03/11/14

olhó piropo lindo.



Quando alguém tenta enfrentar certos problemas que nascem de "tradições impensadas", há sempre um coro a dizer que não há problema nenhum. Ou, alternativamente, a investir toda a energia em ver os problemas de resolver o problema e a investir energia nenhuma em resolver o problema propriamente dito.
Vivemos num país onde, como em muitos outros países, a gravidade da violência exercida sobre as mulheres é elevadíssima. Aqui, como em muitos outros sítios - e agarrem-se agora às cadeiras, porque isto vai enfurecer-vos - há um elo fundamental a ligar os que batem e os que matam aos aparentemente meros parolos que se limitam a dizer alarvidades de cariz sexual às mulheres que passam na rua. O elo fundamental é tão apenas este: há quem ache que tem direitos sobre outras pessoas. Na esmagadora maioria dos casos, as vítimas dessa pretensão são mulheres. E a crença que muitos machos têm nesse direito que julgam seu, pode produzir um piropo ou produzir uma agressão. E, hoje que conhecemos o que se passa, não se pode desculpar que, quando se trata de perseguir o assédio de rua, alguém venha dizer "ai, agora querem impedir-nos de dizer coisas bonitas às senhoras".
Há quem esteja a investir esforço em produzir legislação inteligente sobre o assunto. Admiro aqueles que fazem esse esforço, mesmo que tenham ou pareçam ter posições divergentes quanto à técnica ou quanto à abordagem. Não me meto por esse caminho, porque não tenho a preparação jurídica necessária, e tenciono não me colocar na posição de julgar este ou aquela. Mas tenho um profundo desprezo pelas tentativas de desvalorização da questão e abomino os floreados retóricos destinados (ou condenados) a espalhar fumo de camuflagem sobre o problema real.
Tudo o que seja exercer um poder ilegítmo sobre outra pessoa é dominação. É opressão. Fere a dignidade humana. Por palavras ou actos. Todos sabemos "how to do things with words". O mal feito com palavras é da mesma massa que o mal feito com as mãos. Ou com a faca.

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