30.5.08

tapar o sol com dinheiro


[Cavaco Silva contraria Jaime Silva e defende mais apoios aos pescadores.]

Já quando era Primeiro-Ministro Cavaco Silva preferia o método de deitar dinheiro para cima dos problemas. Em vez de os resolver. Assim gastou milhões da Europa sem mudar nada de essencial no perfil de especialização da economia portuguesa. A adiar.
Agora, como Presidente da República, parece estar na mesma. E, ao mesmo tempo, continua a apreciar a demagogia (definição: dizer o que o "povo" quer ouvir, mesmo que não corresponda ao que é necessário fazer). Cavaco continua a preferir alimentar ilusões. Coloca-se, assim, objectivamente, ao lado dos que, ao mesmo tempo que em sede político-partidária bramam por mais liberalismo, em sede empresarial clamam por mais ajudas do Estado. Ambos os clamores saindo pelas mesmas bocas. São essas bocas que Cavaco alimenta.
Isso evitar-lhe ter de pensar que o mundo é mais complicado do que isso. E que o que há a mudar é muito mais fundo do que ele estaria disposto a concordar.

29.5.08

O carro a água ou as várias faces do capital


(Foto do sítio do Teatro Nacional D. Maria II)



Ontem a ida foi ao teatro. David Mamet no Teatro Nacional D. Maria II, "The Water Engine" traduzido infelizmente por "Um Conto Americano" (porque não havia de ser "o carro a água" ou "o motor a água"?), a contar como o capitalismo é mauzinho para as pessoas espertas mas isoladas: o homem, que se faz passar por engenheiro sem o ser (será por isto que escolheram a peça?!?!) inventa um motor que funciona a água que o poderia tornar rico - mas acaba desgraçado pelos maus que lhe querem roubar a ideia em vez de o ajudarem honestamente a introduzir a patente. À mistura havia de vir a crise americana dos anos 1930. E tudo junto é apresentado como um grande produção.
Desilusão. A "grande produção" equivale a muitos meios não se sabe bem (a maior parte das vezes) para quê, muitos faits divers perdidos no meio daquilo tudo - e, a maior parte do tempo, representação insuficiente para o que está em causa. Sensação geral mais próxima do espectáculo de variedades do que do teatro. Enfim, não me deu o sono, o que já não é mau.

Entretanto, se o ponto a ilustrar era (também) como o sistema capitalista afinal não é tão fair como o pintam - e não é -, posso sugerir outra coisa mais fácil de consumir, mais realista e mais verdadeira a ilustrar o ponto.

O filme TUCKER, The Man and his Dream, de Francis Ford Coppola, 1988, conta a história verdadeira de Preston Tucker, um americano que acreditava na livre iniciativa e que tentou colocar no mercado um automóvel inovador logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. E o filme também conta como uma aliança entre os grandes fabricantes de automóveis e certos departamentos governamentais conseguiu impedir Tucker de colocar o seu automóvel maravilha à venda. Para aqueles que pensam que o mercado nasceu livre e se mantém naturalmente livre, para aqueles que gostam de ser distraídos de todo o envolvimento institucional que é necessário ao funcionamento do mercado, vale a pena ver este filme. Há um sítio dedicado a esta história: The Tucker Automobile Club of America.

política espectáculo


[Procura de diálogo à esquerda junta socialista Manuel Alegre e Bloco.]

Afirmou Alegre: "É um acto novo que pode trazer confiança e é um sinal de que há outras coisas, outros mundos, que há esquerda".
Não, Manuel Alegre. Um sinal de que há coisas novas seria que essa esquerda apresentasse propostas realistas (realizáveis) que encarassem os problemas com outros olhos. Mas isso é mais difícil do que dar espectáculo. E nisso a "esquerda" está como a "direita": é só fumaça, nada de novo. Infelizmente.
Em termos de "ser de esquerda", Sócrates não será ave de grande porte, é certo. Mas pelo menos não sabe de ideologia o suficiente para estar sempre a ler-nos os velhos manuais como se fosse o último grito da inovação. E, em tempos de tanta poeira ideológica, uma certa ignorância filosófica de Sócrates até sabe bem.

27.5.08

pensar desde já na próxima legislatura

11:57

[Mário Soares avisa o PS contra a pobreza e as desigualdades ].

O trabalho do actual governo não se esgotou. Longe disso: está muito por fazer em termos de levar o país a compreender quanto rigor e esforço nos falta fazer para merecermos um futuro melhor. Mas parece claro que urge a construção de um novo horizonte: dar um sentido novo, um suplemento de alma, a esta fase de insistência no sacrifício. O PS, mas também os demais, devem começar a pensar que prioridades devem ser apontadas ao país na próxima legislatura. A actual disputa interna no PSD, saudável, deve ajudar a criar a consciência de que chegou o momento de tratar disso.
O artigo de Mário Soares é apenas mais um dos sinais de duplo aspecto que por aí têm aparecido: primeiro, alguns pensam que o mais difícil já passou e está na hora de recomeçar a redistribuir; segundo, alguns pensam que o PS promoveu uma "legislatura de direita" (a actual) e agora pode lançar-se a uma "legislatura de esquerda" (a próxima). Mas ambas as percepções estão erradas. Primeiro: nada de seguro está ainda ganho quanto à passagem do nosso país de um estado de ilusão permanente acerca das fontes da riqueza para uma compreensão de que sem esforço, mais e melhor trabalho, e mesmo algum sacrifício, nada nos cai no colo. Segundo: esta legislatura, com o seu discurso rigorista, não foi de direita; a próxima legislatura não pode ser "de esquerda" no velho sentido de replicar as soluções redistributivas distraídas da respectiva sustentabilidade.
Assim, o PS tem de facto a responsabilidade de começar a delinear uma próxima legislatura que seja realmente de esquerda mas sem as velhas ilusões: ligar, ligar sempre, nunca separar, duas faces da mesma moeda: um país a trabalhar mais e melhor, um país onde se recompense mais e melhor o trabalho e não a especulação ou a ocupação dos lugares de privilégio.
Provavelmente o artigo de Mário Soares alerta para duas coisas: é preciso pensar nas desigualdades; não é razoável voltar a tentar atacá-las com abordagens assistencialistas.

26.5.08

"Como as células constroem um corpo sem terem um plano"


A quarta conferência do Ciclo "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais" terá lugar nesta quarta-feira, 28 de Maio, pelas 17:30. Intitulada "Como as células constroem um corpo sem terem um plano", será proferida pelo Professor Jorge Carneiro, do Instituto Gulbenkian de Ciência / Laboratório Associado de Oeiras.

A conferência terá lugar no Anfiteatro do Complexo Interdisciplinar, Instituto Superior Técnico (campus da Alameda). Mais informação sobre localização aqui.

Mais informações sobre esta conferência, incluindo um resumo alargado da mesma, aqui .


Enquadramento desta conferência na temática do Ciclo



O ciclo de conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais” foi concebido como iniciativa de apoio aos projectos de Robótica Colectiva em desenvolvimento no Instituto de Sistemas e Robótica (pólo do Instituto Superior Técnico). A robótica colectiva investiga as formas de estruturar múltiplos robots num mesmo cenário e de os controlar em vista à concretização de uma dada tarefa. Desse modo, além de participar num tipo de investigação que aceita o lugar do corpo na inteligência, contribui para ultrapassar o paradigma da inteligência como fenómeno puramente individual e para começar a pensar a inteligência como inteligência da relação em colectivos de alguma complexidade.

Dois tipos de inspiração têm concorrido para iluminar os modelos de fenómenos colectivos empregues pela robótica: a inspiração biológica e a inspiração nas ciências da sociedade. Contributos anteriores neste Ciclo de Conferências ajudaram a colocar em perspectiva certas transferências conceptuais que vão das ciências da sociedade dos humanos para a investigação com “sociedades artificiais”. A presente conferência ilustrará uma das linhas de inspiração que mais força têm tido na robótica colectiva: como é que fenómenos biológicos podem ser encarados como exemplos bem sucedidos de um grande número de entidades cuja acção coordenada resulta na consecução de alguma tarefa complexa que não estaria ao alcance dessas mesmas entidades se elas agissem isoladamente ou de forma não conjugada. Para aí aponta o título da quarta conferência do Ciclo: “como as células constroem um corpo sem terem um plano”. Este ponto de vista, pela sua riqueza, abre para várias outras linhas de interrogação, nomeadamente: até que ponto serão os “colectivos biológicos” comparáveis a sociedades de indivíduos “sofisticados” como os humanos? O que os torna comparáveis e o que os torna distinguíveis quando se trata de os explicar ou quando de trata de os considerar como modelos para colectivos artificiais?

[Clicar aqui para aceder a um resumo alargado da conferência preparado pelo Professor Jorge Carneiro.]

[Clicar aqui para aceder a nota biográfica do conferencista.]

[Clicar aqui para aceder a nota biográfica do comentador.]