16/03/10

liberdades




Que a liberdade de imprensa dê guarida a certas "notícias" que alguns órgãos de comunicação social têm divulgado - é como se a liberdade de circulação autorizasse passeios por cima do teu corpo.


primaveras



Alexander Dubček - um breve líder da Primavera de Praga que tentou transformar um regime comunista num regime democrático nos idos de 1968-69, que entrou na escuridão política após a invasão soviética e ressurgiu depois da Revolução de Veludo, tendo chegado a presidente do Parlamento Checoslovaco - é homenageado por um busto que permanece na praça entre as faculdades de filosofia e de direito da Universidade Complutense de Madrid. Mas a homenagem não parece muito respeitada, a julgar pelas pinturezas suplementares. Provavelmente, a maior parte dos frequentadores nem faz ideia quem tenha sido o homem.
Entrando, lá dentro, no átrio do edifício das faculdades de filosofia e de filologia, está anunciado (estava lá a primeira vez que aí pisei) um seminário sobre Lénine. Parece este mais vivo do que aquele.
Primaveras há muitas... Algumas são invernos.

15/03/10

natureza morta



(P.S., Natureza Morta 1)


(P.S., Natureza Morta 2)

uma ideia para certos congressos partidários


Notícia: o Público dá uma notícia que talvez não seja enviesada (mas não garantimos sem ir antes ler o Câmara Corporativa, onde estão dos melhores destapa-carecas-de-pasquins que nos é dado conhecer). Reza assim:
«A mais recente sensação da Internet conta com mais de dois milhões de visualizações no YouTube em um par de semanas: é um vídeo musical de 1976, no qual o cantor romântico soviético Eduard Khil trauteia a melodia de uma canção à qual os censores do Kremlin não deixaram passar a letra por falar de um cowboy cuja namorada ficava em casa a tricotar meias. O cantor, hoje com 75 anos e a viver em São Petersburgo, não compreende como se deu este renovado sucesso – não sabe bem o que é a Internet – e acha que estão a gozar com ele quando lhe falam do êxito mundial alcançado.»
O método parece-me de aplicação útil em certos congressos partidários: se poupassem a letra e dessem só a música seria preferível.



o efeito china na internet



(Cartoon de Marc S.)


as leis e os hábitos

09:58

Leio no Público:

Há mais homens a tirar licenças de parentalidade desde a entrada em vigor, em Maio de 2009, do decreto-lei que alarga a licença de quatro para cinco meses, paga a 100 por cento, quando parte desse período é partilhado entre pai e mãe. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, o número subiu de 605 em 2008 para mais de 12 mil em 2009.
(...)
"O ideal seria que 50 por cento das licenças fossem gozadas pelo pai para que as mulheres não sejam discriminadas no trabalho", diz Clara Sottomayor.

As leis podem, de facto, ajudar a mudar os hábitos. E as mentalidades. Essa coisa simples é difícil de compreender para alguns.


14/03/10

fds

22:29




a imagem na ciência e na arte

outro teatro / outro mundo

20:18

A 8 de Novembro de 2009, um público emocionado, entre o qual se contava a sobrinha (Laura) de Federico García Lorca, acolheu oito mulheres ciganas a representar La Casa de Bernarda Alba. Essas mulheres agora actrizes não sabem ler nem escrever. Donas de casa no bairro de lata El Vacie (talvez a “chabola” maior e mais antiga da Europa), em Sevilha, quando deixam a sua cidade para prosseguir esta tournée de êxito, preocupam-se é com as condições em que ficam os seus maridos e filhos. Condições – ratos e imundície – a que voltam elas mesmas quando acaba mais uma série de representações. A encenadora é Pepa Gamboa, do TNT – Centro Internacional de Investigación Teatral, que alberga a companhia de teatro Atalaya na capital da Andaluzia. Calhou-nos a sorte de ver tudo isto, agora em Madrid, no Teatro Español (ontem, 13 de Março). Marga Reyes, com o papel de Poncia, é a única actriz profissional (e a única não pertencente à comunidade cigana) em cena, representando no palco o património de teatro social e experimental da companhia.




A peça La Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, escrita em 1936, terminada um mês antes do fuzilamento do poeta pelos Falangistas, é por demais conhecida. É um estudo sobre a condição da mulher nas aldeias de Espanha, sobre a repressão social (de que podem mulheres ser vítimas e outras mulheres agentes), a repressão sexual (com o homem a polarizar medo e desejo, a par com o desrespeito machista, e a ausência – nesta peça os homens nunca aparecem em carne e osso), uma ordem tradicional que coloca as aparências acima das pessoas (a fala de Bernarda perante cada evidência da desgraça é “no pasa nada”). Tendo Lorca sido um amigo dos ciganos, uma das comunidades mais perseguidas e discriminadas, ainda hoje, mesmo nesta Europa que se julga muito “social”, a escolha desta peça para dar esta oportunidade a estas mulheres foi muito acertada.


Rocío Montero faz Bernarda Alba, um corpo grande e uma voz poderosa a suportarem uma dose extra de realismo: deve ser a primeira actriz a representar Bernarda que tem mais filhos (7) do que a própria personagem (5). Carina Ramírez, de 23 anos, faz de Amélia. Com a sua graciosidade, já se vê a ficar como actriz. Sonia da Silva faz de Adela e nesse papel dança maravilhosamente. Mari Luz Navarro faz María Josefa, a mãe louca de Bernarda, divertidíssima. Nunca tinham ido ao teatro antes, nem tinham ouvido falar de Lorca – e agora mostram-nos quanto é possível levar a efeito quando há pessoas que o sonhem e tenham coragem para deitar mãos à obra.

 

Esta encenação teve origem numa oficina de iniciação ao teatro que a companhia organizou para aquela comunidade do limiar de Sevilha. As coisas não começaram com facilidades: como Rocío contou espontaneamente no encontro com o público, no princípio elas queriam que lhes pagassem para ir à tal oficina – e não percebiam por que haveriam de ir se assim não fosse. No final, as mulheres, tendo gostado, quiseram representar uma peça para as suas famílias – e a companhia respondeu que teriam uma peça se a fizessem como os demais actores o fazem, para quem quiser ir ver. E assim foi.
É certo que a encenadora tomou liberdades com o texto para conseguir uma peça o mais próxima possível daquilo que aquelas actrizes melhor poderiam compreender e assumir. Trata-se, nesta versão, de uma sequência de quadros, com muita música e dança pelo meio, que se vê melhor se se conhecer algo da história previamente. Mas a forças das mulheres que interpretam é enorme, na alegria e na dor, e isso passa para a sala com muita nitidez.

 

Apesar de este espectáculo tem tido forte repercussão política (foi tomado como um dos acontecimentos culturais relevantes da “Presidência Espanhola da União Europeia” e do Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social), Pepe Gamboa, a veterana encenadora, conhecida por insistir na fusão entre o teatro e o flamenco, sublinhou desde o princípio que seria inapropriado ver este espectáculo apenas como uma acção social: trata-se de um acontecimento artístico que vale como arte. Tendo assistido, achamos que ela tem razão.


No domingo 7 de Março, depois da função, as actrizes e a equipa apresentaram-se a um encontro com o público, a que comparecemos. Rocío, a Bernarda, falou pelos cotovelos, com grande presença, clarividência e fluidez. Só se calou por uns momentos, quando se emocionou ao lembrar quando, numa das saídas do grupo, o marido lhe telefonou a dizer que estava a chover e a casa inundada. Mas explicou que o marido se estava a sair muito bem da tarefa de tratar dos filhos e dos netos, e da casa em geral, quando ela estava fora. Quando lhe perguntaram a razão do seu sotaque aportuguesado, elas respondeu que o sotaque era galego, por ter família em Santiago de Compostela. E contou dos nervos no dia da estreia. E mostrou como estavam felizes por terem chegado àquele ponto.

Num certo sentido, nada disto vai mudar o mundo. Nesse encontro com o público, um dos elementos da companhia (não cigano) contou que, na noite anterior, depois do espectáculo, tinham ido a um café da zona para beber algo – e os empregados tinham-nos posto na rua. Livro de reclamações, uma salganhada até às tantas – as coisas não mudam no palco. Mas, noutro sentido, as coisas vão mudando devagar. Hoje, manhã cedo, deparámos com algumas das actrizes desta peça às compras n’El Rastro. Que excitação, ver aquelas actrizes ali no meio do povo! Acho que foi a primeira vez que vi ciganas a comprar, em vez de estarem a vender. Pequena inversão, comparada com tantas coisas que precisam tanto de maior mudança.

Um "resumo" do espectáculo em vídeo:


Rocío Montero, que faz o papel de Bernarda, dá aqui um testemunho que não carece de outra interpretação. (Este vídeo faz parte da campanha Esto solo lo arreglamos entre todos, uma campanha promovida designadamente pelo associativismo empresarial, que defende a necessidade de injectar uma atitude positiva na cidadania como meio de sair da crise.)


(Todas as fotos são da companhia. Só é nossa a foto do encontro com o público. É fraquinha como foto [e clandestina] mas é memorial.)

qual lei da rolha, qual carapuça

19:26


Leio no Público que o congresso do PSD aprovou uma norma "que determina a expulsão dos militantes que apoiem, sejam mandatários ou protagonizem candidaturas adversárias às apresentadas ou apoiadas pelo PSD". Os candidatos a presidentes desse partido dizem todos, todos quatro, que estão contra. Não vejo como é que um congresso aprova uma norma, proposta por Pedro Santana Lopes com aplauso de Manuela Ferreira Leite, que tem a oposição de todos os candidatos a presidentes. Ou melhor, vejo: eles não estão assim tão contra como isso, mas disseram aos seus exércitos que deixassem a coisa passar enquanto eles pessoalmente faziam o papel de bonzinhos. Um exercício de hipocrisia, parece-me. Mas, porquê esse exercício de hipocrisia?
Pela simples razão de estar completamente de pernas para o ar o respeito que devia merecer a função dos partidos. As candidaturas que um partido apresenta a eleições são a expressão mais directa daquilo que esse partido pretende dizer ao país, à região ou ao concelho nesse momento. Quem, sendo militante, está contra a candidatura de um partido, está contra o que esse partido tem a propor. Nesse caso, das duas uma: ou aceita que está em minoria interna nesse momento, mas a divergência não é grave e salvaguarda o essencial - e nesse caso respeita os procedimentos internos e não vai contra a candidatura dos seus; ou a divergência é essencial, ferindo princípios políticos importantes ou princípios de conduta, por exemplo se o partido apresentou um candidato indigno. Neste caso, essa pessoa abandona esse partido e faz o que bem entender, nomeadamente candidatar-se contra os seus antigos correlegionários. Ninguém é obrigado a permanecer num partido. Agora, ficar e actuar contra? Se acha suficientemente grave a candidatura do seu partido, a ponto de ela lhe merecer uma contra-candidatura, deve agir em conformidade: abandonar esse partido. Isso seria o natural assumir de responsabilidades. Permanecer numa instituição (um partido) e agir contra ela, é que não se percebe.
Estas são as razões pelas quais penso ser descabido escrever, como alguns por aí têm feito, que esta decisão do PSD é a lei da rolha. Não é. É apenas sublinhar o respeito que os partidos devem merecer. Em primeiro lugar aos que são seus membros.

Acrescento: nova notícia do Público diz que a norma aprovada "pune com a suspensão de membro do partido até dois anos ou com a expulsão os militantes que violem o dever de lealdade para com o programa, estatutos, directrizes e regulamentos do partido, especialmente se o fizerem nos 60 dias anteriores a eleições". Se isso é assim, já me parece grave: o que é o "dever de lealdade"? Demasiado vago, demasiado vasto, demasiado incerto, demasiado arbitrário portanto. Coisa muito ao estilo de PSL - bem acompanhado por MFL.