16/12/16

de luto pela Cornucópia.


(foto de Luís Santos)

A companhia Teatro da Cornucópia encerra as suas actividades. Uma notícia que magoa.

É amanhã..

Fico demasiado triste para investir mais palavras. Apenas repito um poema que dediquei ao Luis Miguel Cintra em 2014 (mais precisamente a 9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.) E neste poema abraço também a Cristina Reis e todos os outros que lá conheci - e também os que não conheci e, mesmo assim, pertenceram àquela casa.



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.




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16 de Dezembro de 2016

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