25/11/14

Não lhes daremos esse gosto.



1.O que se passou nos últimos quatro dias em torno de José Sócrates não muda nada do que foi escrito ao longo dos últimos mais de sete anos neste blogue. Não apago nada, não escondo nada, não me arrependo de nada.

2. Estou dorido, estou preocupado. E não compreendo que alguém com um módico de razoabilidade possa estar feliz pelos últimos acontecimentos. Mesmo aqueles que considerem Sócrates culpado por todos os erros políticos cometidos em Portugal nos últimos anos, se a sua verdadeira preocupação é com o país, só poderiam estar, também, no mínimo, preocupados. É o que se pode esperar de qualquer, digamos, patriota. Ou será que já não se usa ser patriota? Claro que, ao incluir a cláusula de razoabilidade, estou a excluir todos os que se movem por ódio. E vê-se, lê-se por aí, que muitos é por ódios vários que se movem. Mas a democracia deverá ser mais forte do que os ódios. E sê-lo-á.

3. E cada um de nós terá de saber ser mais forte do que os ódios - até não deixando que o ódio mande em nós. Imodestamente, não é recomendação que eu julgue necessária para mim mesmo, que sempre combati o ódio como pulsão política, mas é um voto para os meus: os meus amigos e os meus camaradas. O ódio é um perigoso cavalo de Tróia.

4. Estou dorido e preocupado, mas não entrei em modo de desistência. Nem de resignação. A democracia precisa do Partido Socialista, precisa da alternativa que o PS vai construir. O PS tem uma longa história e aprendeu sempre: com as suas vitórias, com as suas derrotas, com os contributos decisivos que deu ao país, com os erros que também cometeu - e até com os erros de outros de que o PS foi vítima. Mas o PS não quer ser vítima, o PS não tem vocação para vítima, o PS não vai aceitar ser vítima. O PS tem, pois, de concentrar-se no país, na alternativa, por respeito e dever para com aqueles cujas vidas foram desbaratas por estes anos de empobrecimento, de incerteza, até de medo. O PS não pode deixar de estar vigilante em todas as direcções. Também sobre o funcionamento da justiça, não apenas por circunstâncias particulares nossas, mas pelo país: porque o funcionamento da justiça pode engrandecer, mas também pode envilecer a nossa democracia. Na medida em que a justiça é uma trave mestra de uma democracia real, essa questão política não poderá ser esquecida em momento algum. O que não vamos é tornar-nos um partido de um tema único. O PS não falhará ao país. O PS não pode cair na armadilha dos que esperam aproveitar o impulso dos processos judiciais para se manterem no poder. E esses esperam que o PS caia na armadilha da nossa dor. Não lhes daremos esse gosto. O PS será o resultado agregado das nossas forças e dos nossos ideais, não um aglomerado de dores. Não desistimos do país, não desistimos das pessoas - porque estamos cansados dos que descaradamente apregoam que o país pode estar melhor embora as pessoas não o estejam. Saibamos, ainda e outra vez, cumprir a nossa parte.

5. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.

25 de Novembro de 2014
Porfírio Silva

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