21.9.07

Desigualdades, Discriminações e Preconceitos


Musa Gumus (Turquia), "Wolf"


Este cartoon ficou em terceiro lugar no Concurso Europeu de Cartoon 2007, subordinado ao tema "Desigualdades, Discriminações e Preconceitos", que foi organizado pelo Instituto Nacional para a Reabilitação e pelo Museu Nacional de Imprensa.

Lógica e Natureza

«É impossível, só com a lógica, ultrapassar a natureza! A lógica prevê uns três casos, mas existem milhões deles! Como é? Deita-se fora o milhão de casos e reduz-se tudo ao problema do conforto! É a solução mais fácil do problema! É sedutoramente clara e não obriga a pensar! O principal é não ser preciso pensar! Todo o mistério da vida cabe em duas folhas de papel!»

Fiodor Dostoiévski, Crime e Castigo (1866)

(Isto constitui um comentário ao que aqui se tem vindo a escrever sobre o programa de investigação científica designado por "Vida Artificial".)

Paraíso Alternativo

Se a verdade vem sempre ao de cima, o que fazem eles lá em baixo?
Leandro Erlich, da Argentina, responde por esta Piscina, de 2004. Que aqui vemos no dia em que abriu, no Museu Século XXI de Arte Contemporânea de Kanazawa, a exposição Alternative Paradise.)



(Foto de Porfírio Silva. Kanazawa, Japão, 5 de Novembro de 2005)
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20.9.07

Vida Artificial, o que é isso? (2/4)

Como é a criação da forma? Há vários caminhos por onde se tenta uma resposta: embriologia, biologia molecular, teorias físicas da auto-organização – e ciência da computação. Em Setembro 1987, no Laboratório Nacional de Los Alamos, teve lugar a primeira conferência sobre vida artificial, organizada por Chris Langton, que tinha vindo a trabalhar em autómatos celulares. (Numa nota posterior explicaremos o que são autómatos celulares.)

Os sete mandamentos da Vida Artificial, seguindo (Langton, 1989). A forma mais ambiciosa da Vida Artificial é passível de ser descrita por sete pontos, sendo essenciais os primeiros quatro e de natureza mais operacional (metodológica) os últimos três.
1. A biologia do possível. Enquanto a biologia actual está limitada a um único exemplo (diz respeito apenas à vida tal como ela existe presentemente neste planeta), a biologia poderia desenvolver-se mais se estudasse todas as formas possíveis de vida. VA segue esse projecto: trata da vida como ela poderia ser.
2. Método sintético. Enquanto a biologia tradicional usa o método de analisar os seres vivos em termos das suas partes constituintes, a VA procura sintetizar processos ou comportamentos vivos (em computadores, por exemplo).
3. Vida (artificial) real. A VA é o estudo de sistemas criados pelos humanos que exibem comportamentos característicos dos sistemas vivos naturais e considera que nas formas de vida artificial só são artificiais as componentes utilizadas (elas são criadas pelos humanos), enquanto os comportamentos produzidos são realmente vida (não são produzidos pelos humanos, mas pelas formas de VA).
4. Toda a vida é forma. A vida, seja o caso concreto que conhecemos ou outros, é forma: a vida é um processo – a lógica, a forma desse processo é que importa. A matéria em que se realiza essa forma não é essencial. A vida é fundamentalmente independente do meio.
5. Construção de baixo para cima. As formas de vida artificial emergem de pequenas unidades de base, às quais são dadas apenas regras simples relativas às suas interacções locais: só isso é programado. É destas interacções locais, definidas apenas para as unidades de base, que surge o comportamento global coerente. Isto contrasta fortemente com a abordagem da AI tradicional.
6. Processamento paralelo. O processamento da informação em VA é massivamente paralelo (cada unidade de base processa informação ao mesmo tempo que todas as outras).
7. Permissão da emergência. Das meras interacções locais das unidades de base emergem comportamentos do todo que não foram programados enquanto tal.


REFERÊNCIA


(Langton, 1989) LANGTON, Christopher G., “Artificial Life”, in LANGTON, Christopher G., (ed.), Artificial Life: The proceedings of an interdisciplinary workshop on the synthesis and simulation of living systems held September, 1987 in Los Alamos, New Mexico, Redwood City, Addison-Wesley, 1989, pp. 1-47


18.9.07

Vida Artificial, o que é isso? (1/4)

A origem. Os pioneiros da biologia gostariam de explicar a geração da forma e a regulação do crescimento. O darwinismo veio dar uma explicação: a evolução. O problema é que se trata apenas de metade da explicação: é uma teoria sobre organismos já existentes, complexos e já parcialmente adaptados – mas que não explica a criação original nem a criação de novos organismos multicelulares individuais em cada geração. Como é a criação da forma?

Exobiologia. Só conhecemos a nossa forma de vida baseada no carbono: carbono, mais hidrogénio, oxigénio e nitrogénio são os elementos básicos que se encontram em todas as macro-moléculas que compõem as células. É fácil tornarmo-nos “chauvinistas do carbono” e considerar impossível a existência de outras formas de vida, mas há quem considere injustificada essa forma de pensar. Há, pois, uma certa lógica em investigar em exobiologia: o estudo da vida para além da terrestre. E, havendo vida, pode haver inteligência.
Experiências em exobiologia podem ser feitas com outras “químicas” no laboratório, quer dizer, sem os materiais orgânicos das células terrestres. O problema dessa investigação é não termos nenhuma definição de vida que não seja contingente às formas de vida que conhecemos na terra: não sabemos o que é mera coincidência e o que é essencial (estamos como um investigador que só conhecesse a vida no fundo dos oceanos e tivesse de estudar a vida num bosque de faias). Como é que podemos saber se encontrámos vida em Marte? Como é que um marciano que aterrasse no Sahara saberia se uma bactéria da areia é vida? Este é o argumento para investigar em “biologia do possível”, tal como procede a Vida Artificial, tentando encontrar formas vivas que não dependam das formas que conhecemos como naturais.

O que é a vida? (Farmer e Belin, 1992) fizeram a seguinte lista de propriedades da vida:
1. Vida é uma forma de organização, não um objecto material.
2. Vida envolve auto-reprodução.
3. Vida está associada a armazenamento de informação relativa a uma auto-representação (uma descrição parcial de si mesmo).
4. Vida prospera com a ajuda do metabolismo.
5. Vida tem interacções funcionais com o ambiente (adaptam-se, adaptam-no, respondem a estímulos).
6. As partes internas dos organismos vivos dependem criticamente umas das outras (o organismo pode morrer).
7. Vida exibe uma estabilidade dinâmica face a perturbações.
8. Vida, enquanto linhagem, pode evoluir.
Este é um exemplo do tipo de “listagem” que os investigadores em VA procuram implementar de forma artificial.


REFERÊNCIAS


(Farmer e Belin, 1992) J. Doyne Farmer e Alletta d’A. Belin, “Artificial life: The coming evolution”, in (Langton et al. 1992)

(Langton et al. 1992) Christopher G. Langton, Charles Taylor, J. Doyne Farmer, Steen Rasmussen (eds.,)Artificial Life II, Addison-Wesley, Redwood City


17.9.07

9ª Conferência Europeia sobre Vida Artificial

A semana passada estive com uma única ocupação: a ECAL 2007 (9th European Conference on Artifical Life), que desta vez foi em Lisboa.
Além de assistir, estava com um paper que explora e consolida o principal resultado da minha tese de doutoramento, mas agora já virado para uma futura implementação computacional. O paper, publicado nas Actas da conferência, intitula-se "Institutional Robotics" (Robótica Institucionalista) e tem como segundo autor Pedro Lima, do Instituto de Sistemas e Robótica (do Instituto Superior Técnico), meu orientador no doutoramento e principal cúmplice no projecto de transformar esta ideia filosófica num colectivo robótico concebido segundo a inspiração da Economia Institucionalista, uma corrente de pensamento económico não ortodoxo.
Ora, este trabalho é, do ponto de vista do enquadramento disciplinar, um tanto atrevido: é uma proposta de uma nova estratégia para projectar sistemas de controlo de equipas de robots, mas é uma proposta construída na base de uma crítica filosófica e epistemológica da Inteligência Artificial clássica e, mesmo, das correntes actualmente dominantes na robótica colectiva e nas ciências do artificial em geral. Mas por isso mesmo nos pareceu interessante, ao Pedro Lima (roboticista) e a mim (filósofo), apresentar essa ideia à comunidade da Vida Artificial. E assim fizemos.
A coisa teve um resultado interessante: além do habitual prémio atribuído pelo Comité do Programa da conferência ao melhor paper, este ano foi também atribuído, com base na recomendação do Comité do Programa, o prémio do melhor paper de filosofia levado à conferência. Ora acontece que o prémio para o melhor paper de filosofia apresentado à ECAL 2007 foi o que eu e o Pedro Lima apresentámos.
Tenho muita pena, mas o pecado de uma certa vaidade, desta vez, cometo-o e reconheço-o publicamente.

A referência formal aqui fica para registo:
SILVA, Porfírio, e LIMA, Pedro U., “Institutional Robotics”, in Fernando Almeida e Costa et al. (eds.), Advances in Artificial Life. Proceedings of the 9th European Conference, ECAL 2007, Berlim e Heidelbergh, Springer-Verlag, 2007, pp. 595-604

O artigo está online no sítio da editora: Institutional Robotics (mas aqui só está o resumo, o texto completo é a pagar; se alguém quiser mesmo ler, contacte-me que se arranja maneira de).

Abaixo, uma imagem do certificado, emoldurado e tudo, tal como me foi entregue no jantar da conferência. (O Pedro Lima tem um similar, é claro.) Por razões de segurança não mostro aqui o cheque de US$ 1000 que é a componente monetária do prémio!

Nos próximos dias direi aqui mais qualquer coisa acerca do que é isso de "vida artificial".


Foto do Certificate for Best Philosophy Paper, ECAL 2007

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ADENDA (30/09/07): Descobri hoje esta foto na página da ECAL 2007. Lá estou eu a receber o certificado do prémio (e o cheque...) das mãos de Takashi Gomi, estando também, entre outros, o presidente da Comissão Organizadora, o português (mas trabalhando na Universidade de Sussex) e filósofo Fernando Almeida e Costa.


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ADENDA (24/09/07): A primeira menção à Robótica Institucionalista numa publicação científica aconteceu em Outubro de 2004, na Revista Trajectos. Num artigo aí publicado exponho o que me deixa insatisfeito com as experiências existentes em Robótica Colectiva, bem como os interesses teóricos subjacentes à ideia que estava a ser formada na minha investigação de uma alternativa. A referência é a seguinte (clicando sobre a referência pode descarregar-se um ficheiro pdf com o artigo):

SILVA, Porfírio, "Por uma robótica institucionalista: um olhar sobre as novas metáforas da inteligência artificial", in Trajectos, 5 (Outono 2004), pp. 91-102