21/01/15

filósofos, robôs e crianças.

Muitas pessoas estranham, quando ouvem falar pela primeira vez, que eu, tendo uma formação em filosofia e sendo doutorado em Filosofia da Ciência, tenha optado (vai para uma dezena de anos) por me integrar em equipas de robótica para desenvolver a minha investigação. Por estranho que pareça - e isso diz muito sobre muitas coisas - até aconteceu nos últimos meses o seguinte episódio. Durante o mais recente processo de avaliação das unidades de investigação científica em Portugal, um avaliador, ciente de que estava a visitar um laboratório integrado num campus "de engenheiros" e uma instituição povoada de cientistas da computação e áreas afins, manifestou grande espanto quando foi informado de que tinham um filósofo como colaborador. O excelentíssimo avaliador parece que não conseguia entender para que serviria tal colaboração. De facto, a multidisciplinaridade é um chavão que poucos entendem realmente e quase ninguém pratica.

Mas, como isto são contas de outro rosário, hoje venho por assunto mais concreto. Aproveitando o meu histórico de investigação sobre "sociedades de humanos e robôs", no seio do Instituto de Sistemas e Robótica (no Técnico), tornei-me um modesto colaborador do projecto MOnarCH – Sistemas Cognitivos com Múltiplos Robôs para Operação em Hospitais.

O projecto MOnarCH centra-se na Robótica social usando robôs e sistemas de sensores interligados em rede para interacção com crianças, através de actividades educativas e de entretenimento, na enfermaria pediátrica do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPOL). Para além de ser um cenário realista, o IPOL possui uma regulamentação de aspectos éticos, que introduz restrições importantes quanto ao uso de algumas tecnologias de eleição na Robótica. Estas restrições colocam desafios importantes no planeamento e desenvolvimento do projecto mas, no geral, o cenário no IPOL permite limitar as interacções sociais entre seres humanos e robots por forma a serem implementáveis com tecnologias actualmente existentes.

É claro que a construção efectiva e a concepção concreta destas máquinas não resulta em nada das minhas competências. Como de costume, a minha participação consiste, modestamente, em ajudar a analisar as questões relativas à entrada de máquinas na vida social dos humanos. Uso para isso, como tenho vindo a fazer há anos, a inspiração nas instituições humanas que tanto me dão que pensar.

Posta esta longa introdução, hoje vinha só, com grande contentamento, mostrar-vos um vídeo de um dos robôs que vão entrar na vida das crianças no IPO de Lisboa. O desafio técnico e tecnológico é grande mas, claramente, é maior e mais significativo o desafio de fazer tudo em grande respeito pelas pessoas, em particular pelas crianças que naquele ambiente passam momento difíceis das suas vidas - vidas que o projecto quer melhorar, não perturbar.

O vídeo é da Exame Informática e está aqui. Acedem a informação mais completa sobre o projecto MOnarCH aqui.

video

1 comentário:

Rosalvo disse...

No Expresso Curto de hoje vem citado este artigo
http://www.theatlantic.com/technology/archive/2015/01/why-cant-robots-understand-sarcasm/384714/
sobre robôs. Voltei a lembrar-me da falta que faz um sinal gráfico "ponto de ironia" para usar como os de interrogação e de exclamação. Por exemplo, se eu lhe sugerisse que o PS comprasse 44 edredões (ou vá lá 50, para arredondar) e os oferecesse ao EP de Évora, como saber se estava a brincar ou a falar a sério?