30/12/16

Vale dos caídos, Tóquio.



Sob o título "Japão: em Yasukuni, a II Guerra Mundial ainda está por terminar", o Público noticia hoje o seguinte: "Um dia depois de Shinzo Abe ter feito uma visita histórica a Pearl Harbor, a ministra da Defesa japonesa visitou o controverso santuário Yasukuni, onde é feito o culto a criminosos de guerra." É, de facto, uma questão quente na política japonesa e regional.

A 15 de Junho de 2013, durante a minha estadia de cinco meses na Universidade de Tóquio, visitei o templo em questão. O texto que então publiquei neste blogue explica o que por lá está em causa. Reproduzo esse texto abaixo, sem tirar nem acrescentar. (Este texto consta agora do meu livro Caderno de Tóquio. Para saber mais sobre esse livro pode clicar aqui.)




Hoje fiz uma visita muito querida à direita nacionalista e imperialista do Japão. A um sítio que essas correntes gostariam que fosse visitado por políticos de topo, para quebrar o tabu que ainda é paras as forças mais tradicionais da política japonesa do pós-guerra. Fui visitar o Yasukuni Jinja. Localizado no bairro de Iidabashi, considerado um dos santuários xintoístas mais bonitos e imponentes de Tóquio, o Yasukuni Jinja (“Santuário para a Paz da Nação”) é dedicado aos nacionais caídos em combate nas guerras travadas pelo Japão moderno, incluindo (mas não exclusivamente) os mais de dois milhões de japoneses que morreram na Segunda Guerra Mundial (entre eles, vários dirigentes militares condenados como grandes criminosos de guerra). No recinto, compondo a mensagem, encontra-se o Museu da Guerra Yushukan. Mas vamos por partes.

Muitos aspectos deste santuário xintoísta são como em qualquer outro. A entrada na zona santa é assinalada por portais (torii), sendo que este, enorme e em aço, ao ser visto de dentro mostra bem a divisão com o espaço profano.


Há a actividade de pedir um desejo e, não gostando do que calhou, deixar o respectivo papelinho pendurado à espera que os deuses façam melhor, criando o que chamo “árvores de desejos que não correspondem às expectativas”.


Também há votos inscritos em tabuinhas que se penduram numa estrutura própria.



E também há o espaço para o ritual da purificação.


Há, contudo, requintes neste santuário que não se encontram em todos, como este palco específico para o teatro Noh, ao ar livre, como manda a tradição.


Podemos, contudo, encontrar indícios de que este santuário não é como qualquer outro - num sentido muito específico. Por exemplo, estava a acontecer, na parte reservada do santuário, uma cerimónia que julgo seria um casamento. Um casamento envolvendo gente da marinha de guerra, parece que não propriamente grumetes. Mas este seria apenas um indicador social.



Mais reveladora é a mensagem implícita de uma folhinha disponível no santuário. Parece que todos os meses há uma “última mensagem” a recordar. A última mensagem é uma carta de um militar japonês morto em combate, dirigida, por exemplo, como neste caso, à sua mulher. A “última mensagem” deste mês começa com uma introdução, que faz votos para que muitos venham venerar e conhecer os nobres pensamentos dos que deram a vida pelo seu país. A mensagem propriamente dita é do tenente da marinha de guerra Tokuji Onodera Mikoto, dirigida à sua mulher Etsuko, e começa com as seguintes palavras: “A minha alegria por morrer como escudo de Sua Majestade, como filho do Japão”. O resto não é muito mais original: o desejo longamente acarinhado de um homem, que é morrer pela sua nação, vai acontecer, vou alegremente doar a minha vida; a mulher tem que se comportar à altura da condição de esposa de um militar, criar o filho varão para que ele se torne também militar, criar a filha menina e arranjar-lhe um bom marido; se o filho de que está grávida também for varão, será também militar, se for menina, casará também; a esposa, após a morte do marido, deve voltar para a sua terra natal e tratar dos sogros (o tenente devia ser o filho primogénito, aquele a quem cabe cuidar dos pais, razão pela qual hoje em dias muitas mulheres os evitam como maridos); a esposa deve cuidar a sua conduta para não ser criticada; e “após a morte do meu corpo, o meu espírito tornar-se-á um guardião do nosso país e destruirá os inimigos do Imperador”; trata da educação dos nossos filhos, eu vigiarei por vós no outro mundo. Note-se que não se trata de uma despedida de última hora: a mensagem foi escrita a 29 de Novembro de 1940 e o tenente foi morto em combate a 13 de Junho de 1945. Trata-se de toda uma teoria perfeitamente assumida e sem os agravos da última aflição. (Reproduzo a folhinha em japonês, mas na outra face vem explicado em inglês.)


A outra componente do conjunto é o museu da guerra. Em parte é dedicado à memória dos combatentes (milhares de fotografias, por exemplo), mas é, substancialmente, um bom museu para passar uma mensagem. Cada secção tem painéis explicativos (interpretativos) e despojos de guerra em grande quantidade e que parecem cuidadosamente seleccionados. Os sectores com despojos estão, em geral, apenas explicados em japonês, mas os painéis têm versões em inglês. Daí resulta, sem estar aqui a fazer uma análise pormenorizada, uma adesão permanente a uma certa ideia de Japão imperial. Desde a queda do Shogunato e a restauração Meiji (quando o Imperador voltou a ter poder político, quando até aí, embora existisse, não tinha nada a ver com a governação) que a perspectiva é sempre a defesa do Imperador. O tom anti-ocidental é relativamente contido, mas sistemático. E uma certa ideia de “japoneidade” é permanente: foram sempre os adversários de guerra do Japão que tiveram culpa de tudo, desde os vizinhos chineses aos russos e aos ocidentais, sendo que o Japão agiu sempre de boa-fé e nunca fez disparate nenhum (a não ser ter perdido a última guerra). Muito significativo do que está em causa neste conjunto cerimonial. Na secção das relíquias, temos aviões que acabaram por ser usados pelos suicidas (kamikaze), embora não fosse esse o seu destino original; temos uma espécie de semi-planadores que foram concebidos mesmo para suicídio contra os navios americanos; e temos um submarino concebido para ser a versão em água dos kamikaze (atirar-se contra embarcações), pouco conhecido por ter chegado tarde na guerra e ter acabado por ter pouco uso.


Percebe-se agora por que comecei por falar em “Vale dos Caídos”? A estátua de Omura Masujiro (1824-1896), fundador do exército japonês moderno, colocada em grande destaque logo à entrada do santuário, diz tudo do que está em causa.



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