02/09/15

as esquerdas.



A sério que isto não é comentário a nenhum acontecimento específico... mas lembrei-me de insistir hoje em algo que disse há umas semanas em entrevista ao Diário de Notícias:

O que digo é que temos de nos concentrar no que verdadeiramente importa ao país. Uma questão essencial: o Estado social. Os outros partidos de esquerda dizem que se batem pelo Estado social - e ao mesmo tempo atacam o PS. Há qualquer coisa de bizarro nisto. Quem foi o principal obreiro do Serviço Nacional de Saúde? Quem foi o principal obreiro da escola pública para todos? Quem foi o principal obreiro da Segurança Social pública? Quem criou o rendimento mínimo garantido? Quem generalizou a educação pré-escolar? Quem criou uma política de ciência progressista em Portugal? É um bocadinho difícil de compreender que partidos que dizem defender o Estado social ao mesmo tempo ataquem mais o principal obreiro do Estado social do que os partidos da direita.

Continuo a pensar que esta questão é relevante. E hoje lembrei-me disto...

1 comentário:

Jaime Santos disse...

A primeira razão para a crítica que o BE e o PCP fazem ao PS tem simplesmente a ver com competição pelo mesmo eleitorado. O que o PS captar em voto útil da Esquerda é perdido pelo BE e pelo PCP, a não ser que vá buscar esses votos aos abstencionistas. A segunda razão tem a ver com pureza ideológica, que o PS como grande Partido Popular obviamente não tem. Os Partidos Populares (PS e PSD) são coligações de interesses, mas dos seus Eleitores. O PS capta votos do Centro-Esquerda Social-Liberal ou mesmo Social-Cristão (que pode também votar PSD) até ao eleitorado urbano do BE e mesmo o voto útil de eleitores do BE e do PCP (menos, creio). Para conquistar o Poder, o PS precisará sempre de traçar uma bissectriz a estes diferentes interesses, às vezes díspares. Note-se que a presença desse conflito se reflecte também nas lutas internas dentro do PS (ou do PSD), sobretudo quando está na Oposição. Isso é uma coisa que o BE e o PCP, que são ainda Partidos profundamente influenciados pelos seus dogmas identitários marxistas-leninistas, consideram como uma traição à classe trabalhadora. Repare-se que de facto nos últimos 20-30 anos na Europa, os Partidos de Centro-Esquerda abandonaram em parte os seus tradicionais apoiantes e viraram-se quase exclusivamente para o Eleitorado de Classe Média, e para o apoio de causas queridas a esse eleitorado (direitos das mulheres e das minorias, etc). Mas isto também tem a ver com a própria decadência do operariado especializado e do movimento sindical. É isso que uma pessoa como Alfredo Barroso também não é capaz de entender. Se o BE ou o PCP participassem numa coligação ou assinassem um acordo de incidência parlamentar, como partidos menos votados (o PS tem mais do dobro dos votos de ambos combinados), teriam que renunciar a uma parte das suas causas. Contestando um Governo Minoritário do PS, só votam naquilo que lhes dá jeito, sem ser obrigados a suportar o ónus dos inevitáveis erros de Governação. Claro, no final, esta mistura de oportunismo e dogmatismo ideológico acaba por fazer o jogo da Direita, mas arriscar não está na natureza do BE e muito menos do PCP, o que é amargamente irónico dada a sua origem pretensamente revolucionária. Ou seja, na verdade, estamos perante movimentos de natureza conservadora e nada radical (no sentido dos fundamentos).