9.11.07

Contribuinte sofre

O Eduardo Graça, no Absorto, publica um postal intitulado Contribuinte sofre. Deve ser lido. Eu revejo-me no pânico de ser atacado por máquinas anónimas que têm pouco jeito para escutar, mesmo quando os alvos tenham culpas no cartório, porque seremos tão ameaçados se tivermos a pagar como se tivermos a haver. O Absorto conta um caso concreto - e não podemos deixar de pensar nos casos concretos, porque "elas" (as coisas) não acontecem só aos outros.

Compreender o papel das instituições na vida social (para lá da teoria económica neoclássica) - 3/5

Andamos, apoiados em Geoffrey M. Hodgson, a recensear a crítica institucionalista à teoria económica neoclássica. Resumimo-la em três pontos:
Primeiro, uma crítica do individualismo metodológico;
Segundo, uma crítica da hipótese da maximização;
Terceiro, uma crítica do conceito racionalista de acção.

Hoje passamos ao segundo ponto.

Segundo, temos uma crítica da hipótese da maximização (Hodgson 1988: capítulo 4).




O “homem económico racional” da teoria económica neoclássica tem no centro a ideia de que os agentes, graças a um cálculo racional que tem em conta toda a informação relevante, maximizam um certo resultado expresso num único valor (utilidade ou lucros, por exemplo), o que em geral depende do pressuposto de que os indivíduos fazem uma ordenação consistente das suas preferências, ordenação essa que é transitiva (se A é preferível a B e B é preferível a C, então A é preferível a C) e irreflexiva (para qualquer produto A, A não é preferível a A).
A forma primitiva da hipótese da maximização considera que tal comportamento é consciente e deliberativo: o agente tem consciência do exercício de optimização da sua função de utilidade, tem consciência do leque de alternativas ao seu dispor e das consequências das suas acções, tem consciência de todo o conjunto das suas preferências e da respectiva ordenação; o agente reúne e processa a informação necessária à determinação do curso de acção, procedendo então ao cálculo de probabilidades necessário à maximização da utilidade.

Houve tentativas para assimilar, no quadro neoclássico, a crítica de Simon à versão forte da hipótese da maximização, crítica essa que assentava na noção de racionalidade limitada: “satisfizar” seria um comportamento minimizador de custos, porque recolher toda a informação necessária à maximização teria demasiados custos. Só que essa tentativa falha, porque o problema não é escassez de informação, mas sobrecarga de informação para agentes com poder computacional limitado. No “cubo de Rubic” há mais de 43 triliões de posições iniciais possíveis e um número limitado de formas óptimas (número mínimo de movimentos) para ordenar o cubo para cada posição inicial, mas ninguém resolve o problema calculando esse percurso óptimo: antes se seguem certos procedimentos simples que, sendo suboptimais, são muito mais operacionais para seres que não sejam (como os humanos não são) calculadores perfeitos e ilimitados.

Note-se aqui que na economia neoclássica as noções de racionalidade global e de equilíbrio estão intimamente relacionadas: o equilíbrio, estado em que todos os agentes atingiram o máximo da sua função de utilidade, só é atingido por efeito de um cálculo global e generalizado. No enquadramento da racionalidade limitada o que há são revisões de procedimento à medida que a informação vai sendo disponibilizada e avaliada, cada agente procedendo a essas revisões de forma diferente de outro agente, sem nunca se atingir um equilíbrio óptimo.

Face às críticas massivas que se foram acumulando a esta forma da hipótese da maximização, foram elaboradas formas aparentemente mais sofisticadas. Uma delas é a abordagem das “preferências reveladas”: dispensa-se o pressuposto de que o agente realiza um trabalho introspectivo para determinar as suas preferências e o curso de acção que elas ditam, assumindo-se que as preferências simplesmente se revelam por observação do comportamento do agente. Contudo, mesmo esta versão “objectiva” da hipótese não funciona. Por exemplo, se cada produto tiver vários atributos, qualquer deles serve para ordenar as preferências, possibilitando a manifestação de preferências intransitivas ou reflexivas (considerando, em situações diferentes, diferentes atributos do mesmo produto). Além disso, se os comportamentos revelarem preferências diferentes em momentos diferentes, não se pode determinar comportamentalmente se as preferências mudaram ou se elas são simplesmente inconsistentes. Além disso, persiste a dificuldade de que a ordenação geral de preferências requer conhecimento perfeito do mundo.

Outra tentativa de sofisticar a hipótese da maximização é dar-lhe uma versão evolucionista: as empresas que se adaptaram ao seu ambiente económico agem “como se” maximizassem e sobrevivem; as outras não. Contudo, não tendo sido apresentado nenhum mecanismo evolutivo credível que explique como se atinge o comportamento óptimo, como é que ele é sustentado e transmitido ao longo do tempo, nem como é que se passa essa informação de uma geração de empresas para outra, esta versão da hipótese não pode ser considerada seriamente.
De qualquer modo, em qualquer das suas versões, a hipótese da maximização adere à concepção instrumental da racionalidade: o “homem económico” tem fins que se distinguem claramente dos meios, os fins são determinados fora da economia, o cálculo racional diz respeito apenas aos meios. Só que não é em geral verdade que “os fins justificam os meios”, havendo interdependência entre meios e fins (por exemplo, certos fins nunca chegam a ser adoptados porque implicariam meios inaceitáveis).

(continua)


8.11.07

Debates utópicos


Viram o filme Torre Bela, de Thomas Harlan, do já longínquo ano de 1975? A nota de divulgação, aquando da recente reposição, rezava assim: «Documento único e extraordinário sobre a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril. A 23 de Abril de 1975, cinco semanas depois do 11 de Março e dois dias antes do aniversário da revolução dos cravos, ex-trabalhadores agrícolas, prisioneiros políticos libertados e rufias invadem a herdade, propriedade do duque de Lafões, numa acção rara por decorrer no Ribatejo (quando a maioria das ocupações se passavam no Alentejo e o Ribatejo permanecia refúgio da Direita) e por não estar, ao contrário das outras, ligada ao Partido Comunista. Realizado por Thomas Harlan e produzido por Paulo Branco, é um acutilante olhar político sobre uma época, uma utopia e as suas contradições.»
Ora, esse filme tem um diálogo de antologia, que parece ser acerca da propriedade de uma pequena ferramenta agrícola, mas que é afinal sobre os mais complicados recantos da mente humana, da luta entre o que sonhamos ser e o que tememos que o mundo realmente seja. Um diálogo entre utopia e realismo. Aqui fica um excerto.
Declaração de voto minha: neste diálogo, não pensem que estou do lado que vocês pensam que eu estou. Qualquer que seja o lado em que vocês pensam que me poiso.




Impressão Acidental


Porfírio Silva, Impressão Acidental (Ameaça no Ar)


7.11.07

Compreender o papel das instituições na vida social (para lá da teoria económica neoclássica) - 2/5

Pretendemos, então, recensear a crítica institucionalista de Geoffrey M. Hodgson à teoria económica neoclássica. Vamos resumi-la em três pontos:
Primeiro, uma crítica do individualismo metodológico;
Segundo, uma crítica da hipótese da maximização;
Terceiro, uma crítica do conceito racionalista de acção.

Por hoje ficamo-nos pelo primeiro ponto.

Primeiro, temos uma crítica do individualismo metodológico, característica central do modo de fazer ciência da economia neoclássica (Hodgson 1988: capítulo 3).




O individualismo metodológico não se limita ao atomismo social truístico (“a sociedade é formada por indivíduos”), nem nega a existência de entidades sociais, nem que elas influenciam o curso dos acontecimentos humanos. O individualismo metodológico, pretende, precisamente por ser um posicionamento metodológico, que qualquer boa explicação dos fenómenos sociais tem de ser formulada em termos individuais, uma vez que todas as acções são executadas por indivíduos e os colectivos nada são para lá dos actos dos seus membros individuais. Essas explicações individualistas em ciências sociais geralmente assumem agentes dotados de intenções, cuja acção individual é animada por propósitos e dirigida a objectivos. O que liga a acção individual aos fenómenos colectivos é o método compositivo: o ponto de partida é o indivíduo (abaixo dele nenhuma análise é invocada, deixando os processos inconscientes ou subconscientes na sombra e/ou remetendo-os para a psicologia); tudo o resto são composições sucessivas e hierárquicas, piramidais, da acção dos elementos básicos; o macro é explicado pelo micro. Em certas variantes do individualismo, os colectivos são tratados como indivíduos, como se as empresas, famílias ou classes sociais fossem as únicas unidades dotadas de propósitos.


Ora, a abordagem institucionalista rejeita que o comportamento individual seja o único ponto de uma explicação possível: as explicações adequadas podem ter de conter níveis sub-individuais (psicologia), bem como instituições sociais e cultura, que podem influenciar o comportamento individual, embora de forma não determinista.
(continua)


6.11.07

Morreu a chimpanzé que "falava" uma linguagem humana

Mapa do mundo que estamos a construir

(Clicar)

Será que existem raças humanas?

O texto que se segue é um artigo de Francisco Dionísio, Isabele Gordo, Lounés Chiki, Mónica Bettencourt Dias, Rui Martinho, Sara Magalhães, todos Doutorados em Biologia e investigadores no Instituto Gulbenkian de Ciência, publicado no Público de 3-11-2007, p. 43. Deixo-o aqui só para o vir ler de vez em quando.

James Watson, prémio Nobel da Medicina, agitou recentemente o mundo ao afirmar que os negros teriam inteligência inferior. A intensidade do debate que se seguiu, com diferentes entidades e personalidades a tomar posição sobre estas afirmações, terá impedido os esclarecimentos necessários sobre o principal conceito subjacente às suas palavras, o de grupos humanos distintos e facilmente identificáveis, em linguagem leiga, o conceito de raças humanas.

Sabemos que há grupos distintos de cães. Um doberman, por exemplo, tem características diferentes das de um caniche. Estas características morfológicas são definidas por informação genética diferente, que é mantida porque cães de um grupo só são cruzados com cães desse mesmo grupo. Estes grupos resultaram de uma vontade humana de separar conjuntos de cães diferentes por várias gerações, impedindo assim o cruzamento entre esses indivíduos, o que levou a uma diferenciação das características de cada grupo, tornada mais óbvia ao longo do tempo. Um outro exemplo de grupos ainda mais distintos é o da couve-de-bruxelas e da couve-flor. Neste campo, como a diferenciação genética é maior, feita ao longo de mais gerações, alguns geneticistas até aceitariam que se trata de “raças diferentes” da mesma espécie de couve.

Mas nenhum grupo humano foi sujeito a estas condições de isolamento. De facto, todos os dados científicos mostram que temos um ancestral comum em África e que desde sempre o constante movimento e a consequente troca de bens, informação cultural e genética impedem que se gerem grupos humanos isolados. É sabido que basta haver migração de poucos indivíduos em cada geração para homogeneizar potenciais diferenças genéticas entre grupos.

A cor da pele é das características mais fáceis de reconhecer nas pessoas e provavelmente por essa razão foi erroneamente utilizada para tentar organizar os humanos por grupos, raças. No entanto, não é por uma característica ser fácil de visualizar, como é o caso da cor da pele, que isso a torna representativa de todo o património genético dessa pessoa, reflectindo todo um leque de outras características com uma componente genética, como, por exemplo, a cor dos olhos. Dependendo da característica genética em questão, um português poderia ser agrupado mais facilmente com um chinês ou um etíope do que com o seu vizinho do lado. Por exemplo, poderá ser melhor para si receber sangue de um etíope que partilha consigo o mesmo grupo sanguíneo, do que receber sangue do seu vizinho do lado pertencente a outro grupo sanguíneo. São tantas as nossas características genéticas e tão variadas que é impossível agrupar-nos em raças.

O conceito de raças humanas ainda faz menos sentido desde que, de há uns 40 anos para cá, os dados mostram que no continente africano está representada quase toda a informação genética dos humanos do nosso planeta. Dado este facto, faz pouco sentido dizer que os negros são um grupo geneticamente diferente de qualquer outro. Assim, se hoje houvesse uma doença que devastasse todos os continentes, a sobrevivência dos africanos garantiria a preservação de quase todo o património genético da nossa espécie. Todos os outros continentes têm uma menor representação daquilo que nós, seres humanos, somos geneticamente. Assim, antropólogos e geneticistas juntam-se hoje em dia para dizer que o conceito de raças humanas não faz sentido.

5.11.07

A propósito dos disparates racistas de James Watson...

... vimos pela blogosfera (e pela imprensa) textos que dão vergonha. Filósofos, por exemplo, a exibirem (como um pavão exibe as suas penas) a exibirem a sua arrogância intelectual, assente no culto alquímico pela "ciência" despida de qualquer responsabilidade perante os outros e a polis. Penalizo-me por não ter encontrado maneira de dizer qualquer coisa mais séria sobre o tema, mas tento agora "limpar-me" deixando aqui ligações para dois postais que, concordemos ou não com tudo em cada pormenor, dão o tom para uma reflexão séria. Com a devida vénia:

No Zero de Conduta podemos ler O politicamente correcto tem as costas largas.

Em O melhor blogue possível, de Rui Tavares, podemos ler Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?

Apanhei os links no Natura Naturans. Agradeço. Em complemento, vou mais tarde colocar aqui um artigo de biólogos que foi publicado na imprensa escrita no sábado passado.

Compreender o papel das instituições na vida social (para lá da teoria económica neoclássica) - 1/5

Muitos autores têm criticado a corrente dominante, neoclássica, do pensamento económico. Está fora de questão fazer aqui um levantamento aprofundado dessa crítica, mesmo nos seus traços principais. Contudo, daremos aqui uma breve atenção a alguns aspectos centrais dessa crítica tal como são apresentados por Geoffrey M. Hodgson, na medida em que este autor se orienta pela necessidade de começar a desenhar uma alternativa que nos interessa: a abordagem institucionalista.

Hodgson (1988) assinala que a teoria económica neoclássica implica:
(i) comportamento racional, maximizador, por parte de todos os agentes económicos;
(ii) ausência de problemas crónicos de informação: incerteza quanto ao futuro, ignorância sobre as estruturas e parâmetros do mundo, divergência na cognição de fenómenos individuais;
(iii) preferência teórica por estados de equilíbrio estável e falta de atenção aos processos históricos de transformação e às dinâmicas.



Veremos, posto este diagnóstico, alguns dos aspectos mais salientes da crítica desse autor a esta abordagem. É o que faremos nos próximos postais.

REFERÊNCIA
(Hodgson 1988) HODGSON, Geoffrey M., Economics and Institutions – A Manifesto for a Modern Institutional Economics (todas as referências são para a tradução portuguesa, Economia e Instituições – Manifesto por uma Economia Institucionalista Moderna, Oeiras, Celta Editora, 1994)