26/10/16

Educação Física e Filosofia.



Educação Física e Filosofia. Duas questões mais parecidas do que possa parecer. Leiam com atenção este texto da Bárbara Wong: Oh, não! A Educação Física conta para a média… Acaba assim - e cito:

Agora, o Governo decidiu e bem que a nota de Educação Física volta a contar para a média final do secundário. Bem, porque nem a disciplina, nem os seus professores são de segunda. Aliás, a disciplina é de primeiríssima e deveria ser cada vez mais importante porque contribui para que tenhamos filhos com mais saúde, logo, a longo prazo e se se mantiverem os hábitos adquiridos nestas aulas, hão-de ir ao ginásio por sua iniciativa, combinar uns jogos de basquete ou de futebol com os amigos, não terão tantas doenças, envelhecerão mais saudáveis, etc, etc.

Mens sana in corpore sano. E por falar em mens sana, para quando a Filosofia até ao final do secundário em todos os cursos? Sim, porque esta também não é de segunda e contribui para termos meninos menos acríticos e com mais valores. Para uma sociedade melhor. Fica a sugestão.

PS: Eu nunca soube dar um pino, fazia mal a roda, tinha medo do salto sobre o cavalo e, no meu tempo, não se aprendia a dançar, uma pena.

Duas notas, de momento só sobre a Educação Física.
Primeira, claro que "Educação Física" não é "Desporto Escolar": não é para "premiar campeões", não é para dar má nota a quem não consiga um triplo salto mais longo do que a Patrícia Mamona ou não marque mais golos do que CR7. É para educar a nossa relação com o corpo, a coordenação, os bons hábitos dessa base material do ser que não vale menos do que a mente. E quem pergunta "mas os que têm um problema físico vão deixar de entrar em medicina por causa da educação física?" - esses lembrem-se de que não se trata de premiar o desempenho desportivo, mas o empenho na cultura física necessária à formação integral do ser humano. E isso precisam todos, qualquer que seja o físico que tenham. Sendo certo que é preciso repensar as modalidades e as práticas de avaliação da Educação Física, mas...
Segunda nota: se não contar para a avaliação, a Educação Física será "posta à sombra" e desvalorizada. Temos de remar fortemente contra o tal "afunilamento curricular" que pretendia que só interessava o Português e a Matemática.

E da Filosofia falamos outro dia. Mente sã em corpo são!

26 de Outubro de 2016


*** ADENDA***

 
Acrescento esta nota depois de ler algumas das reacções a este texto.

A Educação Física não interessa para alunos que vão para o Ensino Superior fora de áreas de Desporto?! Mas, então, a coordenação sócio-motora, mobilidade e estabilidade corporal não serão necessárias em qualquer profissão - ou melhor dito, em qualquer vida saudável?

A obesidade já deixou de ser um problema? Ou estará mesmo a precisar cada vez mais de ser combatida nos seus fundamentos, que estão ao nível da falta de educação física, de educação para o equilíbrio alimentar e para estilos de vida saudáveis? Ou já se esqueceram dos discursos que fazem acerca dos excessos da vida sedentária? Serão esses problemas só daqueles que vão para cursos de Desporto?

Era bom que ninguém, traumatizado/a com más recordações da "ginástica" de há 40 anos, deixasse de pensar em que mundo vive e o que pode significar "educação" nos dias de hoje.



4 comentários:

Pedro Vasconcelos Almeida disse...


Caro Porfírio,

Para mim, a questão chave reside nesta passagem da sua publicação:

"Sendo certo que é preciso repensar as modalidades e as práticas de avaliação da Educação Física, mas..."

Da forma como é leccionada actualmente a disciplina de educação física, sou frontalmente contra a contabilização das notas desta disciplina para a média final do secundário. Só poderei concordar com essa contabilização, se na avaliação desta disciplina as competências transversais tiverem um peso maior que as competências específicas, o que não acontece actualmente. E para mim, disciplinas como Educação Física nunca deveriam ter uma avaliação quantitativa de 0 a 20 mas talvez de 0 a 5. Isto para alunos que não queiram seguir a área de desporto como é evidente. Sou contra o afunilamento curricular de que fala mas para mim a premissa de que a disciplina de EF não é igual a todas as outras é verdadeira (e talvez resida aí boa parte deste debate), à semelhança do que acontecerá também com Educação Visual.A verdade é que nas aprendizagens lidamos sempre com duas dimensões: as competências e o talento. Na maior parte das áreas, mesmo sem um talento natural, as competências podem ser treinadas de forma a que nos tornemos melhores. Ora, em Educação Física, isso não acontece de forma tão linear, porque o bom desempenho está tendencialmente mais dependente de condicionantes que são intrínsecas ao próprio indivíduo como a condição física ou até mesmo a coordenação motora para algumas modalidades. Termino, fazendo desde já um disclaimer: nunca fui gordo, não tinha más notas a educação física nem acho que esta disciplina seja menos importante que as outras, é apenas diferente.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Vasconcelos Almeida

Porfirio Silva disse...

É claro que as modalidades e práticas de avaliação são essenciais. Tal como não se pode confundir Educação Musical com aprendizagem de um instrumento, por exemplo. Ser musicalmente educado não é ser um violinista virtuoso. Ser educado fisicamente não é ganhar provas de atletismo, por exemplo. Portanto, concordo, sim, há aí que mudar certas práticas.
Acresce, contudo, que os "talento naturais" também estão presentes noutras áreas. Não será o caso da matemática, por exemplo? Valeria a pena discutir isso.
Faz-se caminho ao andar.

Anónimo disse...

Segundo os critérios usados no ensino público o Cristiano Ronaldo estaria chumbado a esta disciplina ou teria um dezito puxado. Só sabe de futebol. Esta decisão do governo é para beneficiar os alunos dos colégios que ficam com mais uma ou duas décimas a mais na média.

Porfirio Silva disse...

A sugestão de que se trata de uma tentativa do governo para "beneficiar os alunos dos colégios" é simplesmente disparatada.