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20/04/10

El Balcón, Genet


Jean Genet publicou a primeira versão de Le Balcon em 1956. Fomos agora ver representada, pelo Teatro Español, no Matadero de Madrid, a versão de Ángel Facio.
El Bálcon é um bordel. De luxo, mas um bordel. Os tipos que gostam de se disfarçar de bispo, de general e de juiz quando vão às "meninas", passam a ser o bispo, o general e o juiz do novo regime, quando a "revolução" derruba a grã-duquesa e a "Madame" se torna a nova grã-duquesa, a soberana daquela pequena monarquia em nenhures. A metáfora não tem nada que saber: o mundo da política é uma grande casa de putas, os "aparelhos ideológicos do Estado" uma farsa pegada e deliberada. O capitalismo é um grande bordel e a "revolução social" é facilmente iludida com uma nova camarilha de "actores políticas" que ocupam o vazio deixado pelos derrotados.


Ver esta peça em Espanha, nesta altura em que todos os confrontos voltam a ser possíveis, não necessariamente na forma de guerra civil mas certamente de aspereza ideológica, política e cultural numa miríade de frentes, obriga necessariamente a lembrar que o primeiro título que Genet pensou para esta peça foi "Espanha". Voilá.

Entremos agora na parte da confissão pessoal. Começo (comecei há muito tempo) a não achar grande graça a esta filosofia política de pacotilha, para a qual a revolução é o próprio milagre, embora sempre destinada a ser traída - talvez apenas para se poderem continuar a fazer mais revoluções que vinguem as anteriores versões, "traídas" em sucessão, claro está. Continua a haver quem não perceba que o grande problema com as revoluções não é fazê-las - é o que fazer com elas. Este estado de espírito leva-me a bocejar um bocado com esta conversa da política como bordel e dos papéis sociais como fingimento e artifício. Estou sempre com o revólver pronto a disparar a pergunta: e o que é que essa conversa foi alguma vez capaz de construir?



O elenco, embora esforçado, parecia sentir no fundo do seu poço este mesmo afogamento pela artificialidade daquele texto hoje em dia. Estávamos mesmo ali na segunda fila, a respirar o mesmo ar dos actores, e não vimos convicção de espécie alguma na interpretação. Tudo "plano", como quem está a limpar o pó aos móveis e a fazer de conta que acaricia braços rechonchudos a anjinhos. Algum brilho só quando a grandiloquência revolucionária escorrega para a palhaçada. Muita parra e pouca uva. Os ventos da revolução estão manifestamente carregados de poeiras vulcânicas: mas isso não excita ninguém, a sério. A retórica, às vezes, não pode com uma gata pela cauda.

Os actores e demais membros da equipa representam melhor a suposta convicção quando falam do espectáculo, como se pode ver no vídeo abaixo.



06/04/10

Bergman posto em teatro

A partir de dois filmes do realizador sueco Ingmar Bergman (1918-2007), Cenas de um Casamento (1974) e Saraband (2003), o Teatre Nacional de Catalunya e o Teatro Español produziram um espectáculo de teatro. Duas partes, a primeira a partir do filme mais antigo, a segunda a partir do filme-testamento de Bergman. É oferecida ao espectador a possibilidade de ver tudo de seguida (valorizando uma espécie de continuidade fornecida pela ligação entre o casal de 1974 e o casal de 2003) ou de ver cada parte em dias separados (valorizando a diferença entre a pauta temática das duas obras). Vimos tudo de uma assentada, mais de três horas e meia sem respirar, não por estarmos debaixo de água mas por estarmos cercados da palavra de Bergman por todos os lados.
E a realidade é que a palavra de Bergman é avassaladora. É certo que o tom nórdico, menos contemporizador do que o salva-aparências mediterrânico, soa sempre duro às nossas cabecinhas impreparadas para o frio das estepes. Ouvimos as personagens de Bergman, com caras de anjos transparentes, e somos apanhados em falso na primeira esquina por eles dizerem coisas impensáveis que pensamos todos os dias nos nossos mais secretos desejos e mais obscuros projectos. Eles usam aplicar o bisturi nos cumprimentos quotidianos e cumprimentam-se ao ritmo de gente urbana e civilizada, produzindo diálogos onde toda a falta de razão usa de uma lógica implacável, que desconfiamos esconder algum sofisma mas sem sermos capazes de o identificar. Com Bergman, cada minuto do dia esconde a possibilidade metafísica de tudo ser demasiado presente, mesmo aquelas coisas que só acontecem aos outros.
Sob a direcção de Marta Angelat, que também interpreta (a ex-esposa que regressa ao fim de muitos anos para contactar o homem), o pequeno naipe de actores faz jus à autorização que, em nome da Fundação Ingmar Bergman, as suas companhias receberam para esta versão. Deram, em geral, bom suporte aos diálogos de Bergman, que são as verdadeiras estrelas deste espectáculo de teatro.