6.6.08

Lello, o farol do disparate


José Lello acusou Manuel Alegre de “parasitar o grupo parlamentar” do PS, viajando às suas custas para lançar um livro nos Açores.

José Lello continua a prestar bons serviços ao PS. O mesmo tipo de serviços que tem prestado frequentemente no passado. A saber: se Lello falou e disse, isso quer dizer que o que ele disse é exactamente o tipo de coisa que só prejudica o PS. Quer dizer: Lello é uma espécie de farol do disparate.
Mais uma vez, em mais um "caso Alegre", Lello mostra tudo o que o PS não deve fazer: pessoalizar, ignorar o significado político do que se está a passar, descer o nível. Infelizmente, a direcção do PS costuma acobardar-se perante Lello - em vez de condenar publicamente as suas atoardas, que era o que devia fazer. É que assim até pode parecer que Sócrates gosta que Lello continue a fazer estas palhaçadas. O que seria grave.

recado aos liberais apressados (na saúde e nem só)

10:51

Correia de Campos, em entrevista ao Diário Económico, mostra como estão enganados os que invocam o seu santo nome em vão para o erigir em mártir do bom liberalismo às mãos dos estúpidos dos estatistas.


Há uma certa tendência para mostrar Correia de Campos como exemplo do santo mártir cuja mera existência condena os cuidados do actual governo com o equilíbrio entre o público e o privado. A actual ministra da saúde, por exemplo, seria um "desvio de esquerda" desenhado com fins eleitorais e estaria a desfazer as boas coisas que Correia de Campos deixara. Essa crítica brilhou, por exemplo, quando o governo decidiu não ir tão longe como o previsto na partilha com os privados da gestão de novos hospitais. E, como de costume, os comentadores dessa onda tratavam os interesses privados como os "pobres coitados" que eram tão maltratados pelo governo e eram tão virgens inocentes que até fazia pena.

O próprio Correia de Campo, o tal que os defensores dos interesses privados como máximo da boa fé e da eficiência tratam como santo, explica, preto no branco, que isso não é bem assim. Que há razões para ter cuidado. Que há comportamentos dos privados que suscitam e justificam preocupação (talvez mesmo desconfiança). Que os servidores públicos têm razão em se sentirem escaldados com certos acontecimentos passados nessa relação público-privado. Em suma: que o respeito pelo papel dos privados não autoriza que se prescinda de defender o interesse público nem equivale a ser ingénuo com aqueles que usam a "comunicação" para obter do governo concessões que não devem ser feitas. Tanto por causa dos dinheiros dos portugueses como por causa da sua saúde.

Uma entrevista a não perder, que está disponível em linha aqui.

5.6.08

um estado mais pelintra que pilantra


[Especialistas dizem que a ASAE pode ser inconstitucional.]

[Ministério da Economia recusa inconstitucionalidade da ASAE.]

Não faltam recursos intelectuais a este país. Uma das suas ocupações mais interessantes consiste em tentar escrutinar todas as vias possíveis para bloquear qualquer parte do Estado que funcione. De qualquer modo, num Estado de direito as leis, e em primeiro lugar a Constituição, são para cumprir. Não se pode criar uma polícia para perseguir os governantes e legisladores que fazem as leis tão cheias de buracos que até parecem estar a formular convites ao seu desrespeito? (Não, não me digam que não é este o caso: pode não ser este, mas muitos outros são o caso.)


{Sobre isto escrevi antes: A ASAE das condições de trabalho ; Notícias de um país a funcionar ; O ódio à ASAE tem explicação ; Coisas limpas (duas sugestões à ASAE do espírito ; Boca do Inferno }

4.6.08

biocapitalismo

15:58

Ed Schafer, secretário da agricultura dos Estados Unidos, declarou na cimeira das Nações Unidas sobre alimentação que a biotecnologia podia ajudar a resolver a crise alimentar mundial, nomeadamente por via dos organismos geneticamente modificados.
Concordo: não seria possível modificar geneticamente os (futuros) governantes das principais potências mundiais para deixarem de ser favoráveis a políticas que consistem em pagar aos grandes agricultores dos países ricos para não produzirem, ao mesmo tempo que os pobres morrem de fome no resto do mundo?
Atenção: não vejam nisto uma atitude contra os pobres agricultores americanos e europeus - porque quem realmente ganha com a PAC na UE e com o proteccionismo americano não são os "pobres agricultores", mas sim os "ricos agricultores".
Menos biotecnologia e um bocadinho mais de políticas apropriadas, se faz favor.

uma religião


[FC Porto suspenso da Liga dos Campeões durante um ano .]

Independentemente do valor jurídico (ou desportivo) da decisão, uma coisa é certa: algumas pessoas, ou grupos, só começam a perceber o que está certo e o que está errado quando começam a perder dinheiro. E, nesse sentido, isto pode ser bom para ajudar a pôr alguma ordem num campo onde alguns parecem julgar-se acima de tudo e de todos.
Alguns, no lugar de Pinto da Costa, pensariam: vou criar um partido para dar algum uso à clientela.
Se fosse nos EUA, Pinto da Costa poderia, para ficar praticamente imune a qualquer controlo, criar antes... uma religião.

alegre política espectáculo

09:14

Manuel Alegre declarou estar no comício para "quebrar o tabu e o preconceito segundo o qual as esquerdas não se podem unir".

Manuel Alegre foi à "coisa". Uns diziam que era um comício, outros que era uma festa. Não importa muito. Uns diziam que era do Bloco, outros que era de Alegre. Devia ser de Alegre, porque há muito tempo que Alegre só vai a missas em que ele seja o oficiante: essa é a sua noção de "colectivo". Alguns tinham a esperança de que fosse para avançar ideias acerca de como remar contra os males do mundo. Outros achavam, com esperança ou com estratégia, que a coisa fosse para tentar travar o PS, o seu governo e a sua política. Destes, certamente estavam errados os que esperavam que dali saísse alguma ideia nova acerca de como melhorar o mundo.
Terá Alegre proposto que a União Europeia, num momento em que a ameaça de fome aumenta por todo o mundo, deixe de pagar aos seus agricultores para NÃO produzirem?
Terá Alegre proposto que a pesca deixe de ser asfixiada pelos pequenos monopólios efectivos que controlam as lotas, em prejuízo dos pescadores e dos consumidores, sob a protecção de regulamentos estalinistas que abençoam a especulação?
Terá Alegre explicado como as famílias condenam os seus filhos à mediocridade quando os protegem no desprezo pela educação e pela escola?
Terá Alegre feito sentir que os funcionários públicos que dormem à sombra da bananeira, porque não querem ou não sabem fazer a sua parte, estão a matar o "Estado social"?
Terá Alegre alertado para a necessidade de a legislação laboral contribuir equilibradamente para o progresso das empresas e para a melhor fortuna dos trabalhadores, abandonando o actual estado de modorra indiferente aos desafios comuns?
Isso é que seriam assuntos para mostrar que a esquerda existe. E, se Alegre dissesse isso, e muito mais, eu apoiaria - fosse a favor ou contra o governo. O meu ponto não é a lealdade a um governo ou a um partido. O meu ponto é a exploração populista da pobreza (dos outros), pelos políticos que repetem a mesma receita anos atrás de anos - mas sem nunca provarem do caldo que resulta da sua própria receita.
Nada há ao cimo da terra que faça tanto mal à esquerda como os auto-proclamados profetas da esquerda que permanecem indiferentes à realidade.
Entretanto, os meus parabéns a Louçã, o trotskista que, passados todos estes anos, reinventa as velhas tácticas trotskistas para parasitar os grandes partidos de esquerda enquanto os acusa de desvios de direita. Ao menos esse, com a velha superioridade moral dos revolucionários, sabe ao que anda.

3.6.08

a esquerda alegre

14:11

O porta-voz do PS talvez não seja propriamente pessoa com que seja fácil simpatizar em termos pessoais. Contudo, quando Manuel Alegre reage às declarações do porta-voz do PS acerca de certas acções políticas do mesmo Alegre com a declaração «Antes do Dr. Vitalino Canas saber o que era a política, já eu tinha sido preso por lutar pela liberdade», o que Manuel Alegre está a mostrar é arrogância.
Um tipo de arrogância compósita:
- a arrogância individualista que não sabe reconhecer quando um indivíduo age em nome de uma instituição (Vitalino Canas falava em nome de um partido político, uma instituição central numa democracia, e foi para isso escolhido pelos órgãos legítimos - mas Alegre só reconhece legitimidade a si próprio pela graça de deus);
- a arrogância dos pretensos revolucionários que se acham donos dos frutos da revolução (Alegre ter-se-á batido pela liberdade, logo está acima de qualquer crítica);
- a arrogância dos populistas (que recorrem frequentemente a qualificações pessoalizadas para desviar os argumentos políticos, que são argumentos acerca do que fazer na vida pública);
- a arrogância dos aristrocratas de qualquer coisa: "eu pertenço à velha guarda, calem-se os recém-chegados".
Tanto fumo, afinal, apenas para mostrar não tem nada de novo a propôr - como aliás nunca teve. A única coisa que Alegre tem de esquerda é a voz. O resto que tem para dar é da mesma matéria: ar.
E isso é especialmente grave, porque em situações de crise é que se precisa de quem pense e invente novas saídas para velhos problemas. A esquerda alegre, pelo contrário, apenas trata de sobreviver agitando slogans. Essa esquerda é, aliás, a que mais convém à direita.


A imagem de um partido que alguma malta "de esquerda" apreciaria

(que me desculpem Wania Corredo e os Unidos da Tijuca e O Globo)

o que temo

biodiversidade


Ministros do ambiente da União Europeia discutem a biodiversidade à hora do almoço...



(Clicar para aumentar. Cartoon de Marc S.)

2.6.08

o que nos ensinam Hillary e Obama



(Clicar para ampliar. Cartoon de Marc S.)


A disputa entre Hillary e Obama nas primárias democráticas americanas é um bom espelho da política dos nossos dias.
O senador Obama nunca explicou ao que vem e apoia-se em chavões vazios para espalhar o seu charme. Tanto o vazio como o charme são coisas que vendem bem no mercado das aparências que domina a política ocidental.
A senadora Clinton preparou-se a vida toda para o posto que mais ambiciona, coisa que é aconselhável em qualquer político sério. Mas tornou-se tão nítido o seu profissionalismo que afastou os que pensam com o coração (e o coração importa muito). E, provavelmente, está a pensar mais nela mesmo do que no país.
E, mais uma vez, uma parte da questão política decide-se na secretaria: estados importantes vão estar subrepresentados na convenção democrata por razões formais. É claro que o respeito pela "forma" é parte importante da democracia, mas é arriscado dar a ideia de que os democratas não são imunes ao tipo de expediente que deu a (falsa) vitória a Bush sobre Al Gore.
Pior do que isso só a evidência de que o racismo e o sexismo continuam decisivos: muitos não votariam Obama por ele ser preto, muitos não votariam Hillary por ela ser mulher.
E essa é para mim a questão "civilizacional" que está em causa. Há tempos uma amiga chocou-se quando lhe perguntei: é mais interessante ter o primeiro preto como presidente dos States ou ter a primeira mulher no lugar? Mas essa é a minha questão. E é pena se não for nem um caso nem o outro. Como provavelmente não será, no final das contas.

eis os culpados da carestia alimentar

nem todas as operações plásticas são iguais...


Dos jornais: "Uma estudante francesa muçulmana mentiu sobre a sua virgindade. O homem com quem casou,engenheiro francês convertido ao Islão, quis anular a união. Um tribunal deu-lhe razão e a polémica estalou em França."




Umas vão ao planeamento familiar, outras à cirurgia reconstitutiva... do hímen.
(Cartoon de Marc S.)

1.6.08

a eleição de Manuela...

15:06

... para Presidente do PSD é a que menos dificulta um governo do Bloco Central na próxima legislatura. Isso pode ser bom para o país, se essa for a única maneira de fazer as reformas necessárias e acerca das quais a "esquerda" (BE, PCP e Alegristas) se recusa a pensar. E isso também pode ser bom para o PS, se Sócrates não fechar de tal modo as portas à esquerda que fique refém do PSD.
Quero eu dizer: se o PS ganhar as próximas eleições com maioria relativa é impensável que não faça as alianças que garantam a maioria absoluta para continuar o ciclo reformista. A melhor maneira de negociar alianças é ter várias opções: se for evidente que o PS não pode aliar-se à esquerda, o PSD terá mais força para exigir preço de leão em qualquer acordo; se a aliança à esquerda estiver em aberto, e for a tal dita esquerda a rejeitá-la, essa esquerda terá de pagar pela oportunidade perdida. Para tal é preciso menos simplismo na forma como a direcção do PS trata o problema da relação com o BE e o PCP.
Ou, então, será Manuela a futura vice-primeira-ministra. E depois virá Passos Coelho derrubá-la, derrubar o Bloco Central e levar o PSD às futuras vitórias - como Cavaco fez a Soares há uns largos anos, lembram-se?