14/05/10

mais um link com bola vermelha

15:08

quit hanging over me (oh, pú quê, a'tão | a'tão é ta'deiro)

15:04

Surfer Blood, Swim
roubado ao Pedro, ah pois



passos em frente


Pedro Adão e Silva, no Léxico Familiar:
(...) a mesma Europa, que defendia há um par de meses que a retirada precoce dos estímulos às economias produziria um efeito recessivo profundo, abriu as portas à possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, enquanto empurrava os países para um regresso em força à disciplina orçamental apertada. Por cá, onde a desorientação é o regime há vários meses, governo e PSD entenderam-se para assegurar definitivamente que o nosso ajustamento não assentará em nenhuma estratégia económica, mas numa recessão duradoura.
Na íntegra: A desorientação é o regime.

link com bola vermelha

13:23

serve a "europa" para algo?

Jorge Bateira, afinal, se calhar não estava a laborar tão no ar como alguns supunham, quando escreveu:
Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda (com o apoio tácito da França), têm uma alternativa. Negociar em segredo uma posição colectiva e, daqui a uns meses, confrontar colectivamente Angela Merkel (entretanto enfraquecida politicamente) com a seguinte escolha:
(1) regresso ao projecto, prematuramente abandonado, de relançamento coordenado do crescimento europeu pelo investimento público e por medidas de apoio social (a financiar pela 'economia da droga', pelo sector financeiro e por uma taxa sobre as suas transacções especulativas, por tributação altamente progressiva e, como agora se decidiu, por monetarização da dívida pelo BCE); reforço substancial do orçamento comunitário e revisão do Tratado de Lisboa para expurgar a ‘constituição económica’ da sua implícita ideologia monetarista, ou

... (2) saída simultânea dos quatro países com reposição das respectivas moedas, acompanhada de reestruturação unilateral das respectivas dívidas, nacionalização da banca, controlo rigoroso dos movimentos de capitais de curto prazo … e, em consequência, falência dos bancos que detêm dívida destes países, com destaque para os bancos alemães.


11 and 12 | Peter Brook

10:14


Eleven and Twelve (11 and 12) é um espectáculo de Peter Brook, uma lenda do teatro, já nos seus 80-e-tal anos mas ainda a voar. O texto de base é o livro de Amadou Hampaté Bâ, Vie et enseignement de Tierno Bokar – Le Sage de Bandiagara (que está publicado na Seuil, colecção Point, 1980), adaptado por Marie-Hélène Estienne e pelo próprio encenador.


Eleven and Twelve foi apresentado, em Novembro e Dezembro de 2009, no Teatro Bouffes du Nord, de Paris. Já foi visto na Polónia e no Reino Unido e vai estar, ainda este ano, na Nova Zelândia, na Austrália, em Macau. Pode ver-se agora em Madrid, no âmbito do Festival de Otoño en Primavera (sala Naves do Español, no Matadero de Madrid).

Trata-se, neste espectáculo, de um questionamento da violência e da intolerância nos tempos que correm, mas a partir de um ângulo que nos surpreende de maneira pouco habitual. É que, magistralmente, partimos “apenas” da história de um homem simples e sábio, mas complexo: Tierno Bokar, que foi mestre do autor do texto. O lado do mundo por onde entramos é África (concretamente o Mali, visto por um homem educado em francês), tão dorida pelo colonialismo como pelas guerras intestinas entre tribos.

Aí, o mundo começa a complicar-se a partir de uma discussão sobre os números 11 e 12, por serem números com um significado teológico muito profundo numa dada cultura tradicional influenciada pelo sufismo (corrente mística do Islão). Rezar 11 ou 12 vezes uma dada oração? Apesar de Tierno Bokar ser completamente partidário da tolerância, para lá de quaisquer diferenças religiosas, daquela discussão nascem tais consequências que o conflito e o martírio vêm a contar-se entre elas. É que, apesar da sua tolerância, Bokar não era partidário do “Maria vai com as outras”: ele queria a discussão e pedia a Deus para, à hora da morte, ter mais inimigos do que amigos a quem tivesse sido indiferente. A procura da verdade pode ser uma procura filosófica, mas também pode ter consequências terríveis. E quem procura, por muito que pratique a tolerância, não pode fugir ao que julga ser correcto e tem de fazer face às consequências e às circunstâncias. Com tanto voo metafísico pela tempestade originado, as ondas de choques irão desde uma remota aldeia africana até às portas das grandes instâncias de decisão na Segunda Guerra Mundial. O que não espanta: se esse mar de ondas continua a abalar-nos a todos...

O espectáculo colhe profundamente nos nossos recursos intelectuais e emocionais, apesar da singeleza de meios com que se reveste. A história, verídica, é-nos servida com uma forma de contar tipicamente africana: com a sabedoria a tocar-nos no ombro pelo lado que menos se espera em cada instante - e com a aparente suavidade da relevância. Do ponto de vista da encenação, só nos é apresentado o essencial, a pequena noz das coisas importantes e intemporais, o núcleo duro da nossa contemporaneidade. Há quem diga, aliás, que há muitos anos que Brook deixou de alimentar a imaginação dos espectadores: vivem do que se lembram do fausto que ele lhes mostrou em tempos, mas que agora já não concede. O trabalho de imaginação deixou de estar no encenador para passar estar a cargos dos seus espectadores. Mas, afinal, nada nos pode enriquecer mais num espectáculo do que ele pedir tudo de nós. E, ao fim e ao cabo, a semente do problema que está em causa neste espectáculo - o fundamentalismo - é só palavras e ideias. Coisas que andam nas nossas cabeças. O sítio onde verdadeiramente toca 11 e 12. Na cabeça e nas tripas, claro.

Ontem foi a estreia em Espanha. Que sorte a nossa...

***

Deixo um vídeo da BBC sobre o espectáculo, com Peter Brooks a discutir o seu sentido.


13/05/10

europas há muitas (precisamos de mais esquerda europeísta)

Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas:
«Antes que seja tarde, a UE tem de pensar o impensável: a subordinação da finança ao poder político e, rapidamente, dar mais passos em direcção ao federalismo. Menos do que isto não chega.»
Um conselho: ler na íntegra: Os especuladores são europeístas?

(O ponto é este: para estar na UE é preciso estar disposto a batalhas políticas pesadas, procurando aliados, juntando pequenas forças que incomodem os grandes, desafiando as situações que nos são inconvenientes, construindo alternativas. O governo de Portugal joga-se na UE, em grande parte. É assim que é preciso pensar. Posso até não estar de acordo com tudo o que diz o Jorge Bateira, que, a meu ver, comete o erro de isolar a questão económica de outras políticas. Mas, certo certo, é que é preciso encarar a frente europeia como a nossa batalha nacional mais importante. E, para isso, precisamos de mais esquerda europeísta; para isso, a esquerda que se limita a estar contra a UE - é inútil. Inútil, precisamente.)

votar na Merkel, olé

Paulo Pedroso, no Banco Corrido, e a propósito da UE ter imposto uma saída (?) para a crise que ameaça recessão em vez de crescimento, com o saboroso (para eles) sacrifício dos poucos Estados Membros governados por Partidos Socialistas, faz a seguinte pergunta: Posso votar contra a senhora Merkel nas próximas eleições?
Resposta: podes, Paulo, podes. Não no sentido em que falas, mas podes. Nas próximas eleições para o Parlamento Europeu podes votar socialista. Como desconfio que já tens feito. Tens é perdido, tal como eu. E, assim, continuarás a ter a Merkel, ou outras como ela; e o Barroso, ou outros como ele.
Acho graça (graça nenhuma, aliás) é àquela "esquerda" tonta que continua a achar que a Europa não serve para nada. Serve e muito. Para o bem e para o mal. Como se vê.

um cientista português no coração da Alemanha nazi


José Pedro Castanheira dispensa apresentações. (Pronto, é repórter principal no Expresso, jornalista premiadíssimo, autor de inúmeros bons livros que resultam do seu jornalismo de investigação à séria, criador de um texto que já foi levado ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, ... e ficamos por aqui que o espaço não chegaria para a biografia.)

Mas vale a pena apresentar aqui o seu novo livro, Um cientista português no coração da Alemanha nazi. Editado pela Tenacitas.



Tomo um texto usado na divulgação:

Em plena II Guerra Mundial, o médico português José Ayres de Azevedo esteve durante dois anos e meio nos principais centros científicos da Alemanha nazi. Primeiro, na Universidade de Frankfurt e depois no Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim, o mais reputado dos centros científicos não apenas da Alemanha mas de todo o mundo. Aluno brilhante, assistente promissor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, obteve bolsas de estudo do Instituto para a Alta Cultura e da Fundação Humboldt, com o objectivo de preparar uma tese de doutoramento sobre higiene racial e biologia da hereditariedade. Identificado pela PIDE como ligado a sectores de extrema-direita, germanófilos e críticos de Salazar, propôs-se aprofundar matérias ligadas à eugenia - a ciência do aperfeiçoamento da espécie por via da selecção genética. Na Alemanha nazi, estudou e trabalhou com os principais cientistas que deram um suporte à política racial de Hitler, cujos efeitos mais conhecidos foram o holocausto.
Tendo como inspirador e mestre o barão Otmar von Verschuer (um dos cientistas que mais influenciaram a política racial do nazismo), especializou-se na análise dos grupos sanguíneos dos gémeos, numa perspectiva de aferição dos sinais da hereditariedade. Colaborou na principal revista científica de eugenia e participou na elaboração de numerosos pareceres solicitados pelos tribunais nazis, sobre matérias relacionadas com a determinação da paternidade (normalmente de alegados judeus), ou com a esterilização, designadamente de deficientes.
Em 1943, trabalhou no mesmo instituto, com o mesmo mestre e sobre a mesma área científica que o famoso médico Josef Mengele, o conhecido "anjo da morte" do campo de extermínio de Auschwitz.
Com Berlim a ser bombardeada diariamente pela aviação aliada, o português foi obrigado a regressar ao Porto, onde ultimou a tese de doutoramento. Com data e júri marcados, a dissertação não chegou a ser discutida. O Conselho Escolar, órgão máximo da Faculdade, acabou por expulsar Aires de Azevedo da docência. Ao mesmo tempo, era suspenso pela Ordem dos Médicos. Desiludido e amargurado, largou em definitivo a investigação e a medicina...


O livro, muito bem escrito, com a fluidez habitual no José Pedro Castanheira, vale realmente a pena. É muito interessante, para os nossos olhos, que nos ajude a reflectir sobre as relações entre ciência e sociedade - até para acalmar as peneiras daqueles que juram a pés juntos, mas com os olhos fechados, que a ciência é o caminho, a verdade e a vida. A obra só tem um ponto aborrecido: à custa da profusão de "pequenas biografias", dada em rodapé, de gente como Hitler, Salazar, Goebbels, ... , ficamos com uma ideia do nível de cultura geral que o Autor espera para um certo número dos seus leitores. Infelizmente, ele é que é capaz de estar certo.

O Professor João Lobo Antunes considerou a obra "um trabalho exemplar”. Concordamos.

A ler, a ler.

People, not their eyes, see.


Were the eye not attuned to the Sun,
The Sun could never be seen by it.
Goethe


Citado por Hanson, a abrir o primeiro capítulo do clássico Patterns of Discovery.

Um pequenino recorte:
Seeing is an experience. A retinal reaction is only a physical state — a photochemical excitation. Physiologists have not always appreciated the differences between experiences and physical states. People, not their eyes, see. Cameras, and eye-balls, are blind.

Ler em linha o primeiro capítulo.