08/09/18

A campanha contra Centeno


Pegou de estaca a vaga de criticar Centeno por tudo o que queremos fazer mas não pode fazer-se instantaneamente. Uma certa direita e uma certa esquerda convergem em sonhar com um governo sem Ministro das Finanças - isto é, em que a função de responsabilidade orçamental fosse ignorada.

Felizmente, este governo tem Ministro das Finanças - e, felizmente, é Mário Centeno, que conseguiu equilibrar o respeito pelos compromissos assumidos perante os portugueses (repondo direitos, rendimentos e serviços publicos) com os compromissos internacionais de Portugal, incluindo os compromissos europeus.

Claro que temos de mudar as regras e o funcionamento da zona Euro, para a tornar mais equitativa face às diferentes situações dos países membros, mas só um governo irresponsável descuraria a vantagem que temos todos em não dizermos aos possíveis investidores de todo o mundo que não ligamos nenhuma às regras da nossa zona monetária.

Infelizmente, alguns fazem de conta que não sabem que factores como os baixos juros da dívida soberana não caíram do céu, antes sendo causados pela reputação positiva que conquistámos nessa odiada realidade designada por "mercados".

Um aspecto particularmente ridículo da campanha contra Centeno é acusá-lo de ceder nos interesses de Portugal para preservar o penacho de ser presidente do Eurogrupo. É preciso namorar perigosamente o provincianismo político para não perceber que o exercício de funções internacionais relevantes é um activo importante para qualquer país. Ou não perceber que a chegada de Centeno à presidência do Eurogrupo só foi possível porque derrotámos quantos quiseram usar a cartada europeia para derrubar o governo das esquerdas em Portugal (embora, obviamente, o presidente do Eurogrupo não exista para impôr unilateralmente a sua visão aos restantes membros da zona).

Para mim, uma coisa é certa: Portugal ganhou muito em ter como Ministro das Finanças um Mário Centeno e não um Yanis Varoufakis. Poupou-nos muito do sofrimento que a arrogância de Varoufakis causou aos gregos.


Porfírio Silva, 8 de Setembro de 2018


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1 comentário:

Jaime Santos disse...

Tudo a favor de Centeno enquanto Ministro das Finanças Português, mas era preciso ter feito aquele declaração lamentável em que 'felicitava' os Gregos pelo fim do programa de resgate?

Centeno pode até não ter margem para criticar como Presidente do Eurogrupo aquilo que criticou antes como Ministro das Finanças, ou seja a casmurrice de Schaeuble e quejandos, mas ao menos escusava de se parecer com eles...

E nada disto invalida o que diz de Varoufakis. Mas são precisos, como se diz agora, dois para o tango, e à imprudência e à arrogância do Professor de Economia convertido em Ministro das Finanças Grego juntou-se a total falta de solidariedade europeia e a vontade de castigar os Gregos pelo atrevimento de terem vindo pedir melhores condições aos restantes líderes europeus.

Aliás, o que aconteceu estava na linha do que Merkel disse em tempos a Papandreou, que se o programa de austeridade era tão duro, isso era para que mais ninguém quisesse um igual. A isto chama-se promover uma ação exemplar...

Não tenho dúvidas que Centeno se está nas tintas para as honrarias europeias e que é demasiado inteligente para estar ofuscado pelo lugar que ocupa. Mas ao menos que não o pareça, que diabo...