07/10/15

E agora, Esquerda?



1. Os partidos também morrem. Ou por perderem internamente as condições de identidade e coesão que são indispensáveis a qualquer estrutura dinâmica ou por deixarem de cumprir externamente as suas funções no ambiente social e político em que se inserem. Uma forma de deixar um Partido morrer simultaneamente por razões internas e por razões externas é deixar que o Partido perca a sua autonomia estratégica, a sua capacidade para prosseguir os seus próprios fins nos seus próprios termos, nos tempos ditados pela vida política real.

2. Uma forma clássica de matar um partido é permitir que ele deixe de representar aqueles que prometeu representar.
Ora, nas eleições de domingo passado, nenhum eleitor votou no PS para dar continuidade a este governo.
Demos sinais suficientes de que, pelo menos com este PSD e com este CDS, a nossa função é ser alternativa. Foi isso que dissemos: se nos propomos mudar a política que eles fazem, não é com eles que isso pode ser feito.
Se o PS for dolosamente responsável pela continuação deste governo, o prognóstico é duro mas é claro: o PS vai “pasokar”. Seremos reduzidos à insignificância dos partidos que se separam dos seus eleitores e que, enredando-se em justificações mais ou menos artificiosas para tentar esconder a sua deslealdade aos que prometeram representar, são descartados como inúteis. A nossa única glória será linguística: introduzir na língua portuguesa um novo verbo: Pasokar. Mas o PS não existe para inovar linguisticamente, existe para representar os portugueses que se identificam com a esquerda democrática e com as soluções social-democratas para a crise que vivemos.

3. No actual quadro parlamentar, só vejo uma forma de fazer isto. Devemos verificar as condições de um governo sem PSD e sem CDS, não vamos deixar o Bloco e o PCP a fazerem de conta que querem apoiar um governo do PS se apenas estiveram a carregar munições para a sua retórica futura, vamos verificar o que eles querem efectivamente dizer e fazer, vamos testar aquilo a que estão dispostos. E digo: vamos fazer esse teste publicamente. O meu entendimento é que o PS deve promover reuniões formais, ao mais alto nível, com o propósito declarado de verificar as condições de um governo liderado pelo PS em que o PCP e o Bloco assumam as responsabilidades a que até hoje fugiram.
Sou de opinião que devemos fazer isso imediatamente. Quando um indigitado primeiro-ministro da direita aparecer no Parlamento com o seu programa de governo, o PS deve estar, já nessa altura, de posse de todos os dados que lhe permitam saber se tem alguma utilidade política apresentar uma moção de rejeição que tenha o carácter de uma moção de censura construtiva, na medida em que contenha as linhas fundamentais de um governo alternativo capaz de reunir apoio coerente e responsável na Assembleia da República. Já temos, aliás, o essencial do caderno de encargos, que são os quatro objetivos essenciais enunciados pelo Secretário-Geral do PS, António Costa, na noite das eleições:
• Virar de página na política de austeridade e na estratégia de empobrecimento, consagrando um novo modelo de desenvolvimento e uma nova estratégia de consolidação das contas públicas, assente no crescimento e no emprego, no aumento do rendimento das famílias e na criação de condições de investimento pelas empresas.
• A defesa do Estado Social e dos serviços públicos, na segurança social, na educação e na saúde, para um combate sério à pobreza e às desigualdades;
• Relançar o investimento na ciência e na inovação, na educação, na formação e na cultura, desenvolvendo ao país uma visão de futuro na economia global do século XXI;
• O respeito pelos compromissos europeus e internacionais de Portugal, e a defesa dos interesses de Portugal e da economia portuguesa na UE, por uma política reforçada de convergência e coesão, que permitam o crescimento sustentável e o desenvolvimento do país.
Se, em vez de encetarmos este caminho, fizermos o que os “comentadores” nos pedem, deixaremos nas mãos de outros, no momento em que seja pior para nós, a vitimização do governo, eleições antecipadas e nova maioria absoluta da direita.

4. Claro que há sempre o argumento do centro.
Ainda agora há camaradas que escrevem que o problema é que o PS nestas eleições não conquistou o centro flutuante. Mas eu pergunto: qual centro flutuante? Se estamos a falar de centro flutuante, só podemos estar a falar dos que votam ora na direita ora no PS. Então, se olharmos para os resultados eleitorais de 4 de Outubro, e se os compararmos com o histórico de resultados eleitorais em legislativas desde o 25 de Abril, temos de concluir que não ficou nada do centro flutuante na Coligação. Portanto, não havia lá nenhum stock de votos que o PS pudesse ter ido buscar e não foi buscar. Nós perdemos foi para a Esquerda, nomeadamente para o Bloco, e perdemos também para o desânimo, o que torna completamente falaciosa a ideia de que devíamos ter tido um discurso mais moderado para captar o centro flutuante – até porque o nosso discurso nunca deixou de ser moderado.
Aliás, como Partido temos de compreender algo muito importante. Somos um partido moderado e o nosso eleitorado é tradicionalmente um eleitorado moderado, e temos de agir com a moderação que nos é própria e que mantém o nosso lugar charneira no sistema político. Mas, precisamente, um dos nossos problemas é que os anos de crise radicalizaram uma parte do nosso eleitorado; as pessoas que, sentindo-se próximas do PS, foram mais violentadas pelas políticas da direita no governo, querem que o PS seja mais vociferante contra a situação. Temos de saber, mantendo embora a nossa matriz ideológica e cultural, dar resposta também a essas pessoas e não descolarmos dessas pessoas em nome de um centro flutuante que nestas eleições já abandonou a Coligação e partiu para outros voos.

5. O PS disse aos quatro ventos durante a campanha “Há outro caminho.” Não podemos desistir de trilhar esse caminho. Mais exactamente: temos de construir esse caminho, assumindo o esforço. O PS rejeitou, em moção aprovada no último Congresso Nacional, a teoria do arco da governação. Rejeitou – e bem. Porque o “arco da governação” é uma invenção da Direita para retirar a uma parte do eleitorado os seus direitos democráticos e condicionar o PS.
Está na altura de nos libertarmos desse condicionamento, assumindo que todos os votos de todos os eleitores são igualmente legítimos e que todos os partidos com representação parlamentar têm responsabilidades face à governação do país. Os eleitores dos partidos à esquerda do PS valem tanto como os eleitores dos demais partidos, os deputados do BE e do PCP são tão legítimos representantes do povo como os deputados do PS ou de outros partidos. E compreender isto é essencial para compreender o que há a fazer neste momento, para que os mais de 60% dos votos expressos contra este governo não valham menos do que a minoria que votou pela continuidade da Coligação de direita radical. Ainda por cima quando o "Presidente da República" se comporta cada vez mais ostensivamente como um mandatário do chefe do seu partido.


Porfírio Silva

(Escrevo assumindo a minha condição de Secretário Nacional do Partido Socialista e fazendo deste texto uma espécie de “declaração de voto” a favor da posição tomada nesta madrugada pela Comissão Política Nacional do PS, que mandatou o Secretário-Geral para desenvolver no quadro parlamentar diligências que permitam concretizar os quatro objectivos essenciais que o PS definiu para esta fase da vida nacional, acima enunciados.)


17 comentários:

Francisco Clamote disse...

Apoiado!

Francisco Clamote disse...

Apoiado!

Pedro S disse...

"para que os mais de 60% dos votos expressos contra este governo não valham menos do que a minoria que votou pela continuidade da Coligação de direita radical"

Este argumento prova demasiado: se fosse admissível, também poderíamos dizer que houve mais de 65% de votos que se manisfestou contra o PS, mais de 90% que se manifestou contra o PCP , e mais de 85% que se manifestou contra o BE.

Ricardo António Alves disse...

Muito bom post, que toca nos pontos essenciais.
Infelizmente, não me parece que o PC surja com boa-fé política negocial; e sem ele, o BE contará pouco. O que significa que o PS deverá manter-se fiel aos seus compromissos eleitorais, correndo riscos, mas nunca deixando de desmascarar as jogadas à sua esquerda e à sua direita.

" E digo: vamos fazer esse teste publicamente." É mesmo a única maneira de mostrar a todo o país o que cada uma das forças políticas quer. À direita não há dúvidas; à esquerda também ninguém deve ficar sobre a opção que cada partido tomou.

Antonio Lourenço disse...

Com coragem sem fretes á direita. Muito bem, excelente análise

Fábio Faria disse...

Como militante e dirigente do Partido Socialista e depois de ler o texto queria partilhar apenas o seguinte. O PS, como parece que acontecerá, promoverá como sempre o fez, o diálogo com as diferentes forças partidárias com vista a discussão de políticas, de cenários macro-políticos e de partilha de responsabilidades. Contudo, o PS deve manter-se fiel à sua declaração de princípios e respeitar aqueles que em si confiaram com o voto e isso significa, afirmar-se como uma força alternativa. No entanto, o PS tem de reconhecer os resultados, por mais que nos custe, e reconhecer que não foi a força política mais votada e, portanto, não foi aquela que os portugueses escolheram para governar. Sou há muito defensor do fim dos bloqueios à esquerda, gostei inclusivamente da atitude do partido Livre/Tempo de Avançar a esse respeito, no entanto e apesar dos portugueses terem votado maioritariamente nos partidos à esquerda, não votaram numa só esquerda, votaram em esquerdas diferentes e em, Portugal, há esquerdas diferentes que se traduzem permanentemente num bloqueio. O Bloco de Esquerda e a CDU constantemente batem no PS, quer o PS esteja no governo, quer não esteja, o que não é justo. Batem no PS e acusam-nos de promover políticas de direita. Na verdade, aquilo que ambos procuram a tomar o lugar do PS no sistema político português como a maior força de esquerda em Portugal. E só mais uma coisa, se o actual Bloco de Esquerda estivesse verdadeiramente interessado em governar e não em captar votos ao Partido Socialista, ao invés de publicamente, junto da comunicação social anunciar intenções e condições, seriam os primeiros a não atacar o PS na campanha e a sentar-se à mesa com o PS, sem os holofotes da comunicação social. Verdadeiramente, o Bloco e a CDU, não querem governar, querem dizimar o PS e ocupar o seu lugar. Que partido sério quer governar, querendo romper de frente com os credores depois do exemplo grego? Que partido responsável quer governar, assumindo o rompimento com a união económica e monetária se for preciso? E por fim, que partidos são estes que olham só vêm no PS como um saco de boxe. Como militante e dirigente do PS, não contem comigo para aceitar diálogos com quem impõe condições e com quem só nos quer atacar, pensando apenas na sua própria sobrevivência. Não é assim que se dialoga e se o BE verdadeiramente quer governar que se apresente com tal condição, abrindo a porta à possibilidade de ser parceiro de coligação do PS, nas próximas eleições. Em primeiro lugar, está o país e os portugueses e não será por xadrez partidário que o PS deixará de tomar com responsabilidade as decisões que terá de tomar a favor dos portugueses, nem deixando de assumir aquela que é a sua história e a sua identidade: europeísta, defensor das liberdades individuais e democráticas, defensor de uma economia de mercado e de um estado promotor da coesão social. O processo será com certeza difícil, mas confio no Secretário-Geral do PS e nos seus dirigentes para nos conduzir neste novo quadro político que se constituiu com as eleições do passado dia 4 de Outubro.

Jaime Santos disse...

A sua análise, Porfírio, está correta. A recomposição (e radicalização) do sistema partidário Português começou no dia 4 de Outubro e o PS será a primeira vítima dela, se algo não for feito. Só que lhe falta também falar das responsabilidades do PS e da liderança de que faz parte na derrota desse dia. É que, organização da Campanha à parte, o caso Sócrates à parte, as feridas mal saradas da disputa entre Costa e Seguro o Ano Passado à parte, que são elementos importantes mas não essenciais, os principais responsáveis por essa derrota foram as sucessivas inflexões de trajetória que Costa e a sua direção assumiram ao longo do Ano que agora finda. Costa e Seguro representavam, para além das diferenças pessoais e do núcleo de apoiantes, duas sensibilidades bem distintas. Costa desejava uma convergência à Esquerda, Seguro pretendia negociar sobretudo com a Direita uma Reforma do Estado. Como eu próprio estava farto do maldito conceito do Arco da Governação, votei em António Costa nas Primárias. Claro, todos sofremos um banho de realidade com a situação grega, em que a incompetência de Tsipras e Varoufakis transformou o que podia ter sido uma negociação frutuosa para a Grécia e para os restantes Países atingidos pela Austeridade num desastre que fechou a porta a uma renegociação da dívida e a a um alívio dessa Austeridade, provavelmente nos próximos Anos. Assim sendo, Costa optou e bem, digo eu, por um Programa modesto de Governo desenhado por uma pessoa do Centro-Direita, focado no estímulo do consumo por via da devolução de rendimentos, em vez do recurso ao crédito, como aconteceu este Ano. Só que. durante a Campanha, voltou a infletir a trajetória, dizendo que rejeitaria um Orçamento de um Governo PSD+CDS. Olhando para as bandeiras do BE e CDU (basta escutar Catarina Martins no debate com Costa para se perceber que o BE não tem nenhum programa), já é difícil perceber como é que se pode convergir com estes dois Partidos, mas é ainda mais difícil fazê-lo quando se parte de um Programa, agora sufragado pelo eleitorado, feito para Governar ao Centro. Assim sendo, em que ficamos?

Anónimo disse...

Porfírio

Um texto no qual me revejo,espero que o António leve a situação a bom porto. Desde 2011 que não votava no PS mas nestas eleições achei por bem voltar a votar no socialismo democrático e não me arrependo.
Abraço

Francisco Cavaco

António Alves Salema disse...

Plenamente de acordo com este texto.

Guilherme Fonseca-Statter disse...

Texto bem elaborado. Não sei o que disse Jerónimo de Sousa e membros do CC do PCP na reunião que foi anunciada, ou o que dirão os representantes do BE na reunião anunciada para a próxima semana. Mas, enquanto cidadão atento a estas coisas, faço aqui o seguinte reparo ao texto acima.
O problema fundamental do país é o desequilíbrio das contas externas (exportações - importações +/- remessas de emigrantes e imigrantes e movimentos de capitais).
Por outras palavras é preciso aumentar a produção nacional. Não vejo a esse respeito uma referência explícita, apenas a referência à "economia global". Também não vejo uma referência ao problema da «dívida» (pública, privada, externa e interna...).
Penso que vai ser necessário separar o trigo do jóio e os juros da dívida são um garrote para as políticas que queiramos seguir. Uma referência à «reconfiguração» (ou requalificação...) do Trabalho e do Emprego, também estaria bem.
Fico-me por aqui e cordiais saudações.

Anónimo disse...

Muitos Parabéns. Uma análise lúcida e desempoeirada. Eu diria que o PS se encontra numa encruzilhada e que por acaso é a mesma que o seu lider. Ou assume as rédeas do jogo e aceita as responsabilidades de governar o país. Ou o horizonte será negro. Quem votou ansioso de mudar de rumo e de politicas, não irá aceitar que o PS não tente formar um Governo com politicas alternativas. Como disse o António Costa e eu não quero acreditar.... Ou será que vamos ter uma invasão de marcianos?

Unknown disse...

Caro Pedro S...

Mais de 60% do eleitorado disse que rejeitava a política da direita apostando numa mudança à esquerda, distribuindo a sua escolha no espectro de partidos de esquerda, que na sua diversidade partilham de princípios basilares da III República: SNS, Escola Pública, Segurança Social, etc, etc. Princípios estes que lhes permitem criar uma solução de consenso à esquerda.

Acresce que todos estes partidos advogaram em maior ou menor grau, ou tom, pela rejeição da política de austeridade fanática da direita e acrítica aos dictates do directório: O Austericídio, que coloca precisamente em causa os princípios fundadores da III República!

Uma coisa é clara e cristalina, 60% do eleitorado reviu-se nesses programas que rejeitam esta direita e as suas políticas.

Já dizer que 85% votou contra o BE, 90% contra o PC e etc, ao contrário do enunciado acima, não coloca de todo em todo, nem pensar nisso, o voto na direita!

Lamentavelmente o seu argumento é fraco porque desprovido de lógica política e mesmo de lógica interna...

O que faz são apenas contas, um exercício que levado ao limite resultou em aberrações, curiosidades ou piadas, mas todas elas desprovidas do mínimo sentido político.

Quanto ao artigo, não posso estar mais de acordo com a opinião do autor.

Cumprimentos.

francisco t paiva disse...

Oxalá António Costa tenha esse golpe de asa.

Jaime Santos disse...

Sejamos claros, o que importa no fim de contas é a correlação de forças na AR, de onde emana o Governo. O resto, saber quem chegou em primeiro ou em segundo, é conversa que não tem sequer lugar na CRP. Se os Partidos de Esquerda apresentarem uma solução de Governo sólida, Cavaco terá que a aceitar. De outro modo, terá que ser a Coligação minoritária a governar, com a tolerância do PS na oposição. São estas as alternativas em jogo.

José Borges Pinto disse...

Mão amiga mandou-me este texto de Porfírio Silva.
Concordo.
os votos úteis do tal eleitorado flutuante voaram para o Bloco porque se cansaram de ser úteis à esquerda "para nada". Ficaram alguns (e quantos destes ficarão?) úteis ao centro que não são suficientes nem sequer pra ter mais votos que esta coligação liberal, provocadora.

Mas, a situação não é fácil, pois é necessário vencer todos os "velhos do restelo" e mesmo alguns protagonistas recém convertidos como Vital Moreira, personagem que ganhou protagonismo social porque foi deputado á constituinte pelo PCP, pois não se conhece obra científica que o imponha como Professor Universitário.
jose pinto

Porfirio Silva disse...

Só para dizer que não subscrevo o que é dito no comentário acima sobre o Prof. Vital Moreira. Discordo dele frequentemente, mas isso não é motivo para tentar diminuir um académico de valor, como mostra a sua carreira. Julgo que podemos debater as ideias (até violentamente, se for mesmo necessário) sem tentarmos atingir as pessoas de forma puramente subjectiva.

Pedro Rodrigues disse...

Apoiado, excelente interpretação do momento em que vivemos!