1.2.08

"Cinco anos ardendo em lume brando". Brando?!

Uma boa notícia, por um lado. Por outro lado, a história de uma pulhice. A ler devagar, que vale a pena. Merece que demos atenção à justiça quando ela corrige a injustiça. Está mencionado aqui e está descrito em pormenor aqui.
Um abraço, Eduardo.

o problema dos quadrados

Luís Miguel Cintra, em declarações ao Ipsílon (Público) do passado dia 11 de Janeiro, a propósito do novo espectáculo em cena na Cornucópia, A Floresta, de Aleksandr Ostróvski: «O que é interessante perceber aqui é que tudo tem várias faces, a realidade não é quadrada.»
Quanto ao espectáculo: começamos por achar que tudo é uma comédia, coisa leve - mas depois vamos percebendo que as coisas leves por vezes escondem as mais pesadas verdades.

31.1.08

Acerca dos disparates dos doutrinários

Desidério Murcho escreveu no Público (Lei, ortografia e liberdade) sobre o acordo ortográfico num estilo doutrinário, aquele estilo que permite falar de coisas que se conhecem pela rama com base fundamentalmente em "grandes princípios" de doutrina. Um estilo que alguns consideram filosófico, embora alguns filósofos achem que só os "filósofos continentais" é que usam dessa receita.
João Pinto e Castro contra-disse no Cinco Dias, com 2008, Ano Internacional da Batata. Daí cito apenas: Este é precisamente o tipo de abordagem doutrinária que dá má fama ao liberalismo, uma ideia de grande valor que, pela minha parte, não estou disposto a abandonar a quem dela faz tão mau uso.
Vale a pena ler e seguir alguns aspectos da polémica. Nem sequer entro na parte substantiva da questão. É que me movo mais pela necessidade, que se torna cada vez mais importante, de tomar cautelas com os ideólogos, uma espécie que regressa em grande estilo e que agrupa os que se estão muitas vezes nas tintas para verificar a base objectiva dos seus argumentos, ou para ponderar as contingências, contentando-se em estarem a contribuir para a sua "guerra justa". E esses ideólogos não atacam só do lado norte, nem só do lado sul. Vêm também do leste e do oeste - e até de orientações cardeais mais conspícuas. E são um perigo.
Um perigo para a parte concreta da liberdade que não se compadece com os que atulham a boca com a palavra mas a julgam pau para toda a colher.

O dilema da saúde

13:50
Segundo os jornais (neste caso, o Público), um habitante de Anadia teria dito: "Agora até para levar um ponto num dedo temos que ir para Coimbra."
Não interessa agora se isso é ou não exacto. O que interessa é que esse lado da questão é legítimo. E interessa também que há outro lado da questão que não é menos legítimo.
É que não pode estar incondicionalmente cativada uma equipa de médicos e outro pessoal de saúde para dar um ponto num dedo, especialmente se isso significar que há mais urgentes e mais graves doenças que ficam sem ter quem acuda.
O dilema da saúde está também aí: é que "a rua" (ou pelo menos os que exploram "a rua") acha que o primeiro aspecto importa, mas o segundo não pesa nada. Mas pesa. Só não pesa para quem pode pagar o privado. (Sim: racionalizar o SNS só interessa verdadeiramente a quem precisa dele, não aos que preferem pagar para não usar o serviço público.) Só não pesaria num país onde não houvesse qualquer tipo de constrangimento financeiro.
Infelizmente, ainda não tive ocasião de visitar nem um único país completamente desprovido de limitações à despesa pública.

29.1.08

Remodelação

Isabel Pires de Lima não sei quem seja. Portanto, nada penso sobre a sua saída. Quanto à saída de Correia de Campos, das duas uma: ou vai mudar a política de saúde, e nesse caso espero que se explique bem o como e o porquê, ou é apenas o sacrifício do protagonista - e nesse caso alguém cedeu à política das aparências. Se isto é para começar a campanha eleitoral, é um mau começo.

O ódio à ASAE tem explicação

É o ódio a um Estado que funciona.

Na noite passada investi umas horas a ver na televisão a transmissão em diferido da audição do Inspector-Geral da ASAE no Parlamento nacional. E percebi umas poucas coisas (além de ter percebido que os jornais, mesmo os "de referência", esconderam o melhor que puderam grande parte do que o homem disse).

Primeiro: a ASAE, contrariamente a muitos organismos do Estado, resulta de uma racionalização profunda de meios e métodos, dando como resultado um enorme acréscimo de eficácia e eficiência. Isso desagrada a todos aqueles cuja estratégia de fundo, assumida ou não, mas assente numa ideologia identificável, passa pelo enfraquecimento do Estado. (Será daí que vem o facto de o Presidente da República se permitir fazer graçolas sobre um organismo público que se encontra sob escrutínio dos órgãos de soberania e sob ataque dos que defendem que as leis são para cumprir quando calha, mesmo que esse organismo tenha, entre outras, pesadas responsabilidades de polícia criminal, como é o caso da ASAE?)

Segundo: a ASAE, levando a sério a missão pública que lhe foi confiada, faz cumprir a lei que existe e não o espantalho de lei que resulta de aprovar os regulamentos e depois esquecer que eles existem. E aponta, provavelmente, para trabalho de casa por fazer em torno de certos "pormenores" que exigem melhor legislação - em vez de esperar que a inércia do "deixar andar" resolva os nossos problemas.

Terceiro: a ASAE desnuda a habitual hipocrisia nacional, nomeadamente daqueles (por exemplo, associações empresariais) que concertaram com a ASAE os seus instrumentos de operação (por exemplo, catálogo de items a inspeccionar) e depois os vêm criticar - mas também daqueles que aprovaram as leis mas, à primeira borrasca, criticam a sua aplicação.

Quarto: a ASAE é mais uma vítima do mais antigo método de política de sarjeta: o boato sem fundamento - como se viu pela quantidade de "casos" que ali se mostrou serem pura imaginação.

Afinal de contas, a coincidência do PCP e do CDS na mesma causa política tinha de ter uma boa explicação: a "boa alma nacional portuguesa", o nacional-porreirismo e a balda como sistema, continuam a ser a "ideologia espontânea" da maioria das famílias políticas deste jardim à beira-mar plantado. Com a benção do "mais alto magistrado da Nação", medrosamente escondido em graçolas, incapaz de dizer com clareza se sim (está de acordo que os organismos públicos cumpram a respectiva missão) ou sopas (acha que as missões podem sempre esperar para mais tarde, porque um país com uma porrada de séculos bem pode esperar mais alguns até se tornar num território de primado do direito).

Claro, nada disto tem o que quer que seja a ver com aqueles para quem a mera existência do "direito" é um atentado à liberdade. Aqueles para quem liberdade é cada um fazer o que lhe dá na gana.

Ciência e humanidade

Steve Joshua Heims, no seu livro The Cybernetics Group (de 1991), cita (na p. 267) A. Einstein como tendo dito (e escrito):
«We should be on our guard not to overestimate science and scientific methods when it is a question of human problems.»
Sei de alguns, por aí, que, perante declarações similares proferidas hoje em dia, clamariam "lá vêm os inimigos da ciência".
Mas esses clamantes são os verdadeiros inimigos: tanto da ciência como da humanidade.

27.1.08

O que seria um governo da nação ao jeito do Expresso...

... é algo que podemos ajuizar com base em duas pistas que nos deixa esse semanário na sua edição de sábado passado.

Primeira: a propósito de Correia de Campos, ministro da saúde, por a esse homem "não lhe passar pela cabeça sair do Governo", escreve-se na primeira página, como legenda de fotografia do dito: "Agarrado à cadeira". Aparentemente, pois, o Expresso o que gosta não é de ministros que levam o seu trabalho até ao fim, arcando se necessário com a respectiva impopularidade, mas de ministros que desistem face às dificuldades. Um governo onde os ministros só ficariam enquanto durasse o estado de graça, um governo guiado pela bússola da popularidade, parece ser o que aqui se deseja.

Segunda pista: o ministro da agricultura, Jaime Silva, é avaliado nos "baixos" (p. 6) por causa das subidas do preço do leite e da suspensão da passagem à mobilidade especial de 60 funcionários - e o responsável pela coluna comenta isso assim: "Quem semeia ventos...". Aparentemente, pois, o bom governo é o que não semeia ventos: não se trata de avaliar políticas (coisa que não se pode fazer numa coluna de "bocas" como esta), mas de aconselhar a ser dos que deixam as coisas quietas. Porque, claro, não há revés que chegue a quem nada faz.

Política em Portugal. Comentadores à portuguesa. O que conta é embarcar na onda e salvar as aparências.