06/10/16

o erro de Assis.



Mais uma coluna de Francisco Assis sai hoje no Público.

Brevemente, Assis refere-se a um artigo que publiquei há dois dias. (Clicando aqui pode aceder ao texto desse artigo.)

Escreve Assis:

«Porfírio Silva, homem de inequívoca densidade intelectual, dedicou-se a escrever um texto a todos os títulos surpreendente. Depois de um congresso do BE marcado quase exclusivamente por uma algazarra antieuropeia — que teve o seu corolário patético na proposta de realização de um referendo sobre a permanência de Portugal na UE em função da eventual aplicação de sanções ao nosso país —, e nas vésperas de um conclave comunista que não deixará, por certo, de fazer do projecto europeu o bombo da festa da inflamada vozearia marxista-leninista, vem apelar a uma convergência de posições das várias esquerdas sobre a União Europeia. Ou estamos no campo da candura ou já chegamos ao domínio do delírio. Não é que Porfírio Silva não tenha razão naquilo que diz — o problema é que aquilo que ele pretende está em contradição quase patológica com a realidade.»

Obviamente, o que tenho a criticar no que Assis escreve não é que ele me critique. Contrariamente ao próprio Assis, nunca me queixei por ser criticado por outros camaradas. Não sou daqueles que gostam da sua liberdade de expressão, e de poder criticar, mas têm ataques de urticária quando os outros exercem a mesma liberdade. Portanto, nada contra que Assis me critique.

Contudo, Assis denuncia-se a cometer um erro essencial. Assis critica o meu artigo como se o meu artigo fosse um texto de um comentador. Eu estaria a descrever a realidade - e a realidade descrita por mim não seria nada do que eu via.

O erro - crasso - de Assis é que eu não sou um comentador. Eu não faço comentário político. Eu não sou repórter, relator, observador. Nada disso.

Eu faço política. Defendo o que acho que deve ser. Proponho pelo que devemos lutar. Faço combate político. Portanto, o meu artigo, tal como tudo o que escrevo como político, é uma determinação de trabalhar para que aconteça. E, sim, muito daquilo que um político empreende é sobre uma realidade que não existe - mas que queremos fazer acontecer.

O erro básico de Assis é não perceber que eu, como deputado e dirigente do PS, não me limito a descrever a realidade. Razão pela qual não escrevo como cronista. Escrevo como militante por causas e por caminhos em que acredito.

É surpreendente que Assis, sendo também deputado eleito pelo PS, não perceba a diferença. Esse é um erro politicamente muito relevante.

(Para ler na íntegra o artigo de Assis, pode clicar aqui.)

6 de Outubro de 2016

3 comentários:

Jaime Santos disse...

O que Assis está a fazer, Porfírio, é acusá-lo de 'wishful thinking', logo discordo que ele tenha cometido o erro que refere. O problema da Esquerda da Esquerda é o facto de ser anti-Liberal. Os dois partidos comungam de uma profunda rejeição a todas as formas de liberalismo económico e a sua peça tecia apesar de tudo um elogio ao modelo europeu de mercados abertos e da economia digital. Logo, não me parece que seja possível cooptar estes partidos para uma reforma da UE, pelo menos enquanto ela se mantiver nos moldes presentes... O problema destes Partidos é mesmo com a noção de Mercados Abertos e com a ideia de entrega da soberania monetária à UE (concordando eu com eles que a entrada para o Euro foi um erro, discordando no entanto que existem condições para sair da Moeda Única)...

Porfirio Silva disse...

Jaime,

Neste último ano fizeram-se imensas coisas que quase toda a gente dizia que eram impossíveis. Continuar com o mesmo algoritmo para distribuir os possíveis e os impossíveis pelas velhas caixas de pensamento, parece-me uma enorme teimosia contra a realidade da política. A política é a luta para transformar impossíveis em possíveis, de preferência deixando de aplicar quadros mentais fixos a um mundo mais móvel do que alguns são capazes de perceber.

Jaime Santos disse...

Olá Porfírio, Sim, mas um dos aspetos fundamentais da chamada 'Geringonça' é que os Partidos que nela participam não tiveram que abandonar nenhum dos elementos que caracterizam a matriz de cada um, no que isso revela de pragmatismo na Esquerda da Esquerda (porque o Programa de Governo é apesar de tudo do PS). Aquilo que pede é de toda uma ordem diferente de magnitude. Seria desejável, claro, porque há muito a mudar na própria UE, mas conceda a Assis que ele tem o direito de se dizer surpreendido pelo que você sugere como possível...