15/05/15

José Freitas Ferraz sobre "Caderno de Tóquio".




“Caderno de Tóquio” livro recém-publicado de Porfírio Silva.

UMA SUGESTÃO DE JOSÉ FREITAS FERRAZ*

1. Tirando partido de uma estadia em Tóquio por motivos académicos, Porfírio Silva foi abordando ao sabor dos dias num diário irregular, tanto questões banais do quotidiano, como elementos chave da cultura do país, evitando – como o próprio nos diz – dar “uma imagem adocicada” do Japão vulgarmente transmitida pelos turistas que “tendem a olhar apenas para as coisas grandes” sem ver também “o outro lado (as pregas no tecido da vida em comum)”.


Observador atento, escreve sobre o que lhe desperta atenção, tentando racionalizar as suas vivências, arredando ideias feitas e dando-nos uma panorâmica sóbria e acutilante do Japão que pôde testemunhar.

Assim, de Maio ao final de Setembro de 2013, numa espécie de diário irregular, as experiências do dia a dia são o pretexto para nos falar e explicar temas tão diversos como os teatros No, e Kyogen, a complexidade das marionetas Bunraku, os arranjos florais Ikebani, a manga , o desenvolvimento paralelo dos cultos budista e xintoísta, focando igualmente o motivo da sua estadia no Japão, isto é, a dimensão filosófica do desenvolvimento da robótica, através do relato de conversas com os expoentes dessa ciência no país.


2. Sempre com a preocupação de colocar os seus encontros e observações num contexto mais lato e pedagógico, foca igualmente as diferenças que qualquer estrangeiro nota nos primeiros dias duma estadia no Japão: a cortesia, a subtileza e o civismo. Tudo decorre da secular interiorização de que ninguém é mais importante do que o grupo e de que qualquer erro praticado se repercutirá manchando negativamente o núcleo familiar mais próximo. Talvez por isso, o Japão continua a ser dos países com mais baixas taxas de criminalidade, onde é comum não se fechar a porta de casa à chave, sendo normal as mulheres deixarem a carteira com dinheiro e documentos para marcar o lugar num espaço público, enquanto fazem outra coisa; ou, ainda, como foi amplamente divulgado, onde a população entregou em poucos meses à polícia o equivalente a 48 milhões de USD em dinheiro vivo encontrados nos escombros das casas destruídas pelo sismo e maremoto de Março de 2011.

Tal como é referido ao longo do livro, a cortesia é uma constante nos relacionamentos pessoais no Japão e esta característica, decorre de apenas 17% do território – sete vezes maior que Portugal – ser habitável, o que levou os indivíduos, ao longo dos séculos, a depender totalmente do grupo a que pertenciam, não havendo grandes probabilidades de sobrevivência fora da comunidade. Acresce que o isolamento do arquipélago reforçou essas características. Por isso mesmo, desde crianças os japoneses são ensinados a funcionar em comunidade, assimilando o conceito de que ninguém é mais importante do que o grupo (“prego cuja cabeça sobressai leva uma martelada”, como sabiamente refere um popular ditado local).

3. As grandes rupturas no desenvolvimento do Japão, tiveram lugar por influência estrangeira: a primeira com a chegada dos portugueses em 1543 que daria lugar a quase um século de transferências tecnológicas, incluindo as armas de fogo – que permitiriam a unificação do país – mas igualmente a medicina ocidental, a cirurgia, novas técnicas de pintura e as mais modernas técnicas de navegação.

Como reação ao sucesso do proselitismo cristão fomentado pelos missionários portugueses, em 1635 o shogun Tokugawa faz aprovar um Édito proibindo os contactos com o exterior. Essa quarentena só terminaria mais de 200 anos depois quando a frota do Comodoro Perry impõe, em 1863, a abertura do país ao comércio internacional.

De forma indireta, a civilização e a cultura chinesa influenciaram o desenvolvimento do Japão durante mais de um milénio, dando lugar a uma cultura própria. Com a abertura forçada do país ao mundo na segunda metade do século XIX, os japoneses apostaram, em plena revolução Meiji, que a única solução para evitar tornarem-se numa colónia do Ocidente era o desenvolvimento económico rápido, de par com a industrialização. Escassos 25 anos após a chegada de Perry, o Japão já dispunha de uma marinha de guerra com capacidade para influenciar os desenvolvimentos na região; 8 anos depois derrotavam as forças imperiais russas numa série de batalhas em 1904-1905, isto é, em apenas três décadas, o Japão tinha passado do feudalismo a uma sociedade industrial moderna, desenvolvendo as indústrias pesadas e tirando partido da capacidade inata de trabalhar em grupo.

A “revolução Meiji”, marcou a ocidentalização rápida do Japão conceptualmente definida por um artigo célebre de um dos seus teóricos, sob o sugestivo título “deixando a Ásia” , que o pós-guerra e a ocupação americana não deixaram de reforçar.

4. Ao longo do presente texto, o autor refere diversas vezes a presença da modernidade de par com a tradição: o centenário templo ao lado do arranha-céus, mulheres de quimono no bulício das grandes cidades, a grande afluência de público aos teatros Noh, o culto dos antepassados nas ultramodernas metrópoles japonesas: um país onde a simbiose entre o passado e o presente se impõe aos olhos do viajante.

Este livro baseia-se num olhar atento e contextualizado que não pretende ditar chaves de leitura, constituindo antes uma abordagem de diversos temas analisados em diferentes perspectivas, ao longo da encontros ocasionais proporcionados por uma estadia de quase seis meses no Japão.

O equilíbrio entre acontecimentos banais caldeados por explicações eruditas tornam esta obra num testemunho relevante para entender o Japão contemporâneo: lê-se de uma assentada e com gosto, abrindo novas pistas para quem nunca visitou, ou conhece apenas superficialmente o Japão.

Neste contexto, convém não esquecer o interesse, curiosidade – quase ternura – que os japoneses têm por Portugal, sabendo todos o papel que tivemos para a modernização do país nos séculos XVI e XVII e que o crescente interesse pela Europa manifestado nos últimos anos só veio avolumar.



*Embaixador


(Daqui)


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