08/02/15

também na Europa, os políticos não são todos iguais.



Houve um tempo em que os governantes portugueses conheciam a necessidade de negociar na Europa para defender os interesses do país. E não faltarão diplomatas competentes para isso se tiverem mandato para tal.

Excerto da entrevista de Stuart Holland, hoje no Público:


Público: Depois, tornou-se num conselheiro externo de Guterres?

Stuart Holland: Sim. Eu só conheci Guterres quando ele foi eleito primeiro-ministro, mas a recomendação para que nos encontrássemos partiu de Jorge Sampaio, que eu conheço desde os anos 70. Os meus conselhos beneficiaram de trabalhar com o primeiro-ministro um assessor [diplomático] excepcional, o embaixador José Freitas Ferraz. Costumava ligar-me sempre, antes dos Conselhos Europeus, pedindo-me sugestões. Havia muitas, que Delors não conseguiu levar adiante. Aconselhei Guterres que devíamos clarificar o âmbito do BEI, que era vago, “o interesse geral da Europa”, para que investisse em projectos relacionados com Saúde, Educação, reconversão urbana, novas tecnologias e Ambiente. Tudo são áreas sociais, semelhantes às do New Deal de Roosevelt. Freitas Ferraz disse-me: “Stuart, renovação urbana… Nós vivemos em sociedades urbanas. Isso pode significar qualquer coisa, não é?” Era precisamente o que eu queria dizer [risos]. Exactamente, respondi. Nesta questão demorou três reuniões do Conselho para ganhar. Helmut Kohl [ex-chanceler alemão], opunha-se. Dizia que os contribuintes alemães já pagavam demais. Ou seja, não percebia que um título do BEI não seria pago pelos contribuintes alemães, e não precisa de transferências orçamentais da Alemanha. Freitas Ferraz sugeriu que devíamos escrever um memorando para Kohl. Eu sei algum alemão, mas não me atrevi. Escrevi em inglês e pedi para traduzirem. “Caro chanceler, aproxima-se o conselho de Amsterdão [Junho de 1997] e, sem dúvida, o primeiro-ministro português vai, mais uma vez, levantar a questão dos investimentos do BEI…” Kohl aceitou.


2 comentários:

Anónimo disse...

Também não se pode dizer exactamente que Guterres tenha defendido os interesses portugueses.

Com aquilo do euro bem nos meteu numa camisa não de 11 mas de mil varas, como as virgens.

Pode ter sido mais por burrice e alheamento do que por aviso interno dos muitos que, afastados da opinião respeitosamente publicada, como Ferreira do Amaral ou o PCP, bem o quiseram avisar. Mas que nos tramou para várias décadas lá isso tramou.

Porfirio Silva disse...

Sim, há quem pense que o melhor era sermos periféricos. Julgo que talvez alguém já tenha feito as contas ao custo de termos ficado com o escudo. Talvez se possa perguntar o que acham disso os muitos milhares de portugueses e empresas que, por exemplo, tiveram acesso a crédito barato por causa do euro. Por exemplo, os que compraram casa própria aproveitando essa onda. É que reconhecer os problemas não equivale a fantasiar que tudo teria sido bom se tivessemos ficado de fora.