13/09/14

Surpresas nas primárias do PS.


Reproduzo artigo que publiquei no jornal "i" na primeira semana de Setembro.



SURPRESAS NAS PRIMÁRIAS DO PS


As próprias primárias são uma surpresa: A. J. Seguro, que as combatera porque elas seriam “reconhecer que o partido não funciona”, matavam o debate político interno e desqualificavam os militantes – converteu-se subitamente. Por razões particulares (para resolver um problema interno, como explicou na TV), o que é pena.

É uma surpresa a moção que AJS apresenta às primárias. Não tanto por serem 5 páginas e meia, vagas, mas por serem umas Grandes Opções de Governo na primeira pessoa do singular: Eu penso, Eu faço. Um estilo de soberania estranho à tradição de um partido republicano da esquerda democrática.

É uma surpresa que, para suprir a magreza da moção, AJS diga que o Contrato de Confiança e as famosas “80 medidas”, apresentadas antes em nome do PS, fazem agora parte da sua proposta: apropriar-se, como candidato, do património do partido, e dos contributos de muita gente que não foi ouvida nessa apropriação, é inédito. E denota um vício que corrói a democracia: a confusão entre as instituições e os agentes individuais. A visão de Hobbes acerca do corpo político foi assimilada com demasiada pressa.

É uma surpresa que AJS tenha feito convocar primárias, que só podem fazer sentido se refrescarem a nossa democracia, e (des)aproveite a ocasião apresentando como base do programa de um governo do PS um documento divulgado antes das passadas eleições europeias. Em tempos de incerteza, por exemplo no contexto europeu (nova Comissão Europeia, novo Parlamento Europeu, avolumar do perigo de deflação agigantado pelos dados mais recentes), o mundo avança e nós paramos com a desculpa de uma retórica de “coerência”?

É uma surpresa que AJS insista na excelência das tais 80 medidas como base de uma futura governação: a par de propostas válidas, lemos lá puras vacuidades. Exemplo: as últimas 5 são, supostamente, as "opções geoestratégicas" para Portugal. Mas o que lá se diz é mais ou menos isto: somos membros da ONU, da UE e do Euro, da CPLP e da NATO, somos um país aberto ao mundo. Que “medidas” são estas? Numa só frase, sobre a lusofonia, diz mais a moção de António Costa quanto à política externa de Portugal, quando propõe a carta de cidadania lusófona e avança com o seu conteúdo. Atente-se o estado a que chegámos na CPLP e logo percebemos a importância da questão.

É uma surpresa que as 80 medidas passem quase em silêncio questões tão relevantes como a precariedade no trabalho ou a contratação coletiva. Nenhuma menciona sequer a precariedade no mercado de trabalho. Já a moção de António Costa explica com detalhe as medidas de combate decisivo à precariedade. Nas 80 medidas, a contratação coletiva é mencionada apenas no sexto item da Medida 33: «Valorização da contratação coletiva, como quadro adequado para a promoção da melhoria da produtividade nos diferentes setores.» Então, mas esse instrumento só importa para promover a produtividade? Não, a contratação coletiva é a forma de transformar uma relação de poder, à partida desfavorável ao trabalho, numa relação mais equilibrada, onde as partes podem falar de igual para igual. A moção de António Costa assume a centralidade da questão e é bastante específica sobre o que há a fazer para que a negociação coletiva sectorial atraia tanto os empresários de progresso como os trabalhadores.

Sem surpresa nenhuma, os que clamam “traição” e “deslealdade” contra os que discordam dirão que este texto é um ataque pessoal. Não é: é um ataque político. Um ataque político contra os que põem os calendários partidários à frente das urgências do país. Contra os que são mais vigorosos a discordar dos camaradas do que a discordar do governo. Convido à leitura integral das duas moções apresentadas às Primárias do PS. Confio no juízo daí resultante. Além disso, Costa e Seguro foram ambos ministros pela primeira vez nos governos de Guterres. Se compararmos o que cada um fez desde então, e como o fez, talvez, afinal nada disto seja uma surpresa.

(Publicado aqui.)

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