05/02/15

Com a Grécia, ressuscitar o método comunitário.




O novo governo da Grécia fez regressar à Europa os bons velhos tempos do método comunitário. Não no sentido estritamente institucional, com a Comissão Europeia a propor em nome do interesse comum da União, o Conselho de ministros a pesar as diferentes interpretações nacionais do bem comum, o Parlamento Europeu a fazer de representante directo do soberano. Mas "regresso ao método comunitário" num sentido mais amplo: o método da proposta e contraproposta, do escrutínio das alternativas, da negociação dura, do debate público a acompanhar o processo político nas instituições, do compromisso com cedências mútuas. E digo "fez regressar à Europa" porque a União Europeia é o único espaço onde isso é possível.
Alguns parecem chocados porque a Grécia fala grosso. Outros sentem-se ultrajados porque a Alemanha não recebe hoje de braços abertos o que nunca quis. Esquecem-se que o eleitorado alemão e o eleitorado grego têm, ambos, como os demais, direito a ter as suas opções próprias. O BCE faz-se duro e alguns profetizam o dilúvio. Varoufakis modula as suas propostas e levanta-se um coro de vozes "cedeu! cedeu!". Será assim tão difícil perceber que a Europa só pode ser democrática se funcionar assim? Se houver debate, propostas e contrapropostas, alguma esgrima onde os interesses parcialmente coincidentes e parcialmente divergentes possam ser equacionados? Sim, também pressão, até chantagem: haverá negociações cruciais que não tenham esses ingredientes, já que estamos no mundo real?
As mentalidades autoritárias sempre acharam terrível que as divergências sejam assumidas para que possam depois ser resolvidas. As mentalidades pré-democráticas preferem que alguns príncipes se reúnam em salas discretas a compor narrativas suaves que depois se vendam aos povos. Os herdeiros do corporativismo pensam a política como expressão da unicidade orgânica, contrariamente à pura realidade de que só há democracia assumindo a pluralidade. Assumindo que o todo é composto de partes diferentes, que o acordo é uma composição mais ou menos sábia de desacordos vários evoluindo dinamicamente no tempo.
A Grécia volta a dar-nos lições de democracia, uma coisa em que são bons há milénios. É claro que, também há milénios, a Grécia ensina-nos o melhor e o pior. Daí que a lição grega seja: a última lição está sempre por chegar. De cada vez chega quando nos dispomos a aprender com a realidade, em lugar de nos fecharmos nas altas torres das ideologias rígidas.


[Na imagem, Porfírio Silva no papel de "sombra de Sócrates", no espectáculo "Ilusão", encenado por Luis Miguel Cintra, Cornucópia, 2014]

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