08/06/10

países | Hanna Schygulla


Ontem, numa organização da Embaixada da Alemanha, fui ouvir Hanna Schygulla ler excertos de Uma noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque (1962). O objectivo do evento era recordar o importante papel da cidade de Lisboa como porto seguro para muitos refugiados da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se da Alemanha a agradecer aos que deram a mão aos que fugiam dos horrores provocados pela Alemanha. Estes actos mostram (sem surpresa, neste caso) como países adultos assumem a sua história sem preconceitos - o que também quer dizer: sem darem máscaras aos seus erros. Pelo menos, os erros passados.


Vídeo: Hanna Schygulla interpreta "Lili Marleen"
no filme de Rainer Werner Fassbinder (de 1980/81) com esse título.

07/06/10

Boa Goa | Ler o Mundo em Português



Os versos do poeta Fernando Pessoa “Deus quis que a Terra fosse toda uma / Que o mar unisse, já não separasse”, dão o mote para este espectáculo de Paula de Vasconcelos.
“Boa Goa”, um espectáculo de teatro dança da companhia canadiana “Pigeons International”, está a 9 e 10 de Junho no Teatro Camões em Lisboa, depois de se apresentar no FITEI, no Porto.
Este espectáculo, dirigido pela encenadora luso-canadiana Paula Vasconcelos, presta homenagem à descoberta, pelos navegadores portugueses, do caminho marítimo para a Índia e à criação da « primeira aldeia global ». Através do teatro e da dança, a encenadora e coreógrafa testemunha a curiosidade e a coragem que levaram milhares de homens a arriscar a sua vida para se aventurar no desconhecido.
Fundada em Montreal, Canadá, em 1987 por Paula Vasconcelos e Paul-Antoine, a Companhia “Pigeons Internacional” distingue-se pela importância que dá à encenação, que considera uma forma de escrita cénica, e à participação de artistas provenientes de diferentes origens que conservam a sua identidade cultural no seio das produções em que participam.

(Texto retirado dos materiais de divulgação do espectáculo. Uma iniciativa que se insere no projecto Ler o Mundo em Português.)



lavar as mãos em água suja


Stephen Adams, The Impasse

Fernando Nobre salienta que se distingue por nunca ter feito parte do sistema.

Nobre não tem responsabilidades nenhumas na situação. Andou por aí estes anos todos e não tem responsabilidades nenhumas na situação. Critica o que existe mas diz que não pregou prego nem estopa no que existe. Nobre só pode ser, então, uma de duas coisas: cego ou irresponsável. Cego, se andou por aí e não viu por onde a coisa ía. Irresponsável, se viu por onde a coisa ía e não falou em tempo. Em alternativa, isto pode ser apenas demagogia anti-política. Quanto a pecados que detesto, venha o diabo e escolha. Só me admira que haja gente, daquela que sabe o que é a política, que dê a sua voz por isto. Especialmente quando vêm de "lados" que nunca pactuaram com os toscos disfarces da não-política - mas que, agora, infelizmente, parece terem ficado encravados num impasse. Não mesmo nada quando a política do dia fica presa das pequenas raivas do passado.




06/06/10

o erro de Vieira da Silva

23:51

Parece que Cavaco Silva apelou a que os portugueses passem férias "cá dentro", que “férias passadas no estrangeiro são importações e aumentam a dívida externa portuguesa”.
Vieira da Silva diz que isso é verdade (realmente "a procura interna pode ajudar o sector do turismo, tendo em conta as dificuldades que enfrenta") - mas, MAS... “Só espero que os presidentes de outros países não façam o mesmo apelo, caso contrário perdemos uma fonte de receitas importante para o país. Há muitos turistas estrangeiros que vão a Portugal", acrescentou o ministro da economia.

Qual é o erro de Vieira da Silva? Será pensar que mais algum chefe de estado teria o mesmo sentido das prioridades que o nosso Aníbal? Ou será pensar que alguém "lá fora" ouve as brilhantes ideias do nosso Presidente e se põe a imitá-lo?

de regresso a Lisboa


(Ilustração retirada de Laid, pauvre et malade, de Chomet & De Crecy)


Regressado a Lisboa, com prazer, exercito prazeres de sempre: cinema ("Vencer", uma seca que não se safa por causa da história), teatro ("Olá e Adeusinho, de Athol Fugard, primeira encenação de Beatriz Batarda, no Teatro da Cornucópia; e "Hot Pepper, Air Conditioner, and The Farewell Speech", do japonês Toshiki Okada, no âmbito do Alkantara Festival, no TNDMII); comer com a família; andar a pé pela cidade; passar ao lado sem parar pelo piquenique de despedida da selecção de futebol de partida para o mundial da África do Sul; comprar livros de poesia de autores portugueses recentemente editados. Coisas simples. E, também, deveres higiénicos: tomar conhecimento, por vias travessas, de que na blogosfera continua a haver répteis que escrevem, mas respeitando a decisão de não os visitar nem os ler; censurar sem pensar duas vezes os comentários de moluscos que vêm cá fazer publicidade às suas diatribes e dizer que, enquanto eu chupo o dinheiro do povo, eles se levantam às sete da manhã (deve ser gente jovem, porque, caso contrário, saberiam que, na minha idade, já se dorme pouco e sete da manhã nem sequer é muito cedo); acabar de ler o livro do Carlos Brito e perceber como são pequenos os répteis e os moluscos de agora, se comparados com a coragem dos adversários dos tempos difíceis. Enfim, regressar ao de sempre.

o que mudou?

15:46

Ora aqui está uma afirmação a merecer reflexão:
«O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.»

Álvaro Cunhal, discurso ao VII Congresso do PCP, Outubro de 1974, citado por Carlos Brito em Álvaro Cunhal, Sete fôlegos do combatente, Ed. Nelson de Matos, Maio de 2010, p. 112

01/06/10

ciência (e) política



Passo a citar:
Michael Lind, um cientista político da New American Foundation, afirma, muito a propósito:
Um amigo meu que faz criação de cães conta-me que não se consegue compreender aqueles animais a menos que se tenha meia dúzia ou mais. O comportamento dos cães, quando reunidos em número suficiente, é sujeito a uma alteração espantosa. Formam instintivamente uma matilha disciplinada. Os filósofos políticos tradicionais têm estado na posição de estudantes do comportamento canino que observaram apenas cães domésticos individuais.
Está na altura de começarmos a estudar a matilha.
Philip Ball, Massa Crítica, Gradiva, p. 394

31/05/10

atribuição de significado


Quem diz que uma calculadora de bolso "faz aritmética" ou que "soma 347 com 786", também há-de dizer que estas criaturas estão a dançar. Estarão?

30/05/10

enigma


PS aprova apoio a Alegre com 10 votos contra
.

Na noite das próximas eleições presidenciais vou publicar um post com esta ilustração. Só ainda não sei exactamente a quem o vou dedicar.


LIFE, 20 de Novembro de 1970

o esplendor do teatro

20:02

O Teatro Valle-Inclán, na Praça de Lavapiés, num dos bairros mais multiculturais de Madrid, é um dos que integram o Centro Dramático Nacional. Foi aí que assisti à peça Tórtolas, crepúsculo y... telón, de Francisco Nieva, fechando assim a minha temporada teatral em Madrid. E que fecho!


Aperitivos. O dramaturgo é espanhol, está vivo, é membro da Academia, Prémio Príncipe das Astúrias para as Letras, Prémio Nacional de Literatura na modalidade Teatro, e foi também o encenador deste espectáculo. O texto foi escrito em 1953 e, na altura, não deu a Francisco Nieva o Prémio Lope de Vega (que já recebera antes) por uma pessoa da cúpula do fascismo franquista ter intercedido junto do júri a favor de um apaniguado do regime que tinha escrito um "drama político e reflexivo" sobre Mussolini.


A peça. O texto é do tipo de abordagem a que geralmente reajo mal: é teatro sobre o teatro. Normalmente prefiro que o teatro fale do mundo que o extravasa. Neste caso, o texto é uma homenagem às vanguardas, a Dali, a Bretón, a Buñuel - e o próprio autor explicita que procurou uma abordagem surrealista. A situação de partida é uma companhia de teatro fechada à força no próprio teatro onde deveria representar, supostamente por ter sido decretada uma quarentena por causa da propagação de um vírus desconhecido - embora essa desculpa jogue mal com o comportamento do porteiro do teatro que de facto funciona como carcereiro. Entretanto, o teatro está fisicamente ligado à vida: os camarotes dão directamente para as casas de várias famílias de espectadores, qual delas a mais estranha. E o próprio público presente (às vezes tomado como ausente) também entra na conversa. A variedade de "públicos" que assim interagem com os actores é grande. A confusão entre sonho e realidade está desde logo instalada com este dispositivo, mas essa mistura é aumentada com as diferentes personagens que fazem, precisamente... de actores.


A encenação. Toda a dimensão de sonho que já resulta do texto, mesmo que por vezes o sonho seja realmente um pesadelo, é poderosamente ampliada pela encenação. Os cenários foram concebidos pelo pintor José Hernández e são de uma magnificência barroca. Acabamos por ter uma espécie de mundo à moda de Tim Burton no que toca, por exemplo às roupas, mas o conjunto é esplendoroso: os jogos de cor e de luz, a decoração dos camarotes (os tais que estão em cena) e a criação de um pequeno mundo diferente para cada um deles, as "máquinas" gigantes que entram na acção, o movimento de cada um e do colectivo - resultam num conjunto pirotécnico de grande efeito. Tudo, ao mesmo tempo, com grande consistência: porque nada parece estar lá só para "colorir", mas tudo parece preencher uma parte necessária da ilusão. (O autor e encenador comentou, aliás, que só um teatro estatal se podia permitir montar um espectáculo destes, demasiado caro para os demais.)


Como se depreende da situação de partida, o texto permitiria múltiplas leituras, nem todas evidentes à primeira vista, nem todas fáceis de fazer ali no próprio momento enquanto estamos a tentar fruir. Essa é a magia do teatro: a vida corre na nossa presença, mas nós nunca a podemos agarrar inteira - e não se pode levar a companhia para casa para repetirmos quando bem entendermos. Desta vez havia aquilo a que chamamos um programa, incluindo o texto completo, e talvez um destes dias voltemos a ele. De momento, posso dizer que foi uma bela despedida teatral a Madrid.
(Na realidade, ainda tentei ir ver hoje Macbeth encenado por Declan Donnellan, mas não apanhei nem um pobre bilhetinho. A sorte que já tive aqui em ocasiões anteriores deixou-me, desta vez, pendurado.)


Deixo a ligação para o Videoblog "Tórtolas, crepúsculo y... telón", uma ferramenta muito interessante que aqui algumas companhias de teatro usam na sua relação com o público e que noutras coordenadas parece não ser usual...

Também deixo o clip de divulgação, outra modernice largamente ignorada noutras partes...