28.12.07

Desponta uma luz no jornal do sr. Fernandes (ainda a novela BCP)

O quotidiano Público, depois de se ter esgotado nos últimos dias a cobrir a novela BCP exclusivamente do ponto de vista da sua guerrilha político-partidária, ponto de vista esse que quase se esgota no "é preciso escorraçar os socialistas e quem os acobertar de qualquer lugar proeminente em sectores estratégicos", deixa que se coloque finalmente uma questão importante.
João Duque, Professor Catedrático doISEG (não um dos jornalistas da casa), na sua coluna de opinião do suplemento Economia (não no espaço noticioso de todos os dias), pergunta "Quem defende o interesse públco, o interesse da Caixa?". Se um "general" passa de um "exército" para outro (da CGD para o BCP) quem defende o "exército" que é público? Acho que há várias respostas possíveis a essa questão - e não necessariamente a sugerida por Duque. Mas, em todo o caso, essa é provavelmente a questão mais interessante deste caso. Mas, é claro, uma questão que não interessa muito à "linha geral" do jornal de Belmiro, pelo menos sob a batuta do senhor Fernandes.

27.12.07

Ainda as lições de jornalismo do sr. Fernandes

Em editorial de hoje, no jornal de Belmiro, do qual toma conta por estes dias, escreve José Manuel Fernandes: «Honra aos que resistem, aos que não aceitam as "coincidências" e as "inevitabilidades" que caracterizaram os últimos dias de manobras indecorosas em torno do BCP.» Estará Fernandes a referir-se à esforçada campanha do jornal que dirige para tentar evitar uma determinada solução para o BCP?
No mesmo editorial (um editorial é um texto onde se dizem coisas profundas acerca do mundo, para lá da espuma dos dias, ou então um texto onde os responsáveis por um órgão de comunicação social tentam limpar-se das tolices que deram à luz) - dizíamos: no mesmo editorial, o senhor Fernandes considera que a solução Santos Ferreira para o BCP é "descaradamente patrocinada pelo PS" e que essa alegação se encontra provada pela "forma acalorada como Jorge Coelho a defendeu no programa A Quadratura do Círculo". Quer dizer: não só um gestor competente deveria estar impedido de prosseguir a sua carreira por ser socialista, como os outros socialistas deviam ser obrigados a calar-se perante essa tentativa de limitação dos direitos cívicos de uma parte da população.
A direita habitou-se a pensar que o normal é que seja ela a governar e que o acesso da esquerda às rédeas da nação é contra-natura. O sr. Fernandes quer estender o preceito aos "sectores estratégicos" e proibir os socialistas de lá pisarem. Sim, porque nem o sr. Fernandes tem a lata de afirmar que Santos Ferreira não tem as credenciais profissionais para o cargo a que agora ambiciona. E só isso poderia dar um pingo de legitimidade ao que o sr. Fernandes tem vindo a fazer nestes dias. Mas mesmo esse pingo de legitimidade lhe falta.

As lições de jornalismo do sr. Fernandes

Fernando Ulrich, presidente do BPI (atenção: o BPI não é uma repartição pública, nem uma secção do PS, é uma instituição financeira privada) – dizíamos: Fernando Ulrich, presidente do BPI, vem publicamente apoiar Carlos Santos Ferreira para líder do BCP e dizer, também publicamente, que confia em que ele saberá formar a equipa necessária. Na sua edição de hoje, o jornal de José Manuel Fernandes consegue “noticiar” o facto, fazendo dele manchete, SEM MENCIONAR esse preciso facto nas dezenas de palavras que, na primeira página, lhe dizem respeito. O que é grande notícia, com direito a manchete, para o jornal de Belmiro, de que Fernandes toma conta, é que os seus desejos (a formação de uma lista alternativa capaz de derrotar Santos Ferreira) correm o risco de não se tornarem realidade. A pergunta que nos ocorre, dirigida a nós mesmos, é a seguinte: “houve alguma coisa na declaração de interesses de Fernandes que me escapou?”.

26.12.07

Profecias

"Guilherme D'Oliveira Martins como Presidente do Tribunal de Contas vai ser um pau-mandado do PS e do seu governo." Ainda se lembram dos profetas desta pérola? E agora, que chegou o tempo de fazer as contas a tal augúrio, onde andam os respectivos arautos?
Agora há a profecia José Manuel Fernandes: "Se o actual presidente da CGD passar a liderar o BCP teremos uma espécie de nacionalização do banco pelo PS." Daqui a uns tempos onde se esconderão os inventores desta esmeralda? Terão emigrado com os lucros do disparate - ou "Roma não paga a traidores"?

23.12.07

O jornal de Belmiro, o BCP, o polvo, outros pecados inconfessáveis e uma grande falta de pachorra para tanta tolice

O jornal de Belmiro, de que se ocupa José Manuel Fernandes, continua a alucinar. Desta vez a propósito do Banco Comercial Português e da possibilidade de Carlos Santos Ferreira, actual presidente da Caixa Geral de Depósitos em fim de mandato, ser o seu próximo líder. Fala da eventual eleição de Santos Ferreira como “de inspiração partidária”, sublinhando que ele é “um ex-dirigente socialista”. A senhora que assina o texto, como tantos que escrevem nos jornais e se apresentam em outros meios de comunicação, acha que, talvez por direito divino, pode cuspir para cima de quem lhe apetece. Se se ocupasse antes a preservar alguma objectividade talvez encontrasse explicação melhor para a hipótese Santos Ferreira ser posta em cima da mesa em altura de crise: para grandes males, grandes remédios – atendendo à obra passada e presente do tal senhor.

Fala-se da eventual escolha de Santos Ferreira como se estivéssemos perante mais uma golpada do polvo socialista, do próprio governo, para controlar tudo e mais alguma coisa na sociedade portuguesa. Mais uma declinação da parvoíce agora em moda, que é o “estamos a caminhar para uma ditadura”, alardeada com mais ou menos falta de vergonha na cara. Como se os accionistas do BCP fossem uma cambada de militantes socialistas (e se fossem, não tinham direito?) ou fossem simplesmente estúpidos e, portanto, inclinados a votar contra os seus próprios interesses na sua instituição.

Talvez só se pudesse satisfazer esta gente proibindo qualquer socialista de ser competente, de demonstrar capacidades que o torne apetecível para o exercício de cargos difíceis em grandes instituições – ou talvez até proibindo terminantemente qualquer socialista de pisar o solo sagrado de “sectores estratégicos”. Outra medida complementar que também poderia ser ponderada, para aplacar a ira dos amigos de José Manuel Fernandes, seria legislar para que qualquer governo socialista devesse ser constituído exclusivamente por funcionários das empresas do mesmo grupo do proprietário do Público, na condição de que demonstrassem não ser e não terem sido, pelo menos nos últimos dez anos, militantes, simpatizantes ou até aparentados com os socialistas.

Parece que já não importa nada que o que se tem passado no BCP seja a demonstração da falta de nível de um certo capitalismo português. Os que têm os olhos grandes para ver os erros do Estado, mas têm as pálpebras pesadas para ver as trafulhices dos privados, fartam-se de dar voltas ao miolo para inventar conjuras do partido no governo contra a liberdade de empresa neste país. No fundo, não estão muito longe daqueles dirigentes do PSD que usam o Parlamento Europeu para tentar contrariar o universal aplauso europeu à Presidência Portuguesa da União Europeia. No fundo, o ponto é o mesmo: em desespero, vale tudo. Até tentar arrancar os olhos aos portugueses, para que não possam reconhecer a distância entre a realidade e a demagogia.

"12:08 A Leste de Bucareste"...

... é um filme de Corneliu Porumboiu (Roménia, 2006), que está agora nas salas em Portugal. Pareceu-me mauzinho: tem coisas para dizer, mas não sabe como fazê-lo. Mas uma personagem tem uma frase que podemos reter.


"Cada um tem a revolução que pode."