12/06/17

Refugiados, Europa, Esquerda



Leio nas notícias que a «UE pode iniciar terça-feira processo contra países que rejeitaram a recolocação de migrantes».


O Público especifica:

«A União Europeia vai dar início a processos judiciais contra três Estados-membros do Leste por não aceitarem requerentes de asilo, o que ajudaria os países na linha da frente da crise migratória. Segundo três fontes oficiais em Bruxelas, a Comissão Europeia deverá aprovar já na terça-feira o envio de notificações para a Polónia e a Hungria. Outras duas fontes disseram que a República Checa também está na lista.
Esta decisão, a confirmar-se, marca uma súbita escalada na disputa entre Bruxelas e estes países devido aos refugiados e imigrantes - as cartas de notificação são o primeiro passo de um processo de infracção que a Comissão pode accionar contra Estados-membros que não cumpram as suas obrigações legais.»

Eu acho bem. A Europa tem de defender os seus valores - e as decisões que toma em matérias de interesse comum.

Espero que a Esquerda portuguesa concorde que a UE deve tomar esta acção. Quero dizer: espero que ninguém, na Esquerda portuguesa, venha dizer que isto são "imposições" da UE.

E, de caminho, espero que, à esquerda, se abandone a retórica de chamar "imposições" e "chantagem" quando a UE faz cumprir as decisões que todos juntos tomaram segundo as regras comuns. Porque uma coisa é concordar ou discordar de uma política, outra coisa é chamar "imposição" e "chantagem" aos mecanismos de fazer respeitar as decisões comuns.

12 de Junho de 2017

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Há um ponto em que a Esquerda anti-UE tem razão, reconheça-se. As regras aplicam-se a uns, mas não se aplicam a outros, basta ver a flagrante violação do teto de défice por parte da França ou a acumulação de excedentes comerciais pela Alemanha. Uma política mais expansionista por parte desta última em casa não apenas devolveria rendimentos aos mais pobres por lá, como ajudaria a procura nos países que são os principais parceiros comerciais da Alemanha, caso de Portugal. Isto dito, o discurso sobre as imposições europeias revela, digamos, uma certa hipocrisia por parte da Esquerda. Por um lado, defende-se o regresso ao Estado Soberano que permita outras escolhas a nível de política económica, esquecendo que as ditas escolhas dependerão da 'magnanimidade' dos vilipendiados mercados, pois serão eles que terão que nos continuar a emprestar dinheiro, porque o âmago de tais políticas consiste precisamente na acumulação de défices orçamentais. Não me parece que estarão muito para aí virados, como se viu quando a Black Rock, a Pimco e outros investidores anunciaram que deixariam de investir em Portugal por causa da passagem de obrigações do NB para o BES. Daniel Oliveira chamou-lhe chantagem, mas isso não é correto, é isso sim uma represália, inteiramente expectável. O nosso Governo, bem, está a tentar uma solução negociada. Pelo caminho, também não se elencam as possíveis consequências de um regresso ao Escudo e de uma potencial saída da UE (fecho de mercados, inflação, etc). Sinceramente, o PS andou demasiado tempo colado a um discurso idealista sobre a UE. É evidente que na União e em tempo de crise, cada Estado tentará defender os seus próprios interesses e nós devemos fazer o mesmo e dizê-lo sem complexos. Mas é preciso denunciar igualmente o discurso que vê na UE a fonte de todos os males e que sonha com uma nova 'Europa de Estados Soberanos' (seja lá o que isso for) onde de repente e como por magia, esses Estados deixariam de se comportar da maneira presente... Claro que, desaparecidas as barreiras legais, o que se veria seria a habitual luta de todos contra todos, onde seriam os pequenos, como nós, que mais teriam a perder. A melhor arma contra esta espécie de discurso não é pois o euro-idealismo que soa ora ingénuo ora hipócrita, mas sim um 'hard-headed realism'...