22/09/17

E pur si muove



A nova realidade que é a esquerda plural como maioria parlamentar dá imensas dores de cabeça a pessoas habituadas a ter os partidos à esquerda do PS arrumados na prateleira (como era nos tempos do "arco da governação").
Recentemente, a evidência, pelas declarações públicas dos mais altos dirigentes do PCP e do BE, de existir um debate em curso acerca do futuro da esquerda plural, terá convencido alguns de que isso é sinal de trovoada na maioria.
Não concordo.
Apesar de algumas dessas declarações terem o aspecto inabitual de uma troca de "mimos" entre PCP e BE (talvez especialmente compreensível em período eleitoral), o que se está a passar à vista de todos é um debate em curso. Começou a ser evidente que esta maioria parlamentar conseguiu fazer imenso pelo país, razão pela qual não pode simplesmente descansar sobre o que está feito e precisa pensar como nos organizamos no futuro. Não há nunca fórmulas que se possam simplesmente repetir, quando as águas passaram quatro anos sob as pontes e o país é outro. Sim, a esquerda plural como maioria parlamentar mudou o país: não terá resolvido imensos problemas que estão por atacar, mas abriu novas janelas e novos caminhos - e, por isso, novas ambições para quem trabalha e sonha por um país mais justo.
Qualquer debate sobre o futuro da esquerda plural terá o aspecto de uma luta - porque é uma luta. Uma luta política. Já que ninguém está acomodado; já que PS, PCP e BE continuam a bater-se pelas suas próprias contribuições e quererão que elas sejam relevantes no que finalmente acabará por fazer-se. Mas, mesmo assim, esse debate terá de fazer-se, de preferência a tempo e horas, mesmo que tenhamos de esperar pelo tempo certo para tirar conclusões.
Pela minha parte, que nunca hesitei em defender este caminho, também há muito que defendo a necessidade de um debate sobre os caminhos que há a percorrer para um prazo mais longo.
(Deixo, a este propósito, a entrevista que dei ao DN há algum tempo: "A esquerda tem de pensar uma agenda para a década".)

Porfírio Silva, 22 de Setembro de 2017


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