23/03/15

não há desenvolvimento sem sociedade decente.


(Fotografia por Miguel Manso, no Público.)

O Público deu à estampa ontem uma entrevista comigo. Está disponível em formato digital. Deixo apenas três pequenos excertos.

*

Qual é o calendário?

O cenário macroeconómico será divulgado no fim deste mês. No princípio de Junho, haverá programa. Já têm sido avançadas propostas do PS em várias áreas: investimento, pobreza infantil, planeamento, descentralização. É óbvio que as pessoas querem saber o pacote global, os compromissos, designadamente em finanças públicas. Mas uma coisa é o querermos ser exactos, outra é o objectivo. Quanto ao objectivo, há uma coisa clara para o PS: não há desenvolvimento sem sociedade decente.

Decente?
Sim. Não podemos pensar só em termos dos resultados económicos, temos de pensar na dignidade das pessoas — por exemplo, podemos discutir se em situação de desemprego é melhor ter ou não salário mínimo, se é melhor ele ser mais alto ou mais baixo. Mas, quando 10% das pessoas com emprego estão em situação de risco de pobreza, não podemos pensar no salário mínimo apenas como uma questão económica, temos de pensar em termos de dignidade do trabalho. O mesmo com a precariedade. Um trabalhador mais firme no seu emprego tem mais capacidade para dar mais de si à empresa. Mas também é uma questão de dignidade. A incerteza permanente mina a vida das pessoas. Temos de trabalhar para mais igualdade de oportunidades, menos desigualdade excessiva, para mais autonomia das pessoas e não mais submissão a poderes económicos ou políticos. A dignidade não se negoceia.

*

Mas como é que o PS prepara uma alternativa? Os gregos não estão a conseguir.
Essa ideia de que a política de austeridade é a única que é possível dentro da União Europeia é uma tese muito curiosa — porque ao mesmo tempo é a tese de uma certa direita que diz que a austeridade é que é boa e não se pode fazer outra coisa; e é a tese de uma certa esquerda que diz que na Europa só conseguimos fazer política de austeridade. Há outras forças que dizem não, não há só austeridade. Na realidade, há duas maneiras de estar na União Europeia que não dão resultado.

Uma delas é a do Governo grego?
Uma delas é a política da submissão, que é a do actual Governo português e que se resume a que alguém disse o que temos de fazer e nós vamos fazer e tentar ser os bons alunos —o que significa que prescindimos da nossa voz na União Europeia. E depois há a via da proclamação e depois logo se vê, que num certo sentido é aquilo que está a acontecer com a Grécia.

Como vê a situação na Grécia?

O que aconteceu na Grécia tem um aspecto positivo e outro que merece mais reflexão. Há um povo que expressa a recusa de um tipo de política que estava a ser seguida. É preciso voltar a afirmar que os povos têm direito a fazer escolhas democráticas, dizer: "Nós não queremos este Governo, queremos outro e temos de mudar de política." A ideia de que a política vale a pena, de que o voto pode mudar é um aspecto positivo do que aconteceu na Grécia.

E o negativo?
Creio que o Governo grego tem vontade de encetar um diálogo produtivo com a Europa. Agora, na verdade, o Governo grego não respeitou um aspecto que é central na política europeia, que é perceber que há vários níveis de negociação e que a propositura tem de ser acompanhada com a negociação. O vosso jornal trouxe uma entrevista com o professor Stuart Holland, que lembrava que o engenheiro Guterres, quando era primeiro-ministro, tinha uma técnica de convencer Kohl, o então chanceler alemão, de como certas posições que Portugal defendia eram perfeitamente compagináveis com os interesses da Alemanha. É quase um mito europeu e aconteceu várias vezes o engenheiro Guterres chegar isolado aos conselhos europeus com toda a gente contra a sua posição e no fim dos conselhos estava toda a gente de acordo com o que ele tinha defendido.

*

Defende as alianças à esquerda. É contra o Bloco Central?

Penso que o PS não pode envolver-se em qualquer coisa que pareça conciliação com esta política ou com este Governo. Isso seria inaceitável. Os partidos existem para oferecer alternativas. Nós queremos uma política completamente diferente, queremos reverter o retrocesso social em curso. Isso implica pedir condições para mudar de política. Com o Presidente da República e com as atitudes que tem tido, é importante que o próximo governo seja determinado pelo voto dos portugueses e não pelas preferências ou pelas interpretações do Presidente. É muito importante que das eleições saia uma maioria que permita ao PS decidir a sua forma de governo. O PS quer ter uma maioria absoluta, e nós acreditamos que isso nos permitirá ter compromissos com outros partidos.

Mas não com o PSD?

As revisões constitucionais sempre foram feitas pelo PS e pelo PSD, e eu não renego isso. Até porque, se o quadro for este, continua a não haver uma maioria constitucional alternativa. Nós não queremos instalar a ruptura no país. Mas para que as pessoas percebam que isto não é tudo a mesma coisa, é preciso uma alternativa.

(Na íntegra aqui.)


2 comentários:

Anónimo disse...

Típico PS.

Quer políticas que dependem completamente da vontade dos outros apresentando-as como se fossem suas. O SYRIZA faz o que o PS nunca faria, combate de frente o poder instalado da UE, aquele com que o PS quer contar para contrariar a austeridade.

Vê-se que o SYRIZA está a ter dificuldades porque o poder instalado e dominante na UE é muito forte. Mas ao menos está no combate.

O PS quer o que o SYRIZA está a lutar mas não quer lutar, quer no colo. O PS é uma treta, todas as suas grandes ideias não dependem de Portugal, dependem de uma alteração de quadro e tendência na UE.

Não contem com o PS para combates como os do SYRIZA.

Um voto da esquerda no PS é um voto de esquerda desperdiçado.

João.

Porfirio Silva disse...

João,

Parece-me que está com receio de qualquer coisa. Não tenha receio, João, e, em vez de chavões, argumente com calma que a malta ouve. Certo, João?

Boa tarde, sim?