08/06/10

a Comissão Europeia e os foras de jogo


Ministra do Trabalho diz que declarações do comissário europeu se devem a “desconhecimento” das reformas em Portugal. (Público)

Acrescenta o jornal: «A ministra do Trabalho, Helena André, disse hoje que as declarações do comissário europeu da Economia, Olli Rehn, a pedir reformas no mercado laboral e na segurança social de Portugal e Espanha se devem a “desconhecimento” da reforma já levada a cabo. (..) Helena André [acrescentou que] seria interessante saber quais são os detalhes daquilo que o comissário tem em mente. Enquanto não tivermos mais especificações, não posso dar mais detalhes”.»

Ficamos, de facto, à espera dos "detalhes". É que parece que há alguns comissários europeus a seguir o estilo do seu Presidente, que consiste em chutar para o lado que estão virado no momento (ou, se preferirem, consoante o sopro do vento). E, na verdade, ter comissários a falar de cor não parece ser grande contributo nem para a estabilidade nem para o crescimento. Só se for para o crescimento dos lucros dos especuladores.

a ginástica que eles fazem para chamar a Bruna Real ao barulho

10:42

Crianças vestem-se com fardas da Mocidade para reviver 100 anos de República (Sérgio Lavos, no Arrastão).

Assim sendo, repito-me: fascista é a tua tia, pá.


Adenda. Daniel Oliveira insiste. Quanto maior é o disparate, mais giro, parece pensar o comentador. Comparar uma tresloucada ida do "Príncipe" à discoteca com uma acção pedagogicamente enquadrada de um agrupamento de escolas, só pode ser leviandade. Ou falta de respeito pelo trabalho dos outros (dos professores, neste caso). Repito-me: "A táctica de vampirizar tudo por motivos políticos é um nojo - não encontro outra palavra para o dizer". Nisso, direita e esquerda parecem entender-se muito bem: o campeonato de lançar lama continua.

muitos dias tem o mês



Chega (finalmente, a 10 de Junho) ao circuito comercial o filme documentário Muitos Dias tem o Mês, de Margarida Leitão. Vimos a obra quando ela andava a circular aí pelo circuito dos festivais, a ganhar prémios e reconhecimento, e só podemos aconselhar vivamente: vão ver, vão ver.
Há várias razões para isso.
O tema é actualíssimo: talvez nos ajude a ver que a crise dói - e, ao mesmo tempo, como é que nós, pessoas concretas e discretas, fazemos parte da crise.
O filme é de uma enorme inteligência: mostra o que não quereríamos ver, mas de uma forma que até somos capazes de compreender. Tem um lado pedagógico, mas sem ter esse tom: o que, numa obra de arte, seria um problema de primeira grandeza.
Da inteligência do documentário faz parte a sua inteligência emocional: mostra-nos ao espelho, o que não nos poupa de ver as figuras que fazemos, mas coloca o espelho em posição tal que ele até consegue ser gentil.
A verdade é que este documentário nem parece um documentário, tal a sua poesia. Mas, com tudo isso, não é um objecto mole. Bem pelo contrário: é um acto profético. Se soubermos dar-nos conta disso, claro, já que as profecias são palavras que só abrem caminhos se nós as soubermos ler. Bem assim as imagens em movimento com vidas dentro. Como este filme documentário.

MUITOS DIAS TEM O MÊS é um documentário sobre uma realidade actual na sociedade portuguesa: o endividamento das famílias. Depois da selecção para a competição nacional e na secção ‘Pulsar do Mundo’ no Festival Indie Lisboa 2009, e do Prémio Especial do Júri em Santa Maria da Feira, chega às salas. No cinema City Classic Alvaldade.
Sessões comentadas a partir de 14 de Junho as 19h:
Segunda (14/06): Presidente do Tribunal de Contas - Guilherme Oliveira Martins
Terça (15/06): Psiquiatra - Afonso Albuquerque
Quarta (16/06): Jornalista e Responsável de economia da RTP -Paulo Ferreira
Quinta (17/06): Padre e Poeta Tolentino Mendonça
Sexta (18/06): Sociólogo – Pedro Vasconcelos

países | Hanna Schygulla


Ontem, numa organização da Embaixada da Alemanha, fui ouvir Hanna Schygulla ler excertos de Uma noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque (1962). O objectivo do evento era recordar o importante papel da cidade de Lisboa como porto seguro para muitos refugiados da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se da Alemanha a agradecer aos que deram a mão aos que fugiam dos horrores provocados pela Alemanha. Estes actos mostram (sem surpresa, neste caso) como países adultos assumem a sua história sem preconceitos - o que também quer dizer: sem darem máscaras aos seus erros. Pelo menos, os erros passados.


Vídeo: Hanna Schygulla interpreta "Lili Marleen"
no filme de Rainer Werner Fassbinder (de 1980/81) com esse título.

07/06/10

Boa Goa | Ler o Mundo em Português



Os versos do poeta Fernando Pessoa “Deus quis que a Terra fosse toda uma / Que o mar unisse, já não separasse”, dão o mote para este espectáculo de Paula de Vasconcelos.
“Boa Goa”, um espectáculo de teatro dança da companhia canadiana “Pigeons International”, está a 9 e 10 de Junho no Teatro Camões em Lisboa, depois de se apresentar no FITEI, no Porto.
Este espectáculo, dirigido pela encenadora luso-canadiana Paula Vasconcelos, presta homenagem à descoberta, pelos navegadores portugueses, do caminho marítimo para a Índia e à criação da « primeira aldeia global ». Através do teatro e da dança, a encenadora e coreógrafa testemunha a curiosidade e a coragem que levaram milhares de homens a arriscar a sua vida para se aventurar no desconhecido.
Fundada em Montreal, Canadá, em 1987 por Paula Vasconcelos e Paul-Antoine, a Companhia “Pigeons Internacional” distingue-se pela importância que dá à encenação, que considera uma forma de escrita cénica, e à participação de artistas provenientes de diferentes origens que conservam a sua identidade cultural no seio das produções em que participam.

(Texto retirado dos materiais de divulgação do espectáculo. Uma iniciativa que se insere no projecto Ler o Mundo em Português.)



lavar as mãos em água suja


Stephen Adams, The Impasse

Fernando Nobre salienta que se distingue por nunca ter feito parte do sistema.

Nobre não tem responsabilidades nenhumas na situação. Andou por aí estes anos todos e não tem responsabilidades nenhumas na situação. Critica o que existe mas diz que não pregou prego nem estopa no que existe. Nobre só pode ser, então, uma de duas coisas: cego ou irresponsável. Cego, se andou por aí e não viu por onde a coisa ía. Irresponsável, se viu por onde a coisa ía e não falou em tempo. Em alternativa, isto pode ser apenas demagogia anti-política. Quanto a pecados que detesto, venha o diabo e escolha. Só me admira que haja gente, daquela que sabe o que é a política, que dê a sua voz por isto. Especialmente quando vêm de "lados" que nunca pactuaram com os toscos disfarces da não-política - mas que, agora, infelizmente, parece terem ficado encravados num impasse. Não mesmo nada quando a política do dia fica presa das pequenas raivas do passado.




06/06/10

o erro de Vieira da Silva

23:51

Parece que Cavaco Silva apelou a que os portugueses passem férias "cá dentro", que “férias passadas no estrangeiro são importações e aumentam a dívida externa portuguesa”.
Vieira da Silva diz que isso é verdade (realmente "a procura interna pode ajudar o sector do turismo, tendo em conta as dificuldades que enfrenta") - mas, MAS... “Só espero que os presidentes de outros países não façam o mesmo apelo, caso contrário perdemos uma fonte de receitas importante para o país. Há muitos turistas estrangeiros que vão a Portugal", acrescentou o ministro da economia.

Qual é o erro de Vieira da Silva? Será pensar que mais algum chefe de estado teria o mesmo sentido das prioridades que o nosso Aníbal? Ou será pensar que alguém "lá fora" ouve as brilhantes ideias do nosso Presidente e se põe a imitá-lo?

de regresso a Lisboa


(Ilustração retirada de Laid, pauvre et malade, de Chomet & De Crecy)


Regressado a Lisboa, com prazer, exercito prazeres de sempre: cinema ("Vencer", uma seca que não se safa por causa da história), teatro ("Olá e Adeusinho, de Athol Fugard, primeira encenação de Beatriz Batarda, no Teatro da Cornucópia; e "Hot Pepper, Air Conditioner, and The Farewell Speech", do japonês Toshiki Okada, no âmbito do Alkantara Festival, no TNDMII); comer com a família; andar a pé pela cidade; passar ao lado sem parar pelo piquenique de despedida da selecção de futebol de partida para o mundial da África do Sul; comprar livros de poesia de autores portugueses recentemente editados. Coisas simples. E, também, deveres higiénicos: tomar conhecimento, por vias travessas, de que na blogosfera continua a haver répteis que escrevem, mas respeitando a decisão de não os visitar nem os ler; censurar sem pensar duas vezes os comentários de moluscos que vêm cá fazer publicidade às suas diatribes e dizer que, enquanto eu chupo o dinheiro do povo, eles se levantam às sete da manhã (deve ser gente jovem, porque, caso contrário, saberiam que, na minha idade, já se dorme pouco e sete da manhã nem sequer é muito cedo); acabar de ler o livro do Carlos Brito e perceber como são pequenos os répteis e os moluscos de agora, se comparados com a coragem dos adversários dos tempos difíceis. Enfim, regressar ao de sempre.

o que mudou?

15:46

Ora aqui está uma afirmação a merecer reflexão:
«O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.»

Álvaro Cunhal, discurso ao VII Congresso do PCP, Outubro de 1974, citado por Carlos Brito em Álvaro Cunhal, Sete fôlegos do combatente, Ed. Nelson de Matos, Maio de 2010, p. 112

01/06/10

ciência (e) política



Passo a citar:
Michael Lind, um cientista político da New American Foundation, afirma, muito a propósito:
Um amigo meu que faz criação de cães conta-me que não se consegue compreender aqueles animais a menos que se tenha meia dúzia ou mais. O comportamento dos cães, quando reunidos em número suficiente, é sujeito a uma alteração espantosa. Formam instintivamente uma matilha disciplinada. Os filósofos políticos tradicionais têm estado na posição de estudantes do comportamento canino que observaram apenas cães domésticos individuais.
Está na altura de começarmos a estudar a matilha.
Philip Ball, Massa Crítica, Gradiva, p. 394