4.7.08

The Fly, The Opera


Quem se lembra do filme "A Mosca", de David Cronenberg, e além de se lembrar aprecia a metafísica desse realizador (como é o nosso caso), deve saber que está já no mundo uma ópera a partir da narrativa que essa filme retoma. Estreada em Paris, com o próprio realizador no papel de encenador, com música de Howard Shore, não teve oportunidade de contar connosco. E provavelmente isso não virá a acontecer, com grande pena nossa. Para lamber as feridas dessas impossibilidades, vamos dando espreitadelas no sítio da obra. E vamos deixando algumas imagens de lá, que sugerem que a inspiração não se perdeu.
Aproveitem.



































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3.7.08

mãos sujas


Colômbia: Ingrid Betancourt e três réféns americanos resgatados pelo Exército.

Há muitas mãos sujas na Colômbia, não apenas as das FARC. Isso acontece em muitos outros lados. Mas regozijo-me quando seres humanos são retirados de algumas dessas mãos sujas. E repugnam-me os que, nessa hora, se contorcem para evitar esse regozijo. Um ser humano é um ser humano é um ser humano é um ser humano. Será assim tão difícil entender?

desmame



(Clicar para aumentar. Cartoon de Marc S.)

as falas dos predadores


Façamos todos de Robin, e roubemos o Estado através da única arma que nos resta: a fuga fiscal.


Qualquer teoria pode encontrar hordas de defensores, por mais absurdas que sejam as teorias e mais ilustres os teóricos. Viver em sociedade e teorizar a selva é possível, como se lê.
Tal postura tem enormes vantagens para os seus portadores: podem continuar a fazer de conta que, por haver alguns casos em que a ordem emerge do caos, se pode daí concluir em geral que basta deixar trabalhar a mão invisível para que os colectivos se auto-organizem. E assim podem dispensar-se de pensar a ordem social, porque se encontram justificados pela ideia de que o laissez-faire absoluto a produziria.
"Apenas" precisam de ignorar os (numerosos) contra-exemplos.
As falas dos predadores, afinal, traduzem a preguiça do pensamento.


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2.7.08

se pensa que sabe o que é a linguagem...

... devia ler alguma coisa de filosofia da linguagem para compreender que falar não é tão linear como parece.
Caso não tenha paciência para essas leituras tem uma boa alternativa para arrancar: ir ao Teatro São Luiz ver/ouvir o Ricardo Araújo Pereira interpretar uma súmula das teorias de John Austin, um importante filósofo da linguagem, teorias essas que podem parcialmente ser resumidas pelo título "como fazer coisas com palavras".
Infelizmente, aquilo está mais do que esgotado. Eu tenho um mísero bilhete, que suspeito dar direito apenas a permanecer agachado debaixo de uma cadeira - mas ainda alimento a esperança de que, mesmo dessa posição inominável, possa dar algumas espreitadelas ao que se vai passar.
Entretanto, se o/a caro/a leitor/a for muito sério/a, como o espectáculo se anuncia, poder ler um texto relativamente aprofundado (um artigo introdutório numa publicação académica) neste sítio (português do Brasil, mas que se danem os puristas) acerca das principais teses do Austin.
Se os que não são filósofos podem fazer isto pela filosofia, o que não poderiam os filósofos (se estivessem para aí virados, claro).

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1.7.08

pela minha rica saúde


Lê-se hoje no jornal Público: «Se não se fizer nada entretanto, dentro de cinco anos poderemos ter um sistema de saúde que não responde às necessidades da população, alerta o Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) no seu relatório anual, que é oficialmente divulgado hoje em Lisboa.»

Actualização: O governo quer aumentar o número de médicos no sector público da Saúde através da abertura de mais vagas nas universidades, da identificação de estudantes portugueses no estrangeiro e da contratação de médicos de outros países, anunciou hoje a ministra da Saúde.

Um governo do PS tem de levar este aviso muito a sério.
Este governo tratou, e bem, de introduzir alguma ordem nas despesas da saúde. O desperdício é criminoso, especialmente num país pobre, como (comparativamente com a nossa região de referência) é o caso de Portugal. É, realmente, necessário gastar bem. Não gastar nem mais um tostão do que o necessário. Caso contrário, a direita e os interesses económicos rapidamente mobilizarão tal argumento para privatizar à tripa forra - o que se fará, não duvidem, em prejuízo dos que menos podem. E, quando o sistema público for apenas para os desgraçados sem alternativa, o seu clamor não chegará aos céus - e os que hoje bramam estarão calados - e o SNS tornar-se-á um pardieiro.
Mas - há sempre um mas - é necessário gastar tudo o que seja necessário. Não podemos pagar com doença o que se poupa em dinheiro. Está na hora, pois, de o governo do PS dar um sinal de que está atento a estes sinais.



30.6.08

um choque eléctrico no populismo de sacristia


A Nissan-Renault e o Governo português estão a discutir um projecto de investimento ligado aos carros eléctricos, mas, sem a luz verde da União Europeia para a concessão de apoios públicos excepcionais para o desenvolvimento de uma nova geração de veículos automóveis a energias alternativas, a negociação dificilmente chegará a bom porto.


Ponto 1: Afinal o papão do Estado, quer dizer: os poderes e dinheiros públicos, servem para alguma coisa, designadamente para alavancar mudanças necessárias mas que não surgem espontaneamente (nem são produzidas miraculosamente pelo mercado).
Ponto 2: São projectos destes, se concretizados, que significam enfrentar a crise nos seus fundamentos. Não é o novo assistencialismo da caridadezinha, descoberto por motivos meramente eleitoralistas, que pode fazer esse papel. O populismo de sacristia é completamente caricato porque esquece uma coisa simples: se não criarmos mais riqueza não podemos distribuir mais riqueza. Não obstante ser importante melhorar a distribuição da que existe, a tentação de pensar só nesse aspecto nunca deu bom resultado.