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30/05/10

o esplendor do teatro

20:02

O Teatro Valle-Inclán, na Praça de Lavapiés, num dos bairros mais multiculturais de Madrid, é um dos que integram o Centro Dramático Nacional. Foi aí que assisti à peça Tórtolas, crepúsculo y... telón, de Francisco Nieva, fechando assim a minha temporada teatral em Madrid. E que fecho!


Aperitivos. O dramaturgo é espanhol, está vivo, é membro da Academia, Prémio Príncipe das Astúrias para as Letras, Prémio Nacional de Literatura na modalidade Teatro, e foi também o encenador deste espectáculo. O texto foi escrito em 1953 e, na altura, não deu a Francisco Nieva o Prémio Lope de Vega (que já recebera antes) por uma pessoa da cúpula do fascismo franquista ter intercedido junto do júri a favor de um apaniguado do regime que tinha escrito um "drama político e reflexivo" sobre Mussolini.


A peça. O texto é do tipo de abordagem a que geralmente reajo mal: é teatro sobre o teatro. Normalmente prefiro que o teatro fale do mundo que o extravasa. Neste caso, o texto é uma homenagem às vanguardas, a Dali, a Bretón, a Buñuel - e o próprio autor explicita que procurou uma abordagem surrealista. A situação de partida é uma companhia de teatro fechada à força no próprio teatro onde deveria representar, supostamente por ter sido decretada uma quarentena por causa da propagação de um vírus desconhecido - embora essa desculpa jogue mal com o comportamento do porteiro do teatro que de facto funciona como carcereiro. Entretanto, o teatro está fisicamente ligado à vida: os camarotes dão directamente para as casas de várias famílias de espectadores, qual delas a mais estranha. E o próprio público presente (às vezes tomado como ausente) também entra na conversa. A variedade de "públicos" que assim interagem com os actores é grande. A confusão entre sonho e realidade está desde logo instalada com este dispositivo, mas essa mistura é aumentada com as diferentes personagens que fazem, precisamente... de actores.


A encenação. Toda a dimensão de sonho que já resulta do texto, mesmo que por vezes o sonho seja realmente um pesadelo, é poderosamente ampliada pela encenação. Os cenários foram concebidos pelo pintor José Hernández e são de uma magnificência barroca. Acabamos por ter uma espécie de mundo à moda de Tim Burton no que toca, por exemplo às roupas, mas o conjunto é esplendoroso: os jogos de cor e de luz, a decoração dos camarotes (os tais que estão em cena) e a criação de um pequeno mundo diferente para cada um deles, as "máquinas" gigantes que entram na acção, o movimento de cada um e do colectivo - resultam num conjunto pirotécnico de grande efeito. Tudo, ao mesmo tempo, com grande consistência: porque nada parece estar lá só para "colorir", mas tudo parece preencher uma parte necessária da ilusão. (O autor e encenador comentou, aliás, que só um teatro estatal se podia permitir montar um espectáculo destes, demasiado caro para os demais.)


Como se depreende da situação de partida, o texto permitiria múltiplas leituras, nem todas evidentes à primeira vista, nem todas fáceis de fazer ali no próprio momento enquanto estamos a tentar fruir. Essa é a magia do teatro: a vida corre na nossa presença, mas nós nunca a podemos agarrar inteira - e não se pode levar a companhia para casa para repetirmos quando bem entendermos. Desta vez havia aquilo a que chamamos um programa, incluindo o texto completo, e talvez um destes dias voltemos a ele. De momento, posso dizer que foi uma bela despedida teatral a Madrid.
(Na realidade, ainda tentei ir ver hoje Macbeth encenado por Declan Donnellan, mas não apanhei nem um pobre bilhetinho. A sorte que já tive aqui em ocasiões anteriores deixou-me, desta vez, pendurado.)


Deixo a ligação para o Videoblog "Tórtolas, crepúsculo y... telón", uma ferramenta muito interessante que aqui algumas companhias de teatro usam na sua relação com o público e que noutras coordenadas parece não ser usual...

Também deixo o clip de divulgação, outra modernice largamente ignorada noutras partes...


21/04/10

O Avarento, de Molière

09:01

A peça "O Avarento", de Molière, estreada em Paris em 1668, não corresponde exactamente (nem pouco mais ou menos) ao tipo de teatro que mais apreciamos aqui por este lado. Contudo, na medida em que procuramos aproveitar as oportunidades que surgem para ver postos em palco os textos que fizeram a história desta arte, lá fomos ao Teatro María Guerrero, um dos que fazem parte do Centro Dramático Nacional aqui em Espanha, ver "O Avarento" na versão de Jorge Lavelli e José Ramón Fernández, encenada por Jorge Lavelli.


O estilo de representação, com o lado excessivo que parece vir sempre associado a estes textos, vai bem com as cores fortes que tratam de fazer com que "a mensagem" do texto não escape a nenhum espectador eventualmente distraído.
O final é o pior: para resolver a embrulhada em que a história se tinha metido, aparece alguém que serve de pai a toda a gente que estava a precisar de um para se desenrascar de um matrimónio encalhado, sendo que a mesma personagem ainda se encarrega de avançar o dinheiro necessário para que ninguém coloque grãos de areia na engrenagem.
Por outro lado, o momento mais subtil do espectáculo acontece quando a menina Mariane - que o avarento (Harpagon), viúvo sexagenário, quer para sua mulher - faz um discurso de dupla chave: parecendo estar a repreender Cléante (filho do avarento) por ele não aceitar aquele casamento dela com o pai dele, ela está na verdade a assinalar-lhe que é dele (filho) de quem ela gosta, e não do noivo oficial (o avarento pai). Para prazer do filho, que é isso mesmo que quer ouvir; e do pai, que gosta do que ouve, por não o entender.
O elenco, dentro do género, defende bem o texto. E, na verdade, dá gosto ver pessoas normais, de todas as idades e aparentemente de diferentes estratos sociais, que investem uma tarde de domingo no teatro, aplaudir com gosto no final. Sinal de que tiraram prazer da experiência.

Inserimos abaixo um vídeo de promoção do espectáculo. A companhia disponibiliza ainda uma série de vídeos dos ensaios, que são interessantes por nos mostrarem aspectos do processo a que normalmente não temos acesso.