15/03/18

as máquinas, os humanos e o que aí vem







 

No próximo sábado, 17 de Março, estarei em Leiria, no Mercado de Sant'Ana, 21h00, a convite da ASTERISCOS, para debater a Inteligência Artificial.
O Jornal de Leiria publicou uma entrevista comigo, sobre esse tema - e com umas perguntas finais sobre política geral. Aqui fica para memória futura.

O original encontra-se aqui (clicar aqui para ir).




No próximo sábado, às 21 horas, no Mercado de Sant'Ana, em Leiria, vai participar no primeiro Paradoxo, ciclo de debates sobre temas de impacto mundial. O primeiro tema será a Inteligência Artificial (IA). O que é a IA?
É o Homem a brincar aos deuses? A primeira vez que se utilizou a expressão, num projecto de investigação científica, a definição dada foi: "fazer com que as máquinas sejam capazes de desempenhar determinadas funções que, normalmente, são feitas por humanos". Ou seja, para certas capacidades e habilidades, que consideramos humanas, colocar-se-ia máquinas a desempenhá-las. É "inteligente", por referência à nossa inteligência e "artificial", porque se colocaria máquinas a fazê-lo. Alguns dos exemplos iniciais de inteligência artificial são de máquinas a jogar xadrez, que se considerava ser a demonstração de uma capacidade de inteligência extraordinária.

Mas ainda não é possível replicar a inteligência emocional.
Há um certo folclore no uso da expressão inteligência artificial e emocional. Uma grande diferença entre os humanos e estas máquinas que podemos considerar inteligentes, é que a maior parte das coisas que a nossa espécie aprende não é ensinada explicitamente. Vamos à escola aprender a escrever, matemática, história ou geografia mas, antes disso, aprendemos muitas coisas que ninguém nos estava intencionalmente a querer ensinar. Fazemo-lo em contacto com os nossos pais, com os amigos... A maior parte das competências que fazem com que sejamos não apenas inteligentes, mas humanos - como saber o que as pessoas dizem, saber falar com elas, perceber as situações que nos rodeiam não se aprende com escola nem com intenção explícita. Temos um processo muito longo de aprendizagem. Em pequeninos, nem sequer somos capazes de sobreviver sozinhos, e demoramos anos até termos maturidade intelectual, emocional e física. As máquinas são criadas com determinadas capacidades e podem aprender algumas coisas, que são limitadas pelo hardware e pelo software iniciais. Como se ensina um filho a ser feliz? Se calhar, não saberia como lhe explicar tal coisa. É algo que se aprende por contacto, empatia e convivência. Isso falta às máquinas. Há muita coisa que ninguém quer ensinar às máquinas e que seriam fundamentais…

Porque há perigos?
Veja as emoções. Elas são mecanismos. Não são resposta lógica a determinadas situações: verifico certos factos, vou buscar conhecimentos anteriores, faço uns cálculos e tomo uma decisão. As emoções, mesmo nos humanos, são mecanismos mais directos. Por exemplo, o medo... A maior parte de nós tem medo de répteis. Esse medo provoca reacções que não são cálculos lógicos, não são raciocínios muito intelectualizados. São mecanismos muito directos: vemos um certo sinal e fugimos. Isso teve e tem na evolução dos humanos uma função importante: as pessoas não perderem tempo a fazer contas até reagir.

É a auto-preservação.
Exactamente. Isso é uma dimensão que não existe nas máquinas inteligentes. Na realidade, há já alguns anos, os programadores começaram a aperceber-se que não eram apenas as componentes intelectuais que interessam à inteligência e começaram a focar-se no controlo físico da própria máquina e mecanismos mais directos de resposta, que fazem parte da nossa inteligência. No princípio dos trabalhos com IA, tinha-se uma ideia muito restrita e pobre do que é a inteligência. Os humanos são inteligentes de várias maneiras: são atentos às pessoas, são atentos ao estado das outras pessoas...

Existe um grande fosso entre os humanos e as inteligências artificiais?
Claro que sim. O processo da nossa evolução continua, devagarinho e, de geração em geração, vamo-nos adaptando ao contexto. As máquinas não têm isso. Na robótica inteligente, que costumamos chamar "robótica cognitiva", já há experiências de configuração da máquina, do seu hardware e software, adaptando-a ao contexto. No instituto onde sou investigador foi criado um pequeno bebé robô e, em vez de se lhe dar, à partida, por programação, a noção daquilo que é, por exemplo, um telemóvel ou uma caixa de cornflakes, mostrava-se, dizia- se o nome, permitia-se que a câmara de vídeo captasse o objecto e o robô ia adquirindo conhecimentos que não tinha. Isto permite que haja robôs com a mesma construção inicial, mas que se tornam diferentes, porque são ensinados por pessoas com diferentes sensibilidades e conhecimentos. É nesta diversidade que nós, os humanos, crescemos e nos formamos.

Ainda estamos longe de ver aparecer o HAL 9000, de Arthur C. Clarke?
Bom, como espécie, também nos vamos modificando. Estamos mais programados do que há 50 anos… As profissões programam-nos, tornam-nos mais iguais. As pessoas que trabalham numa linha de montagem trabalham todas de modo semelhante. Estamos a aproximar-nos mais dos robôs do que eles de nós.

No ensino, as profissões ligadas às matemáticas e ciências puras também estão mais em voga do que, por exemplo, a Filosofia.
Sim, mas deveríamos notar que a IA sempre foi muito multidisciplinar. Houve, no princípio, um domínio grande da lógica, porém, desde cedo, começou a haver uma interacção com áreas, como a Psicologia. Herbert Simon, grande nome da IA, entendia que, para fazer a programação para computadores inteligentes, era preciso, primeiro, perceber como os humanos pensavam. Punha pessoas a resolver um problema e pedia que lhe explicassem, passo a passo, como o tinham feito. Após isso, tentava transpor para a programação o processo. Actualmente, a Sociologia tenta perceber como funciona uma IA no contexto social. As pessoas das Engenharias têm uma concepção de inteligência diferente da de pessoas de outras áreas. Isto permite aplicações de IA muito interessantes, como na Saúde, onde se estuda como a interacção com robôs permite melhorar a progressão social de crianças autistas.

Na natureza, as espécies mais fortes, eliminam as mais fracas e ocupam o seu lugar. Pode acontecer o mesmo com o Homem e com a IA?
Jamais se deve fazer declarações sobre o impossível. Por enquanto, fazemos das máquinas o que queremos. Temos é de escolher as boas e más aplicações. Não acredito que as máquinas façam mal aos Homens, sem serem os Homens a querê-lo.

Já há, neste momento, aplicação militar da IA.
Sim, nos drones, mas uma IA, capaz de pensar e fazer mal como o ser humano, é especulação. Na História, houve dirigentes políticos, como Hitler, que fizeram muito mal ao mundo, mas há milhões e milhões de pessoas que nunca fizeram mal a ninguém. Em determinado momento, poderemos ordenar às máquinas que façam coisas más a outros humanos, mas não será por iniciativa delas. Será por nossa culpa. No Japão, que é uma sociedade muito envelhecida e onde cuidar dos mais velhos é muito importante, há robôs para ajudar a tomar conta deles: levá-los do sofá para a cama, por exemplo. Mas há outros que, supostamente, fazem companhia aos idosos. Uma máquina até pode entreter durante um bocado, mas fará companhia? Isso não substitui a relação humana e não é o robô que escolhe ficar ali a fazer de conta que está a cuidar do idoso. Houve um humano que tomou essa decisão e abandonou aquele velhinho ou velhinha ao cuidado de uma máquina. Ou seja, nós é que temos de fazer as escolhas na forma como usamos as máquinas.



Desde há algum tempo que, na Europa, sempre que há eleições a Extrema Direita xenófoba e anti-europeísta ganha terreno. Sendo responsável pelas relações internacionais do PS (*), qual é a sua visão do que se passa com os eleitores?
Os fenómenos que tendem a extinguir o outro, o mais pobre, o estrangeiro, a mulher ou o negro, normalmente, têm por base causas sociais. Muitas pessoas têm uma reacção negativa aos estrangeiros porque sentem que não têm condições de vida e empregos suficientemente bons e questionam por que razão se há-de dar uma oportunidade aos outros, mesmo que sejam refugiados de guerra. "Estão lá na Síria, há uma guerra, mas eu também tenho as minhas dificuldades." Se as nossas sociedades não derem resposta concreta às condições de vida, as pessoas irão culpar alguém. Culpar o outro. É claro que há ideologias que exploram estas situações e acicatam o ódio a quem é diferente, mas, para eliminar a base onde estes fenómenos assentam, temos de progredir nas condições sociais, para que não haja tanta gente pobre. Socialmente, temos de progredir e do ponto de vista da democracia também, no sentido de dar maior participação às pessoas, para que se sintam mais bem representadas, com mais voz, com mais instrumentos e elucidá-las para que, sendo mais reivindicativas, sejam mais participativas e capazes de propor soluções. As pessoas quando estão elucidadas percebem a falácia das soluções fáceis e isso pode mobilizá-las para ajudar a resolver os problemas e evitar que sejam exploradas pelos demagogos.

Os detractores dizem que a EU é pouco solidária, pouco democrática, muito burocrática... A Europa unida dá-se pouco a conhecer?
É verdade que há coisas boas que a EU faz e que são pouco conhecidas. Por exemplo, grandes companhias como a Google ou o Facebook, facilmente passam por cima dos Estados. Desrespeitam-nos, como se as autoridades não existissem. Na União Europeia, isso tem sido contrariado. E o público não está consciente disso. No entanto, há coisas que a UE tem de resolver. Não pode ser uma coisa a pairar lá em cima, sem responder aos problemas dos cidadãos quanto ao desemprego, educação ou coesão territorial. A UE deveria dar passos para defender as economias dos Estados-Membros da especulação internacional. Precisa de influenciar a melhoria das nossas condições de vida e assim fazer com que as pessoas percebam que ela funciona.

O que podemos esperar no panorama político nacional, dentro de dois anos?
Esta solução de Governo do PS, com apoio parlamentar dos partidos de esquerda, fez o País perceber que é possível responder às exigências de rigor financeiro e económico e, ao mesmo tempo, não as aproveitar para destruir os direitos sociais, compatibilizando as duas coisas, mesmo não sendo fácil. Acredito que se irá prolongar, na próxima legislatura, uma solução política que permita continuar essa perspectiva. No que diz respeito ao PSD, saúdo a posição mais construtiva e com mais diálogo da nova Direcção. Mas não vi grandes mudanças políticas e estamos à espera de saber o que querem fazer.

Rui Rio anunciou, na semana passada, a intenção de propor uma alteração constitucional para sanar os problemas da Justiça…
Em Portugal, quando há algo para resolver é sempre mudando uma lei qualquer, quanto mais acima melhor. As coisas têm de se resolver de outra maneira.

A regionalização, bem feita, faz sentido em Portugal?
Em breve, iremos dar um passo em frente na questão da descentralização. Não faz sentido o Estado estar tão centralizado. Precisa de estar mais próximo das pessoas. Parece-me que o nível municipal não é suficiente e tem de haver um nível de administração supra-municipal. Já se tentou, mas, para já, não é possível.

O estado actual da imprensa, com menos leitores, com a concorrência das redes sociais, com as “notícias falsas” e “factos alternativos” é uma ameaça à liberdade de expressão e pluralidade?
É um desafio à democracia, mas a partir do momento em que os cidadãos têm mais meios para participar, eles têm de ter uma participação mais responsável. Quando falamos de notícias falsas, propagadas pelas redes sociais, elas são propagadas pelos utilizadores dessas redes. Se participam na difusão, têm de ser responsáveis.




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(*) Nota do entrevistado. Não sou responsável pelas Relações Internacionais do PS. Fui, durante um curto período de tempo, devido a uma reestruturação do Secretariado Nacional. Durante a entrevista não me apercebi desta referência, por isso não a corrigi no momento. Actualmente, sou responsável pela Educação e Ciência na Comissão Permanente do PS.


Porfírio Silva, 15 de Março de 2018

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