A BICA FECHOU
Há 7 horas
«At a Guardian event last June in which he [António Guterres] debated with rivals for the secretary general job, he said her [his first wife] psychoanalytical insights were highly valuable. “She taught me something that was extremely useful for all my political activities. When two people are together, they are not two but six. What each one is, what each one thinks he or she is and what each one thinks the other is,” he said.»
The Guardian, 1/1/2017
É fundamental relançar a negociação coletiva por contraponto à política sistemática de desvalorização e desgaste a que esta tem sido submetida. Em poucos anos, o número de trabalhadores cobertos por instrumentos coletivos de negociação coletiva diminuiu drasticamente. Será necessário atuar no curto prazo, em articulação com os parceiros sociais, para reverter a situação de rutura da contratação coletiva provocada por uma instabilidade da legislação laboral e por uma despromoção da negociação coletiva através de normas imperativas.
É preciso combinar a lógica de extensão da contratação coletiva através de portarias com uma efetiva promoção da expansão da negociação coletiva em articulação com os parceiros sociais, incentivando ativamente a implementação de estratégias negociais de ganhos para todas as partes.
A dinamização da negociação setorial (em certas condições combinada com negociação ao nível das empresas) é importante como quadro de melhor proteção para mais trabalhadores. Mas ela é importante também para as empresas, na medida em que contraria a competição baseada no dumping social, a qual penaliza principalmente as empresas com boas práticas de gestão dos recursos humanos e com sentido de responsabilidade social. A definição de normas setoriais pode reduzir a conflitualidade ao nível da empresa sobre salários e condições de trabalho, permitindo que as empresas centrem os seus esforços na perspetiva de promover a flexibilidade interna, isto é, na melhoria da organização do trabalho e da qualificação dos recursos humanos, como fatores- chave de competitividade e produtividade. Há, ainda, que ter em conta que a negociação setorial constitui um método de coordenação que pode prevenir a depressão salarial e a deflação e, por essa via, favorecer a procura interna indispensável ao crescimento económico.
A tendência de precarização do mercado de trabalho não é nova, mas acentuou-se fortemente nos últimos três anos, em especial entre os jovens, estando em crescendo também noutras gerações de trabalhadores.
As chamadas formas atípicas de trabalho (dos contratos a termo e por via de agências de trabalho temporário, ao abuso dos estágios e do trabalho independente) são instrumentos de flexibilidade que podem, no entanto, ser lesivos do bem-estar e dos projetos de vida individuais e familiares. E, também, das finanças públicas, pela sobrecarga que representam para a proteção social devido às transições mais frequentes para períodos de desemprego. Acresce que o trabalho formalmente independente (“recibos verdes”), além de implicar uma situação de desproteção relativa de quem se encontra nessa situação, corresponde não raramente a situações de trabalho dependente mascarado.
As mudanças das leis laborais nos últimos anos, que aproximaram Portugal da média europeia no que toca ao indicador da Legislação de Proteção do Emprego da OCDE, diminuíram, e muito, a rigidez da nossa legislação, incluindo nos custos de despedimento. Torna-se, por isso, ainda mais desaconselhável o uso sistemático de formas precárias de contratação. É ainda mais inaceitável e injustificável o recurso fraudulento a trabalho independente quando estamos perante verdadeiros postos de trabalho, que têm de ser reconhecidos como tal.
Neste sentido, é fundamental traçar prioridades políticas claras para uma regulação do mercado de trabalho equilibrada e modernizadora:
- Tornar menos atrativo para os empregadores, nomeadamente via diferenciação da TSU, o recurso às formas precárias de trabalho, por comparação com as formas mais estáveis, encarecendo as primeiras e bonificando as segundas (como aliás chegou a ser acordado em concertação social, com efeito financeiro neutro no sistema de segurança social, tendo o atual governo “rasgado” o acordo).
- Avançar para uma revisão da legislação laboral, de forma negociada com os parceiros sociais, de modo a tornar mais expedito o combate à precariedade ilegal, por exemplo afinando os mecanismos legais de verificação da dependência nas relações de trabalho e de agilização do seu reconhecimento.
- Introduzir nas regras de contratação pública e de acesso aos apoios públicos a apresentação por parte das empresas de garantias de verificação da conformidade com os princípios da legislação laboral em vigor.
Do ponto de vista da regulação do mercado de trabalho, a existência de regras equilibradas, estáveis e reconhecidas por todos é essencial. E é também fundamental, como em qualquer mercado, que as regras sejam efetivamente cumpridas, quer pelos agentes empresariais, quer pelos trabalhadores, o que requer o reforço dos meios inspetivos existentes, aproximando Portugal do rácio recomendado pela OIT.
Junto-me ao grupo de colegas, amigos e espectadores que, contra a decisão da Reitoria da Universidade de Lisboa, sem qualquer espécie de hesitação, apoiam a permanência dos Artistas Unidos no Teatro da Politécnica, e se escandalizam se esse Grupo de Teatro se vir forçado a abandonar aquele espaço.
Nem outra coisa seria de esperar de mim, ainda à frente da companhia do Teatro da Cornucópia, desde há muito com Cristina Reis, mas que foi fundada em 1973 com o fundador e director dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo. Creio que ambos temos a noção de que o trabalho que cada um de nós tem desenvolvido ao longo da vida à frente de cada uma das companhias, com as desejáveis e conhecidas divergências estéticas que as separam, assenta sobre critérios semelhantes e que elas se completam na função que têm exercido no teatro português. E será por certo com alguma curiosidade que tomarei conhecimento da descoberta pela Universidade de Lisboa de um melhor destino, de um ponto de vista cultural, para aquele simpático espaço a que os Artistas têm conseguido dar vida.
Só posso admitir que quem decidir, agirá dentro da legalidade, mas sei que, como infelizmente se vai tornando regra, cada vez mais se confunde legalidade com liberdade. Se a decisão for no sentido de se impedir que os Artistas lá continuem a trabalhar, será mais um acto de vandalismo da parte de uma sociedade que deixou de acreditar em seja o que for, e sobretudo naquilo que mais a humanizaria: uma prática cultural que tem vindo a formar gerações e a generosamente contribuir para uma responsabilização pública. Aqui fica a minha solidariedade.
Luis Miguel Cintra