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15/03/18

as máquinas, os humanos e o que aí vem

22:15






 

No próximo sábado, 17 de Março, estarei em Leiria, no Mercado de Sant'Ana, 21h00, a convite da ASTERISCOS, para debater a Inteligência Artificial.
O Jornal de Leiria publicou uma entrevista comigo, sobre esse tema - e com umas perguntas finais sobre política geral. Aqui fica para memória futura.

O original encontra-se aqui (clicar aqui para ir).




No próximo sábado, às 21 horas, no Mercado de Sant'Ana, em Leiria, vai participar no primeiro Paradoxo, ciclo de debates sobre temas de impacto mundial. O primeiro tema será a Inteligência Artificial (IA). O que é a IA?
É o Homem a brincar aos deuses? A primeira vez que se utilizou a expressão, num projecto de investigação científica, a definição dada foi: "fazer com que as máquinas sejam capazes de desempenhar determinadas funções que, normalmente, são feitas por humanos". Ou seja, para certas capacidades e habilidades, que consideramos humanas, colocar-se-ia máquinas a desempenhá-las. É "inteligente", por referência à nossa inteligência e "artificial", porque se colocaria máquinas a fazê-lo. Alguns dos exemplos iniciais de inteligência artificial são de máquinas a jogar xadrez, que se considerava ser a demonstração de uma capacidade de inteligência extraordinária.

Mas ainda não é possível replicar a inteligência emocional.
Há um certo folclore no uso da expressão inteligência artificial e emocional. Uma grande diferença entre os humanos e estas máquinas que podemos considerar inteligentes, é que a maior parte das coisas que a nossa espécie aprende não é ensinada explicitamente. Vamos à escola aprender a escrever, matemática, história ou geografia mas, antes disso, aprendemos muitas coisas que ninguém nos estava intencionalmente a querer ensinar. Fazemo-lo em contacto com os nossos pais, com os amigos... A maior parte das competências que fazem com que sejamos não apenas inteligentes, mas humanos - como saber o que as pessoas dizem, saber falar com elas, perceber as situações que nos rodeiam não se aprende com escola nem com intenção explícita. Temos um processo muito longo de aprendizagem. Em pequeninos, nem sequer somos capazes de sobreviver sozinhos, e demoramos anos até termos maturidade intelectual, emocional e física. As máquinas são criadas com determinadas capacidades e podem aprender algumas coisas, que são limitadas pelo hardware e pelo software iniciais. Como se ensina um filho a ser feliz? Se calhar, não saberia como lhe explicar tal coisa. É algo que se aprende por contacto, empatia e convivência. Isso falta às máquinas. Há muita coisa que ninguém quer ensinar às máquinas e que seriam fundamentais…

Porque há perigos?
Veja as emoções. Elas são mecanismos. Não são resposta lógica a determinadas situações: verifico certos factos, vou buscar conhecimentos anteriores, faço uns cálculos e tomo uma decisão. As emoções, mesmo nos humanos, são mecanismos mais directos. Por exemplo, o medo... A maior parte de nós tem medo de répteis. Esse medo provoca reacções que não são cálculos lógicos, não são raciocínios muito intelectualizados. São mecanismos muito directos: vemos um certo sinal e fugimos. Isso teve e tem na evolução dos humanos uma função importante: as pessoas não perderem tempo a fazer contas até reagir.

É a auto-preservação.
Exactamente. Isso é uma dimensão que não existe nas máquinas inteligentes. Na realidade, há já alguns anos, os programadores começaram a aperceber-se que não eram apenas as componentes intelectuais que interessam à inteligência e começaram a focar-se no controlo físico da própria máquina e mecanismos mais directos de resposta, que fazem parte da nossa inteligência. No princípio dos trabalhos com IA, tinha-se uma ideia muito restrita e pobre do que é a inteligência. Os humanos são inteligentes de várias maneiras: são atentos às pessoas, são atentos ao estado das outras pessoas...

Existe um grande fosso entre os humanos e as inteligências artificiais?
Claro que sim. O processo da nossa evolução continua, devagarinho e, de geração em geração, vamo-nos adaptando ao contexto. As máquinas não têm isso. Na robótica inteligente, que costumamos chamar "robótica cognitiva", já há experiências de configuração da máquina, do seu hardware e software, adaptando-a ao contexto. No instituto onde sou investigador foi criado um pequeno bebé robô e, em vez de se lhe dar, à partida, por programação, a noção daquilo que é, por exemplo, um telemóvel ou uma caixa de cornflakes, mostrava-se, dizia- se o nome, permitia-se que a câmara de vídeo captasse o objecto e o robô ia adquirindo conhecimentos que não tinha. Isto permite que haja robôs com a mesma construção inicial, mas que se tornam diferentes, porque são ensinados por pessoas com diferentes sensibilidades e conhecimentos. É nesta diversidade que nós, os humanos, crescemos e nos formamos.

Ainda estamos longe de ver aparecer o HAL 9000, de Arthur C. Clarke?
Bom, como espécie, também nos vamos modificando. Estamos mais programados do que há 50 anos… As profissões programam-nos, tornam-nos mais iguais. As pessoas que trabalham numa linha de montagem trabalham todas de modo semelhante. Estamos a aproximar-nos mais dos robôs do que eles de nós.

No ensino, as profissões ligadas às matemáticas e ciências puras também estão mais em voga do que, por exemplo, a Filosofia.
Sim, mas deveríamos notar que a IA sempre foi muito multidisciplinar. Houve, no princípio, um domínio grande da lógica, porém, desde cedo, começou a haver uma interacção com áreas, como a Psicologia. Herbert Simon, grande nome da IA, entendia que, para fazer a programação para computadores inteligentes, era preciso, primeiro, perceber como os humanos pensavam. Punha pessoas a resolver um problema e pedia que lhe explicassem, passo a passo, como o tinham feito. Após isso, tentava transpor para a programação o processo. Actualmente, a Sociologia tenta perceber como funciona uma IA no contexto social. As pessoas das Engenharias têm uma concepção de inteligência diferente da de pessoas de outras áreas. Isto permite aplicações de IA muito interessantes, como na Saúde, onde se estuda como a interacção com robôs permite melhorar a progressão social de crianças autistas.

Na natureza, as espécies mais fortes, eliminam as mais fracas e ocupam o seu lugar. Pode acontecer o mesmo com o Homem e com a IA?
Jamais se deve fazer declarações sobre o impossível. Por enquanto, fazemos das máquinas o que queremos. Temos é de escolher as boas e más aplicações. Não acredito que as máquinas façam mal aos Homens, sem serem os Homens a querê-lo.

Já há, neste momento, aplicação militar da IA.
Sim, nos drones, mas uma IA, capaz de pensar e fazer mal como o ser humano, é especulação. Na História, houve dirigentes políticos, como Hitler, que fizeram muito mal ao mundo, mas há milhões e milhões de pessoas que nunca fizeram mal a ninguém. Em determinado momento, poderemos ordenar às máquinas que façam coisas más a outros humanos, mas não será por iniciativa delas. Será por nossa culpa. No Japão, que é uma sociedade muito envelhecida e onde cuidar dos mais velhos é muito importante, há robôs para ajudar a tomar conta deles: levá-los do sofá para a cama, por exemplo. Mas há outros que, supostamente, fazem companhia aos idosos. Uma máquina até pode entreter durante um bocado, mas fará companhia? Isso não substitui a relação humana e não é o robô que escolhe ficar ali a fazer de conta que está a cuidar do idoso. Houve um humano que tomou essa decisão e abandonou aquele velhinho ou velhinha ao cuidado de uma máquina. Ou seja, nós é que temos de fazer as escolhas na forma como usamos as máquinas.



Desde há algum tempo que, na Europa, sempre que há eleições a Extrema Direita xenófoba e anti-europeísta ganha terreno. Sendo responsável pelas relações internacionais do PS (*), qual é a sua visão do que se passa com os eleitores?
Os fenómenos que tendem a extinguir o outro, o mais pobre, o estrangeiro, a mulher ou o negro, normalmente, têm por base causas sociais. Muitas pessoas têm uma reacção negativa aos estrangeiros porque sentem que não têm condições de vida e empregos suficientemente bons e questionam por que razão se há-de dar uma oportunidade aos outros, mesmo que sejam refugiados de guerra. "Estão lá na Síria, há uma guerra, mas eu também tenho as minhas dificuldades." Se as nossas sociedades não derem resposta concreta às condições de vida, as pessoas irão culpar alguém. Culpar o outro. É claro que há ideologias que exploram estas situações e acicatam o ódio a quem é diferente, mas, para eliminar a base onde estes fenómenos assentam, temos de progredir nas condições sociais, para que não haja tanta gente pobre. Socialmente, temos de progredir e do ponto de vista da democracia também, no sentido de dar maior participação às pessoas, para que se sintam mais bem representadas, com mais voz, com mais instrumentos e elucidá-las para que, sendo mais reivindicativas, sejam mais participativas e capazes de propor soluções. As pessoas quando estão elucidadas percebem a falácia das soluções fáceis e isso pode mobilizá-las para ajudar a resolver os problemas e evitar que sejam exploradas pelos demagogos.

Os detractores dizem que a EU é pouco solidária, pouco democrática, muito burocrática... A Europa unida dá-se pouco a conhecer?
É verdade que há coisas boas que a EU faz e que são pouco conhecidas. Por exemplo, grandes companhias como a Google ou o Facebook, facilmente passam por cima dos Estados. Desrespeitam-nos, como se as autoridades não existissem. Na União Europeia, isso tem sido contrariado. E o público não está consciente disso. No entanto, há coisas que a UE tem de resolver. Não pode ser uma coisa a pairar lá em cima, sem responder aos problemas dos cidadãos quanto ao desemprego, educação ou coesão territorial. A UE deveria dar passos para defender as economias dos Estados-Membros da especulação internacional. Precisa de influenciar a melhoria das nossas condições de vida e assim fazer com que as pessoas percebam que ela funciona.

O que podemos esperar no panorama político nacional, dentro de dois anos?
Esta solução de Governo do PS, com apoio parlamentar dos partidos de esquerda, fez o País perceber que é possível responder às exigências de rigor financeiro e económico e, ao mesmo tempo, não as aproveitar para destruir os direitos sociais, compatibilizando as duas coisas, mesmo não sendo fácil. Acredito que se irá prolongar, na próxima legislatura, uma solução política que permita continuar essa perspectiva. No que diz respeito ao PSD, saúdo a posição mais construtiva e com mais diálogo da nova Direcção. Mas não vi grandes mudanças políticas e estamos à espera de saber o que querem fazer.

Rui Rio anunciou, na semana passada, a intenção de propor uma alteração constitucional para sanar os problemas da Justiça…
Em Portugal, quando há algo para resolver é sempre mudando uma lei qualquer, quanto mais acima melhor. As coisas têm de se resolver de outra maneira.

A regionalização, bem feita, faz sentido em Portugal?
Em breve, iremos dar um passo em frente na questão da descentralização. Não faz sentido o Estado estar tão centralizado. Precisa de estar mais próximo das pessoas. Parece-me que o nível municipal não é suficiente e tem de haver um nível de administração supra-municipal. Já se tentou, mas, para já, não é possível.

O estado actual da imprensa, com menos leitores, com a concorrência das redes sociais, com as “notícias falsas” e “factos alternativos” é uma ameaça à liberdade de expressão e pluralidade?
É um desafio à democracia, mas a partir do momento em que os cidadãos têm mais meios para participar, eles têm de ter uma participação mais responsável. Quando falamos de notícias falsas, propagadas pelas redes sociais, elas são propagadas pelos utilizadores dessas redes. Se participam na difusão, têm de ser responsáveis.




_____________

(*) Nota do entrevistado. Não sou responsável pelas Relações Internacionais do PS. Fui, durante um curto período de tempo, devido a uma reestruturação do Secretariado Nacional. Durante a entrevista não me apercebi desta referência, por isso não a corrigi no momento. Actualmente, sou responsável pela Educação e Ciência na Comissão Permanente do PS.


Porfírio Silva, 15 de Março de 2018

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20/10/17

Ritos mortuários para robôs.




No "Caderno de Tóquio", onde descrevo e penso sobre os meus meses de trabalho no Japão, uma das coisas que explico é a particular relação que os japoneses têm com o mundo material inanimado. Compreender isso é útil para perceber a relação que têm com os robôs e com os produtos da Inteligência Artificial em geral.
Este vídeo do The New York Times, sobre a forma como os produtores do robô AIBO trataram dos respectivos "ritos mortuários", ilustra a mesma realidade.

Porfírio Silva, 20 de Outubro de 2017

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21/02/17

"Era digital e robótica: implicações nas sociedades contemporâneas"

19:54


Hoje estive na Conferência Parlamentar "ERA DIGITAL E ROBÓTICA: IMPLICAÇÕES NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS", que teve lugar na Sala do Senado da Assembleia da República. Coube-me fazer a intervenção em nome do Grupo Parlamentar do Partido Socialista. Aqui deixo o texto dessa alocução.

Para abordar o tema “Era digital e robótica: implicações nas sociedades contemporâneas”, precisamos deixar de lado as simplificações inspiradas seja pela tecnofobia seja pela tecnofilia, recusar o determinismo tecnológico e encetar o estudo dos desafios e oportunidades envolvidas na sua complexidade e incerteza, com recurso ao conhecimento disponível e à deliberação democrática.

Já todos estamos familiarizados com a pergunta: se um automóvel autónomo, a circular na via pública sem condutor, tiver um acidente, quem responsabilizamos: os ocupantes do veículo na circunstância, o construtor, os engenheiros que programaram a autonomia do veículo, ou os sistemas de informação que coadjuvam a circulação do veículo?

Se estas questões são principalmente jurídicas, outras podem tocar aspectos propriamente antropológicos.

Quando, em 2013, visitei o laboratório do professor Hiroshi Ishiguro, na Universidade de Osaka, pude observar os robôs humanóides da linha GEMINOIDS. Os robôs humanóides são, habitualmente, robôs com alguma semelhança genérica com o corpo humano: cabeça, tronco, pernas, braços, boca, olhos, orelhas. A forma humanóide de um robô facilita que saibamos como interagir com ele: entendemos facilmente onde estão as câmaras de vídeo que captam imagem, onde estão os microfones que captam som. Mas os robôs GEMINOIDS não são humanóides dessa forma genérica. Cada exemplar Geminoid é uma cópia, um duplo, um gémeo mecânico de uma pessoa particular. O primeiro Geminoid foi um gémeo do Professor Ishiguro. E já há versões mais actuais do Ishiguro robô. E já há gémeos robóticos de outros humanos.

Os Geminoids não são robôs completamente autónomos, são parcialmente teleoperados à distância. Sem tempo para explicações técnicas, interessa dizer que o Professor Ishiguro pretende construir robôs que sejam capazes de passar por pessoas. Disse mesmo uma vez: “se há falta de pessoas, porque não fazemos algumas?”. O gémeo humano poderia controlar não apenas um gémeo robô, mas dezenas de gémeos robôs. E sugeriu aplicações: num serviço, vários robôs gémeos podem tratar do atendimento ao público, com um único gémeo humano a controlá-los, intervindo este apenas em situações de disfunção. E os utentes sentir-se-iam atendidos por humanos. Estamos, aqui, julgo, a tocar questões mais fundamentalmente antropológicas do que as questões de responsabilidade civil. E a tocar questões éticas.

Seria enganoso, contudo, reconduzir a nossa problemática necessariamente para este tipo de robôs. Um conjunto de sensores, um conjunto de actuadores, e algoritmos que liguem os primeiros aos segundos, fazem um sistema robótico, mesmo que esses elementos estejam apenas ligados sem fios e distribuídos por diferentes locais, por exemplo numa praça pública, de forma que um leigo nem sequer se aperceba.

Já há certos domínios da interacção social a ser profundamente transformados pela presença massiva de agentes não-humanos, de modos tais que os humanos envolvidos não têm como distinguir a acção dos humanos da acção das máquinas.

Um exemplo vem dos mercados financeiros, com a chamada “negociação automática”, consistindo no uso de computadores para compra e venda, extremamente rápida e massiva, de produtos financeiros em mercados electrónicos globais. O uso de poderosos algoritmos permite uma especulação automatizada que resulta lucrativa basicamente por ser rápida e massiva. Em poucos anos, o tempo de execução destas operações baixou dramaticamente de segundos para microssegundos, havendo indicações de que representam cerca de metade do volume negociado nas bolsas americanas e europeias. Nestas situações, os traders envolvidos não sabem se estão a interagir com pessoas ou com máquinas. Anote-se, aqui, a recente proposta de lei do governo sobre o Regime sancionatório do direito dos valores mobiliários, que inclui algumas destas acções na categoria de operações susceptíveis de pôr em risco o regular funcionamento dos mercados.

Sim, a influência de produtos da Inteligência Artificial nas nossas vidas não está para chegar: já está entre nós.

E quando falamos em Inteligência Artificial falamos também de “machine learning” (máquinas que aprendem), falamos de programas que resultam de técnicas de evolução artificial (que não foram explicitamente escritos por um humano), falamos do cruzamento das nanotecnologias com a robótica, por exemplo para uso médico no interior dos nossos corpos. Ou falamos de guerra, de guerra à distância de milhares de quilómetros.

Um aspecto importante do que está a acontecer é a Internet das Coisas.

A Internet das Coisas será uma rede global de “coisas inteligentes”, assim ditas por serem identificadas individualmente, por disponibilizarem informação e por recolherem informação de forma massiva, entrando na nossa interacção social. E não estamos a falar apenas de computadores e telefones, estamos a falar de televisores que registam o que vê cada membro da família, frigoríficos que sabem o que cada um come, camas que sabem quem lá dorme, carros que denunciam onde fomos, medicamentos que ajudam a calcular que doenças temos, passaportes que transmitem os nossos roteiros, peçam de roupa que nos localizam e que recolhem dados sobre a nossa condição física. E tudo isto pode ser justificado benevolamente. Já há projectos, por exemplo, para colocar etiquetas de radiofrequência em notas de banco, para poder seguir cada uma individualmente e assim melhor se poder combater a corrupção. Tudo isto representa a possibilidade de uma avassaladora invasão de privacidade, tornando-nos uma fonte contínua, e talvez inconsciente, de documentação pública da nossa vida privada.

Pensando em termos de impacte no trabalho e no emprego, temos de olhar para a economia das plataformas digitais, que mobiliza uma conectividade ubíqua, omnipresente, para fazer do acesso a plataformas digitais a base de novas formas de negócio, não apenas para mobilizar consumidores (que compram livros, ou serviços de transporte, ou alugam apartamentos na net), mas também para comprar força de trabalho em formas que escapam largamente à regulação do Estado Social de Direito.

Vamos dizê-lo desta forma: há um novo actor nos mercados de trabalho: a multidão. A mecanização, na sua forma digital, dispensa as massas de trabalhadores reunidos numa empresa e recruta indivíduos isolados, que trabalham separados uns dos outros, dispersos por todo o mundo, uma multidão atomizada.

Uma forma de mencionar estes esquemas é chamar-lhes “outsourcing online”, por exemplo com o recrutamento online de trabalho barato e pouco qualificado.
Exemplo é o Amazon Mechanical Turk, onde, 24 horas sobre 24, sete dias por semana, alguém compra tarefas e alguém realiza tarefas em troco de um pagamento. Diz-se que são “Tarefas de Inteligência Humana” porque, sendo tarefas relativamente simples, os computadores são ainda ineficientes na sua execução. Exemplos: processar fotos ou vídeos para encontrar certos conteúdos, editar um ficheiro áudio e passar para texto escrito, verificar um grande catálogo para detectar erros.

Nestas plataformas, desaparece o enquadramento das leis laborais, desaparece a negociação colectiva, desaparece a organização dos trabalhadores, em muitos casos desaparece simplesmente a noção de direitos dos trabalhadores.

Uma multidão dispersa e anónima, de indivíduos isolados, face a empregadores globais sem rosto, é o inferno da desprotecção absoluta do trabalho.

Como desafio ao Estado Social, cabe notar que esta economia das plataformas, globalizada e desregulada, contém riscos para os sistemas públicos de segurança social e, mais geralmente, para o financiamento do Estado Social. É preciso aprofundar o debate, que o PS relançou recentemente, acerca da necessidade de alargar as fontes de financiamento da segurança social. Os que falam em impostos sobre o trabalho dos robôs falam, mesmo que por vezes de forma imprecisa, da necessidade de pensar as consequências de economias mais capital-intensivas.

Importa sublinhar que não são as máquinas que nos obrigam a usá-las desta ou daquela maneira. As máquinas abrem certas possibilidades, boas ou más, mas a escolha é colectivamente nossa. Para dar o exemplo da saúde: podemos usar robôs que supostamente são cuidadores de idosos e, na verdade, estarmos a condenar os idosos a ficarem sozinhos com máquinas. Mas o uso de robôs em ambiente hospitalar pode ser profundamente humanizador.

Foi assim com o robô humanóide Gasparzinho, que o Instituto de Sistemas e Robótica colocou na ala pediátrica do IPO de Lisboa, um projecto no qual ainda pude participar. Ora, o Gasparzinho, interagindo com as crianças em actividades educativas e de entretenimento, foi capaz de melhorar a qualidade de vida daquelas crianças. Num ambiente difícil, e muito regulado no plano ético, o robô contribuiu para a humanidade dos intervenientes.

O que vos digo não é uma justificação articulada do conjunto de razões que podem levar um Parlamento democrático a debruçar-se sobre estas questões. O que vos digo, no tempo disponível, é meramente impressionista e deixa por mencionar muitos aspectos cruciais. Mas espero que seja suficiente para marcar este alerta: a Assembleia da República deve dotar-se dos mecanismos necessários para estar preparada para os desafios que a Inteligência Artificial, a Robótica, a Internet das Coisas, e outras tecnologias associadas, colocam às nossas sociedades, para saber quando, e como, deve intervir como legislador responsável e atento.

O Parlamento Europeu já começou a fazê-lo, com uma resolução adoptada na semana passada, onde propõe uma Carta Europeia da Robótica, incluindo códigos de conduta para diversas categorias de profissionais, solicitando à Comissão Europeia que tome iniciativas legislativas e considere a criação de uma agência europeia para lidar com estas questões.

Teremos, na Assembleia da República, de encontrar os nossos próprios caminhos para fazer a nossa parte, como legislador prudente agindo com base no melhor conhecimento disponível.

Uma nota final. Estas questões não são questões tecnológicas, são questões de sociedade. E dou apenas um exemplo. Quando dizemos que as nossas crianças usam e abusam do tablet, podemos dizer que não há mal nenhum em usar o tablet. Temos é que ensiná-las a combinar o que está no tablet com o conhecimento do avô e da avó, que os liga a uma rede social, a uma rede de memória, a uma rede de cultura, a uma rede de tradição. Esses são os nossos desafios, civilizacionais.



21 de Fevereiro de 2017

11/05/15

um filósofo entre robôs.



Em 2007 terminei o doutoramento em Filosofia das Ciências. Tinha introduzido, nessa investigação, um conceito: Robótica Institucionalista. A ideia de partida era simples: se queremos mesmo lidar com colectivos de robôs (Robótica Colectiva), deixemos de usar simplificações individualistas dos colectivos e vamos inspirar-nos nas instituições, essas complexas ferramentas que usam os humanos para se coordenarem em colectivos sofisticados. Uma parte das minhas apreciações sobre a Robótica Colectiva, simultaneamente admirativas e críticas, eram sobre o trabalho dirigido pelo Prof. Pedro Lima, do Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico). Ora, foi ele precisamente que me disse: então, vem para cá e vamos tentar fazer alguma coisa prática com as tuas ideias. E lá fui e assim se iniciou o "projecto" ou a "linha de investigação" que temos designado por Robótica Institucionalista.

Aprendi muito neste anos - tornei-me ainda mais admirador e interessado na robótica, tendo-me tornado também mais pessimista quanto ao que se pode fazer num horizonte próximo - e tive imenso prazer com a natureza multidisciplinar do nosso trabalho: fazer robótica com inspiração filosófica e com ferramentas das ciências sociais (nomeadamente, de algumas correntes heterodoxas da economia). Fui percebendo, a duras penas, que a multidisciplinaridade, sendo bonita para os discursos, é considerada um estorvo pela maioria dos investigadores, que precisam de "pontuar" nas suas respectivas carreiras e não se permitem "perder tempo" a perceber o que fazem investigadores de outras disciplinas.

Um looooooongo evento que agora termina ilustra bem estas tortuosas aventuras da multidisciplinaridade.

Com o tempo, os meus interesses em Robótica Colectiva (controlar sistemas de múltiplos robôs com conceitos sociais, institucionais) evoluíram para interesses em Robótica Social (robôs metidos em interacções inteligentes com humanos). Mais precisamente, os meus interesses fertilizaram-se mutuamente: robôs sociais (por interagirem com humanos) mas em colectivos alargados (e não apenas em interacções entre um robô e um humano). Quer dizer, passei a interessar-me por interacções sociais entre múltiplos robôs e múltiplos humanos, em ambientes informalmente humanos (e não em laboratórios robóticos feitos especificamente para serem amigáveis para as máquinas). E, sempre, usando conceitos institucionalistas.

Nesta aventura embarcámos três. O Pedro Lima, coordenador do meu laboratório no Instituto de Sistemas e Robótica, com uma enorme abertura de espírito e com uma imensa capacidade para juntar pontas dispersas, desde a ciência da computação à biologia, passando pela economia e a filosofia. O José Nuno Pereira, que veio da matemática para a robótica, passando pela biologia, e que, tendo caído neste caldeirão experimental, não teve medo e se agarrou à Robótica Institucionalista, tendo acabado por fazer o primeiro doutoramento científico num conceito que eu tinha lançado do lado da filosofia. E eu, ansioso de perceber tudo, omnívoro, mas sempre entre dois mundos, a tentar não naufragar em nenhum deles.
Estes três (ajudados pela participação e pelo entusiasmo de outros, de que é justo destacar o Prof. Rodrigo Ventura) tratámos de querer explicar isto ao mundo. Como? Fazendo uma série de experiências robóticas e computacionais inspiradas na minha abordagem filosófica (institucional) e, depois, escrevendo um artigo metade filosofia, metade robótica para uma boa revista de... robótica. Isso: uma artigo metade robótica metade filosofia para uma revista de robótica. Bom, abreviemos razões: não foi fácil, mas está feito. Está publicado (online first) e, confesso-vos, não podia deixar de celebrar. Por que hão-de ser tão difíceis estas coisas? Quando os revisores diziam "isto é difícil de entender", eu dizia para o Pedro e o Zé Nuno: "se eu, na licenciatura, me queixasse de que Heidegger era difícil de ler - e era -, em vez de tratar de dominar a dificuldade, não seria bem tratado; por que é que os cientistas, quando não percebem uma coisa, acham que a culpa é dos outros?". Estão a ver que os diálogos eram um pouco estranhos...

Ninguém festeja um "paper", como se diz nesta gíria, mas este quero festejá-lo. Podem ler a última versão dos autores aqui, podem ler a versão publicada (só para assinantes) aqui.

Deixo, a título de registo, o resumo do artigo intitulado: Institutional Robotics. Institutions for social robots.

The way human beings engage with material things in our environment is experiencing rapid modification. Human and non-human, natural and artificial creatures are on the verge of building unprecedented relations of sociability. This paper takes this process as a horizon for Social Robotics, advancing a new approach to coordinate systems of multiple robots within social spaces durably shared by humans and machines. Given the fact that institutions are the tools in use within human societies to shape social action over long periods of time, we use human-inspired institutions to deal with scenarios involving many-to-many human-robot lasting interactions. Our approach, Institutional Robotics, is inspired by leading economists and philosophers having dedicated sustained efforts to the understanding of social institutions. This paper: (1) advocates the importance of an institution-based approach for multi-robot systems (Institutional Robotics) in real-world human-populated environments, where many-to-many social interactions among robots and humans must be considered; (2) reviews experiments conducted (including novel experimental work) and methodologies used in the process of advancing Institutional Robotics. Both contributions pave the way for a new institution-based methodology to coordinate robot collectives, which stems from an inter-disciplinary approach based on robotics, social sciences and philosophy.

Foi esta reorientação dos meus interesses filosófico-robóticos que acabou por me levar ao Japão. Mas isso é outra história...


09/01/14

O Totem Máquina.


As formas concretas de sociabilidade dos humanos são crescentemente influenciadas por novos tipos de objectos. Agentes artificiais ou «objetos inteligentes» estão cada vez mais presentes nas relações entre humanos no contexto social. Fenómenos como a «especulação automatizada» ou a «Internet das coisas» exemplificam a metamorfose de objetos com crescente impacto em domínios específicos da interacção social. Neste estudo interroga-se esta realidade com os instrumentos do debate em Antropologia sobre o totemismo e animismo nas sociedades não-Ocidentais ditas primitivas. Este debate, que teve início há algumas décadas e ainda prossegue, fornece conceitos que ajudam a questionar ideias e experiências históricas das Ciências do Artificial (especificamente a Inteligência Artificial). A partir deste ponto de vista são também postos em questão fenómenos mais recentes.

Este é o resumo do meu artigo "O Totem Máquina. O Futuro da Identidade e o Futuro da Comunidade na Máquina Universal", publicado na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Série de Filosofia, no volume de 2012 (apesar de escrito e publicado em 2013), que passou agora a estar disponível gratuitamente em linha: basta clicar aqui.

Este texto teve origem numa palestra que dei na Universidade de Coimbra, a 31 de Maio de 2012, no Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, a convite do Professor Luís Quintais, a quem agradeço ter-me levado para estes cruzamentos (que, aliás, tiveram muito a ver com a minha posterior ida e estadia para o Japão durante cinco meses de 2013).


30/11/13

a Google quer tatuar um telefone na sua garganta.

«The many faces of artificial societies: natural, artificial and alternate reality».



Simpósio, 5 de Dezembro

«The many faces of artificial societies: natural, artificial and alternate reality», organized by Porfírio Silva (Institute for Systems and Robotics, University of Lisbon, Portugal)
  • Between realities (Patrícia Gouveia)
  • Artificial life and synthetic biology (Rodrigo Ventura)
  • Humans, machines and fungibility (Porfírio Silva)
Programa do Simpósio aqui (em pdf).

Simpósio integrado na
Philosophy of Science in the 21st Century – Challenges and Tasks
International Conference

4-6 December, 2013 | Lisbon, Portugal

23/10/13

o "escritor".




O curto vídeo que vos deixamos acima é parte de um documentário da BBC Four, intitulado Mechanical Marvels: Clockwork Dreams on the history of automata, narrado pelo professor Simon Schaffer. Ele mostra um "menino mecânico" conhecido como "o escritor", uma criação de Pierre Jaquet-Droz ( 1721-1790 ), um relojoeiro suíço famoso por obras deste tipo.

O mecanismo do "escritor" tem milhares de peças e, sendo programável, permite-lhe escrever - com uma pena de ganso - qualquer texto com um máximo de 40 caracteres. A forma como os olhos do autómato seguem as suas "acções", bem como os detalhes da forma como processa a recarga da pena com tinta fresca (agitando-se brevemente para evitar "borrar a escrita"), dão-lhe uma estranha aparência "humana".

O autómato, acompanhado de outras maravilhas, está no Museu de Arte e História de Neuchâtel.

É possível ver o documentário na íntegra seguindo o seguinte link: Mechanical Marvels Clockwork Dreams.

(Não posso deixar de vos dizer que "escrever" assim não é escrever, por muito que isso desagrade aos meus amigos roboticistas. Escrever é andar pelo mundo, deixar-se questionar, reflectir - e depois dizer o que de relevante se encontrou nessa jornada. Daqui saúdo esses que verdadeiramente tratam de escrever. Mesmo quando o mundo está cheio de gente que disso nada percebe, ocupados que estão com os seus ódios de trazer por casa. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.)

01/10/13

Fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs.



Acabou de sair na Kairos, Revista de Filosofia & Ciência, número 7, o meu artigo "Fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs. A robótica humanóide e a captura da intencionalidade". Pode ser lido em linha (clicar no título). O sítio da revista pode ser visitado aqui: Kairos.

Trata-se de um texto cuja primeira versão apresentei em 2009 numa conferência em Offenbach am Main [“(Hi) story of Robotics” - Annual Meeting of the Society for the History of Technology, Germany)] e que esteve depois na base de uma apresentação que fiz no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, no quadro da Exposição corpoIMAGEM.

Deixo o resumo:

«Este texto discute as perspectivas da Robótica Humanóide no quadro historicamente alargado das visões humanas acerca dos humanóides. As crenças ocidentais nas raças fabulosas do Oriente, bem como aspectos da crise dessas crenças por ocasião dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI, são usados para iluminar o significado mais profundo de aspectos recentes desta linha de investigação em Nova Robótica. É proposto que a dinâmica profunda dessa Robótica passa pelo que designamos como captura da postura intencional.»


14/05/13

Hatsune Miku, a cantora virtual japonesa.


Logo no primeiro fim-de-semana em Tóquio, em visita ao Museu Mori, vimos um "espectáculo" de Hatsune Miku, que estava lá montado pela empresa que a comercializa, a Crypton Future Media. Hoje, na universidade, o Prof. K.I., em vista da conversa que estávamos a ter sobre os interesses comuns, sugeriu-me que desse uma espreitadela no projecto. Assim para começar, podem ver também um cheirinho, nesta rubrica de um canal de televisão brasileiro.




09/05/13

cimeira de geminóides.


O Prof. Hiroshi Ishiguro está muito interessado nos robôs humanóides e uma das suas linhas de trabalho com mais impacto são os "geminóides". Os geminóides são andróides que se assemelham visualmente a algum humano concreto. Em particular, há um geminóide do próprio Ishiguro. Os geminóides são tele-operados e são movidos por actuadores pneumáticos, e não por motores eléctricos, o que causa alguns problemas (por exemplo, parte dessa maquinaria não cabe dentro do robô, especialmente o compressor). O vídeo que vos deixo mostra um encontro de três geminóides com os seus três modelos humanos.

Gostaria de ver um gémeo robô de si própri@, leit@r, andar por aí?




30/04/13

no jardim da filosofia.


NO JARDIM DA FILOSOFIA é uma série de curtas entrevistas sobre tópicos filosóficos, com carácter elementar e introdutório. Os entrevistados são principalmente filósofos ou estudiosos das áreas sobre as quais são entrevistados. As entrevistas são realizadas pelo filósofo e (muito activo) professor de filosofia Aires Almeida. O projecto conta com o apoio da Didáctica Editora. As entrevistas aparecem em vídeo num canal próprio no YouTube.

Com os parabéns ao Aires Almeida, votos de proveitosa vida para o projecto - e também orgulhoso de ter sido incluído na primeira leva, deixo-vos a minha participação NO JARDIM DA FILOSOFIA. (Há um pequeno erro nas minhas palavras: quando falo do problema das "torres de Saigão", devia dizer "das torres de Hanói".)


24/03/13

a imaginação dos esclavagistas.



Certo, a notícia não é nova, mas desculpem-me se já a conheciam.
O caso é este. Há jogos em linha, na internet, envolvendo muita gente à volta do mundo. Por exemplo, variantes múltiplas de algum tipo de jogo de guerra. Esses jogos muitas vezes envolvem a necessidade de conseguir certos "bens virtuais" para se atingirem certos objectivos, como subir de nível. Em alguns casos, um jogador pode comprar esses "bens" a outros jogadores. Então, se isso pode ser um jogo, também pode ser... um trabalho. E, mais, pode ser... uma forma de escravatura moderna. Relatado pelo The Guardian: na China, alguns prisioneiros são obrigados a jogar intensamente para acumular "ouro virtual", que depois é vendido a outros jogadores, em troca de dinheiro real - que, claro, não vai para os prisioneiros-jogadores, mas para os seus exploradores corruptos.

(notícia original no The Guardian)

21/03/13

um robô pode cuidar de nós?


O robô RIBA foi construído para ser capaz de retirar e voltar a colocar uma pessoa numa cama ou numa cadeira de rodas. É suposto servir, assim, para apoiar no cuidado de pessoas doentes ou idosas. Deixo para pensar: que questões éticas levanta o uso deste robô? Podemos ser "cuidados" por máquinas?



19/11/12

vá, agradece ao robô.


Um exosqueleto é uma espécie de esqueleto externo: uma estrutura de suporte e protecção para outros órgãos do corpo humano, como também o esqueleto interno é, mas colocado no exterior do corpo. O exosqueleto é algo que outras espécies naturais possuem.
E que tal um exosqueleto robótico, para tornar o corpo humano mais forte, mais resistente? Estão a fazer isso, para soldados em condições extremas. Veja o video. Deixo os comentários para as reflexões dos leitores.