbancário e colocando-se ao abrigo da crise. Até porque, quanto ao dinheiro nos colchões, poderão sempre dizer "não temos, não temos" e assim, quem sabe, eximir-se a eventuais responsabilidades.

os candidatos da oportunidade perdida



Samuel Salcedo, Serie Personajes, 2006-2007



Senado dos EUA aprova plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares.



Há homens que passam a vida à espera de uma grande tormenta para, enfrentando-a, revelarem a sua estatura maior que a espuma dos dias.
Há homens, outros, que toda a vida passam à sombra dos muros a tentar que nada os enfrente, nada os desafie, esperando nunca ter de sair do antecipado e das lições estudadas, esperando nunca precisar da coragem posta a uso.
Quer dizer: há grandes homens e pequenos homens (respectivamente, mulheres). Mas a diferença não se vê na cara - vê-se nas ocasiões.
Esta crise é a ocasião em que se revelaram os candidatos presidenciais americanos: revelaram-se incapazes de propor qualquer coisa de novo, revelaram-se mais uns pequenos gestores da vidinha sem memória nem futuro - porque se escondem atrás uns dos outros, no temor das sondagens e rezando apenas pela sua eventual glória de ser presidente, mesmo que para isso tenham de esvaziar a cabeça, paralisar as mãos e deixar correr o marfim.
Estes candidatos presidenciais perderam cobardemente aquilo que os grandes esperam toda a vida: uma oportunidade de sair do banal.

Crise financeira: Presidente francês convoca minicimeira europeia.


À cacofonia europeia aplicam-se as mesmas reflexões: "muita parra e pouca uva" + "sacudir a água do capote".

1.10.08

não há ASAE a mais


ASAE fiscaliza mais de 800 lojas e apreende 400 quilos de produtos com leite chinês .


Como os produtos são chineses, o povo aplaude. Se os produtos fossem portugueses, o povo bramava contra a tirania da ASAE e clamava que era uma espécie de nova PIDE e que a liberdade estava em causa e que o Estado devia deixar cada um intoxicar-se a seu bel-prazer. Mas os produtos não fazem mal ou bem consoante a nacionalidade - mas sim dependendo da respectiva composição. E a ASAE sempre soube disso. Os pseudo-anarquistas de pacotilha é que não.

política, feminino, intempéries


Susan Sarandon, da vilória americana que dá pelo nome de Hollywood , explicou hoje ao Público que, apesar de achar óptimo que uma mulher seja Presidente, não apoiou a candidatura de Hillary Clinton por não acreditar que "a resposta seja qualquer vagina, tem que ser a certa".


Confesso que não vejo qual é a intervenção da vagina no exercício presidencial.

Aliás, se tudo é uma questão de morfologia, Sarah Palin deveria servir igualmente bem.

Mais perto de nós, noticia-se que Ségolène Royal, candidata do PSF às últimas eleições presidenciais francesas, apareceu com uma surpreendente nova imagem num recente evento partidário. Só não se explica o que é que isso pode ter a ver com as suas ideias políticas.

Elisa Ferreira vai ser convidada para se candidatar à Câmara do Porto, diz concelhia do PS.


Já Elisa Ferreira candidata do PS a qualquer coisa que seja mais próxima da capital do que a sua actual posição em Bruxelas e Estrasburgo, levanta uma questão doméstica deste género: Sócrates, que tem fama de detestar Elisa desde que foi (ele) secretário de estado (dela), já a tolera entre muros, e ainda por cima para uma batalha onde ela seria "a" protagonista?

A questão é saber se a farda feminina não expõe excessivamente as suas portadoras às intempéries imprevistas (como Ségolène abaixo).






ajudas de estado respeitadoras do mercado livre


Comissão Europeia propõe revisão das regras bancárias sobre adequação de fundos próprios para reforçar estabilidade financeira.
Dizem eles:
«A Comissão Europeia apresentou uma revisão das regras bancárias sobre adequação de fundos próprios destinada a reforçar a estabilidade do sistema financeiro, reduzir a exposição ao risco e melhorar a supervisão dos bancos que operam em mais de um país da UE. De acordo com as novas regras, são impostas aos bancos restrições de crédito, para além de certos limites, a qualquer cliente, e as autoridades nacionais de controlo terão uma melhor visão global das actividades dos agrupamentos bancários que operam transfronteiras. A proposta, que altera as directivas vigentes relativas à adequação dos fundos próprios, reflecte uma ampla consulta dos parceiros internacionais, dos Estados-Membros e do sector. Vai ser transmitida ao Parlamento Europeu e ao Conselho de Ministros para apreciação.»



Barroso pede maior cooperação entre Estados-membros para enfrentar crise financeira.

A pergunta é: por qual razão agimos sempre depois da tormenta? Ninguém tinha dado por nada antes, ninguém tinha avisado? Ou o pensamento único é incapacitante?

Também estamos curiosos para saber como é que a Comissão vai reagir ao facto de vários governos europeus estarem a colocar dinheiro (ou pelo menos garantias) em várias empresas privadas que são essenciais para os respectivos sistemas financeiros não caírem pelo buraco. Será que vão considerá-las ajudas de Estado? Ou vão arranjar maneira de não as ver como tal, dada a aflição? Uma possibilidade de compromisso seria: só aceitamos ajudas de estado em géneros. Ou mais especificamente: ajudas de estado só passarão o crivo se forem concedidas em batatas frias e refrigerantes de cola.

Actualização. Parece que não somos só nós a pensar que as ajudas às instituições financeiras têm de ser apenas em batatas fritas e refrigerantes de cola. Lê-se no Público:
«A crise está a ser combatida de um modo que põe em causa as regras do comércio internacional em vigor no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), por se tratar de subsídios às empresas, na opinião do um dos seus árbitros para a resolução de diferendos.»

a arma do povo e o suicídio


Greve da função pública: hospitais, comboios e recolha de lixo são dos sectores mais afectados.


Se a greve é a arma dos trabalhadores, porque é tantos trabalhadores se irritam por outros trabalhadores usarem essa arma?
Não vale a pena vir com respostas simplistas. O certo é que só a "aristocracia laboral" ainda se pode permitir fazer greve. Nomeadamente os que ainda existem na administração. Os demais queixam-se dos efeitos, até porque não vêem como podem eles ganhar alguma coisa com isso. O sindicalismo não pode ser apolítico, mas a muitos cheira mal que as movimentações sindicais pareçam sempre tão político-partidariamente orientadas. E isso não é um problema?
Tudo isto são questões de quem pensa que a morte do sindicalismo forte e lúcido é também um pouco a morte da democracia. Mas são também questões de quem pensa que o sindicalismo dominante é fraco ou míope. Ou ambas as coisas. Seja ele vermelho ou amarelo.

ler a crise


João Rodrigues, artigo no Jornal de Negócios Online, intitulado Lições da crise: A história não acabou.


Para estimular a leitura integral, duas citações:

«Um dado ilustra a conjugação de medíocre crescimento dos rendimentos e de injustiça social, indissociáveis da configuração de capitalismo sob hegemonia da finança de mercado que emergiu nos EUA, a golpes de política, a partir dos anos setenta: entre 1947 e 1973, época de consenso keynesiano, de contra-poderes sindicais fortes e de mercados muito mais limitados e politicamente enquadrados, o rendimento das famílias mais pobres (20% da população) cresceu, em termos reais, aproximadamente 116,1% e o rendimento das famílias mais ricas (20% da população) cresceu 84,8%; entre 1974 e 2004, na chamada "Era de Milton Friedman", esse crescimento foi, respectivamente, de 2,8% e de 63,6% (Robert Reich, Supercapitalism, Cambridge, Icon Books, 2008, p. 106).»


«Os incentivos dirigidos para os gestores de topo, que fizeram explodir as desigualdades salariais, e que se revelaram agora tão perversos no sector financeiro, inscreveram a cobiça e a miopia no centro do sistema económico. A confiança e a moralidade, dois activos intangíveis fundamentais, são permanentemente acossadas pelas actuais estruturas económicas que impõem uma pressão concorrencial intensa. Na esfera financeira, esta inevitavelmente gera um aventureirismo cíclico que alimenta posições crescentemente especulativas, oleadas por uma inovação financeira sem controlo. A sua complexidade resume-se à criação de poderosos mecanismos de alavancagem e a uma ilusória dispersão do risco. O risco sistémico nunca desaparece, bem pelo contrário.»

O autor escreve regularmente em Ladrões de Bicicletas. Se eu concordo com tudo? Não. Especialmente quando toca às soluções alternativas. Mas a crítica informada é saudável. A ver se conseguimos continuar a pensar.

[Estes aqui deviam ler estas coisas: Senado dos EUA vota esta noite plano de 700 mil milhões para salvar o sistema financeiro.]

30.9.08

a líder da confusão



Samuel Salcedo, Speaker, 2007


A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, lamenta que o primeiro-ministro não tenha vindo mais cedo deixar uma palavra de serenidade perante a crise nos mercados internacionais e criticou declarações de responsáveis do Governo que “diabolizaram” o sistema financeiro.


De facto, mais vale estar calada do que abrir a boca só para dizer disparates. Fala pouco mas acha que o primeiro-ministro deve falar depressa e, se calhar, de cor: mesmo agora tenho dúvidas de que Sócrates ou os seus ministros económicos possam saber com rigor qual é a solidez do sistema financeiro português (será que os prevaricadores vão a correr confessar-se?), mas a senhora acha que o homem devia ter-se precipitado a dar as garantias que não tinha. E Ferreira Leite, além disso, ainda acha que se anda a diabolizar o sistema financeiro - mas, diabolizar?! Quem causou esta marosca toda? Cometeram-se crimes em catadupa - roubar à grande e à americana, sabe a senhora? Ou, se até agora parecia que só sabia de finanças, agora mesmo nesse campo passou ao puro disparate apenas para ver se debita mais decibéis do que um tal Menezes?

o rosa rubro e os famélicos de todo o mundo


Sócrates assegura que famílias portuguesas com poupanças podem estar tranquilas. O primeiro-ministro responsabilizou os Estados Unidos e sustentou que Washington tem a obrigação de tomar medidas para suster a propagação da crise.


Os republicanos da América andaram muito tempo a marimbar-se para o equilíbrio das contas públicas. Bush foi um tolo gastador. Mas agora descobrem-se contrários a gastar tanto dinheiro para tentar salvar os prevaricadores. Nesse ponto se calhar até têm alguma razão. Não faz sentido pensar, como também já se pensou em Portugal, que todos os problemas se resolvem deitando-lhes dinheiro para cima. Porque não resolvem.

Mao, Mao


Comissão Europeia acusa EUA da crise financeira mundial.


A Europa da União pode até estar relativamente menos corroída por práticas desviantes do capitalismo financeiro, mas parece deslocada qualquer arrogância face aos EUA. No fundo a tendência dos governos da UE e do executivo de Bruxelas é a mesma de todos os apóstolos do capitalismo: assenta na crença na existência e virtudes da ordem espontânea e na confiança de que o princípio "seja o que Deus quiser" é o mais adequado aos bonitos olhos azuis dos financeiros.
Na verdade, desde o Mercado Único Europeu, e especialmente desde o Plano de Acção para o Sector Financeiro (1995), a Europa tem trilhado, neste campo, um caminho onde se nota menos a integração positiva (estabelecimento de enquadramentos regulatórios comuns no espaço europeu) e onde prevalece a integração negativa (desmantelamento dos mecanismos de regulação nacional).
Assim estando as coisas, com a colaboração de todas as grandes famílias políticas (incluindo os socialistas), não parece ajuizado estar a apontar o dedo aos americanos, como se eles fossem - descontados o crime financeiro puro e duro, que talvez seja menos frequente na Europa - como se eles fossem "outro mundo", "pecadores" de "pecados" que por cá não se cometem.
Chegou o tempo de ver de que nos serve ter um ex-maoísta à frente da Comissão Executiva da União Europeia.
(Falta um ponto de interrogação no fim da frase anterior...)

caminhante passivo dinâmico (ou "o corpo é que paga")

Acredita mesmo que a inteligência está (apenas) "dentro da cabeça", no cérebro, no sistema de controlo ou lá no que se chame a isso? Então talvez queira perceber o interesse que tem o vídeo que se segue.





Pelo menos desde 1888 que existem tentativas documentadas para fabricar “brinquedos ambulantes”, isto é, brinquedos com a forma de um pequeno humano (ou mesmo de outros animais) que seriam capazes de “andar”, sem qualquer motor, apenas devido às características construtivas de tais objectos e à acção das forças físicas (como a gravidade) exercidas sobre eles.

Na segunda metade da década de 1980, supostamente inspirado por uma versão mais recente de um desses brinquedos, o engenheiro aeronáutico Tad McGeer desenvolveu uma versão mais sofisticada, implicando cálculos complexos dos muitos factores em causa. É o que agora se conhece como Caminhante Dinâmico Passivo. Trata-se “apenas” de um robot com duas pernas (mais exactamente, apenas duas pernas ligadas por um eixo), sem qualquer motor, sem sensores, sem qualquer programa para executar, sem qualquer tipo de computação daquela que estamos habituados a verificar existir nos “animais artificiais” da IA e da robótica. Os pés têm a forma de segmentos de arco para facilitar o “andar”.




Imagens do “Brinquedo Ambulante” de George T. Fallis, constantes da Patente 376.588 (USA), de 1888 (segundo cópia disponibilizada no sítio de Andy Ruina, do Laboratório de Bio-robótica e Locomoção da Universidade de Cornell).


Muitas versões físicas deste Caminhante reproduzem um tipo de passada que realmente faz lembrar um humano – apenas sendo deixadas livremente num plano ligeiramente inclinado.


Um modelo simples do Caminhante Dinâmico Passivo, tal como concebido por McGeer.





Dynamite, um modelo com joelhos construído por McGeer. As pernas têm uma altura de 80 cm e pesam um pouco mais de seis quilos. (Foto in McGeer 1992)



Um modelo mais recente construído por Martijn Wisse.


Na primeira versão apresentada (McGeer 1990a), as pernas do Caminhante Passivo Dinâmico não eram articuladas, mas os princípios estavam já explícitos. A Figura 1 desse texto (que se reproduz), incluindo a respectiva legenda, era muito clara acerca do que estava em causa: o que ditava o comportamento daquele par de pernas capaz de andar (numa ligeira descida) eram as características físicas daquele corpo e as forças físicas que sobre ele se exerciam devido a essas características e a encontrar-se num dado ponto do universo regido pelas leis da mecânica newtoniana. Pouco depois (McGeer 1990b), o engenheiro já tinha concebido um modelo com “joelhos”. A ilustração que se junta, bem como a respectiva explicação original, deixam claro que o caminhar se traduz na repetição de um “ciclo”. McGeer usa, assim, um conceito típico da teoria dos sistemas dinâmicos (um “ciclo limite” é um tipo de “atractor”, uma região do “espaço de estados” de um sistema para a qual tendem a ser levados os comportamentos desse sistema).


Esquema das forças que moviam o primeiro Caminhante Passivo Dinâmico. Nesta versão as pernas ainda não tinham “joelhos”. (Figura 1 in McGeer 1990a).




O modelo com joelhos (Figura 2 in McGeer 1990b). Esta imagem e a respectiva legenda original deixam claro que estamos perante um “ciclo”, que se repete de tantos em tantos segundos durante a caminhada.


A importância que este sistema tem para a questão do papel da morfologia na cognição é bem resumida por Fernando Almeida e Costa: “O caminhante dinâmico passivo é um exemplo extremo do trade-off entre controlo e morfologia. O controlo em sentido clássico é completamente substituído pelas dinâmicas que resultam de propriedades morfológicas do robô, como a forma e o peso das suas componentes, e as leis da física. Por outro lado, o comportamento do sistema resulta do seu estar-situado (…) e do acoplamento em tempo contínuo entre as propriedades do corpo e as do meio” (Costa 2001:8-9). Trata-se de considerar que muito do que dizemos ser “inteligência” está no corpo, não na mente (no software, no programa, no sistema de controlo,…). Está aí a razão para considerar que a robótica do desenvolvimento não pode ser inteiramente consequente com o seu programa sem dar mais atenção às dinâmicas que a morfologia encerra.


REFERÊNCIAS

(McGeer 1990a) McGEER, Tad, “Passive Bipedal Running”, in Proceedings of the Royal Society of London, Series B, Biological Sciences, 240 (1297), pp. 107-134

(McGeer 1990b) McGEER, Tad, “Passive walking with knees”, in Proceedings of the IEEE International conference on Robotics and Automation, 3, pp. 1640-1645

(McGeer 1992) McGEER, Tad, “Principles of walking and running”, in ALEXANDER, R. McN. (Ed.), Mechanics of Animal Locomotion (Advances in Comparative and Environmental Physiology, Vol 11), Berlim e Heidelberg, Springer-Verlag, 1992, pp. 113-139

(Costa 2001) COSTA, Fernando Almeida e, "Evolução, morfologias e controlo em sistemas artificiais: para além do paradigma computacional", in Análise, 22, pp. 65-93

29.9.08

pergunta a Barroso

imaginação...

noite dos investigadores


Escreveu-se aqui, na quinta-feira passada, que na sexta-feira estaríamos na "noite dos investigadores". E prometemos contar depois o que lá andaríamos a fazer. Cumprimos aqui e agora essa promessa.





Fomos fazer uma demonstração de uma experiência no âmbito de um projecto. O projecto chama-se "Robótica Institucionalista", está a decorrer no Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico) e teve a sua origem "remota" na minha tese de doutoramento em Filosofia da Ciência. Trata-se de procurar uma nova abordagem à Robótica Colectiva. A experiência consiste em tentar que um grupo de robots "compreenda" o enquadramento social ligado a um cenário de tráfego urbano e seja capaz de se comportar razoavelmente nele.



Usamos um cenário com um mini-segmento de um sistema de tráfego urbano (o cenário da demonstração é muito, muito minimalista).


Usamos uns pequenos robots designados por e-pucks.



Para demonstração só mostramos os robots a executarem autonomamente dois comportamentos básicos (evitamento de obstáculos e seguimento de paredes) e a usarem apenas uma gama dos sensores de que dispõem (só usam infravermelhos).


Para que saibam que não é fácil a vida dos robots, convidamos os circunstantes a "conduzir" um robot (controlando-o com o computador, via bluetooth) tentando dar uma volta a uma das rotundas do cenário, mas usando apenas a informação captada pela câmara frontal do robot para saberem o que se está a passar (evitando, portanto, olhar directamente para o cenário).


O Zé Nuno é que fez toda a despesa de explicar a experiência aos visitantes, no que foi muito eficaz e simpático.


O evento começou pelas 14 horas, suavemente... mas durou até depois da meia-noite, com muitos visitantes: um fluxo contínuo bastante forte a partir das 18.30.


Prova-se assim que, com uma "instalação" sem nenhuma sofisticação exagerada (só os robots e a ideia são sofisticados!!!) consegue-se transmitir um pouco do que fazemos em robótica colectiva.


Para não assustarmos (nem desiludirmos) os visitantes, não esclarecemos que quem estava ali a apresentar aquela experiência não eram engenheiros. Tratava-se de um matemático e um filósofo...


Alguns dos visitantes não terão percebido nada da explicação, mas mesmo assim tiveram direito à sua quota parte de fascínio!



Reproduzimos de seguida o texto de apresentação da experiência que foi distribuído no decurso da "Noite dos Investigadores".





Podemos partilhar as ruas com robots?

Será que podemos andar nas ruas das nossas cidades, a pé ou conduzindo algum tipo de veiculo, partilhando esse espaço com robots autónomos móveis? Poderão humanos e robots partilhar os mesmos espaços, interagindo de forma sofisticada no respeito por normas sociais que nós humanos consideramos razoáveis?

Robótica Institucionalista: Inteligência Social para Máquinas

O Deep Blue fez história ao tornar-se (em 1997) o primeiro computador a vencer no xadrez um campeão mundial da modalidade num encontro organizado de acordo com as condições tradicionais de torneio. A robótica colectiva tem levado os desafios mais longe ao colocar múltiplos robots em interacção entre si e com o mundo físico.

Algumas linhas da robótica colectiva procuram inspiração biológica, por exemplo recorrendo a inteligência de enxame, modelada a partir da robustez e flexibilidade com que colónias de insectos sociais, como certas formigas, certas abelhas ou certas vespas, realizam certas actividades complexas apenas com base em interacções simples entre comportamentos individuais geneticamente instalados. Mas a robótica colectiva tem mais recentemente procurado inspiração também nas ciências da sociedade. O projecto "Robótica Institucionalista" é um desenvolvimento recente do trabalho que o Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico) tem vindo a realizar há vários anos em torno das "sociedades artificiais", procurando agora mais explicitamente integrar conceitos das ciências sociais. A Robótica Institucionalista concebe as instituições como centrais em qualquer sociedade sofisticada - mesmo que também haja robots nessa sociedade!

O objectivo desta experiência é compreender como é que robots e humanos podem desenvolver actividades num ambiente partilhado. Como é que os robots saberão como comportar-se? Como é que os humanos saberão como lidar com os robots? Teremos nós de aprender novas regras para convivermos em "sociedades artificiais"? Procuramos fazer com que os robots usem as mesmas normas, as mesmas rotinas, as mesmas indicações que os próprios humanos estabelecem para seu próprio uso nos seus ambientes. Desse modo, os humanos poderão interagir com eles sem uma aprendizagem especifica, de forma "natural".

O cenário social em que estamos a trabalhar é, para já, muito limitado. O objectivo é termos robots capazes de comportar-se como condutores de automóveis num cenário urbano. Para isso terão de conhecer, nomeadamente, as normas constantes do código da estrada, os sinais que regulam o trânsito, os agentes com autoridade nesse contexto (polícias de trânsito) - mas também certas normas mais gerais (respeitar a integridade dos outros, por exemplo). Os pequenos robots que utilizamos (os e-pucks) deverão ser capazes de respeitar - mas também de não respeitar! - esse ambiente institucional. Sabendo, por exemplo, que penalizações podem resultar de obedecer ou desobedecer a certas prescrições.
Esta experiência está numa fase inicial. O que se mostra aqui é ainda apenas o problema: como podemos tornar estes robots capazes de se comportarem de forma civilizada ao volante ¬sabendo que mesmo levar os humanos a fazer isso não é fácil?