15/06/14

O combate no PS é um combate pela democracia.


O combate no PS é um combate pela democracia em Portugal. Não podemos gritar "ai, que vem aí o populismo!" e depois dar armas e bagagens ao populismo contra o qual se brama.

Quais são, na essência, as armas do populismo? Primeira, propalar falsas soluções fáceis e rápidas para problemas que só têm saídas complexas, demoradas e delicadas. Segunda, apontar para o manobrismo e o tacticismo da política, dados como prova de que os representantes não se interessam pela realidade, mas apenas pela suas vidinhas de políticos.

É por isso que, se continuar a prevalecer no PS a actual tentativa para centrar a batalha na ideia de que um chefe, para ser chefe, é inamovível, em lugar de se discutir o que está em causa no país e a melhor forma de o PS assumir as suas responsabilidades - quem assim procede estará a alimentar a campanha surda do populismo contra a política. E isso seria renegar o essencial da história do PS. O PS pode não ter implantado o socialismo neste jardim à beira-mar, mas foi sempre um esteio da democracia. O PS não pode tornar-se hoje numa acha para a fogueira desse inimigo mudo da democracia que é o populismo vago e difuso que, mesmo quando toma um rosto, anda por aí anónimo nos pequenos e grandes desesperos da vida de todos os dias. Um dirigente partidário que reage aos desafios com a ideia "querem tirar-me o lugar" está a dizer às pessoas: "estou aqui para salvar a minha pele, o meu lugar no mundo é a minha prioridade". E é dessas mensagens passadas pelos políticos que se alimentam os populismos.

Até acredito que AJS queira dar o seu melhor ao país; até posso admitir que, tendo-se esforçado, merecia melhor sorte. E defendo, sem qualquer cinismo, que era preciso encontrar maneira de todos sairem deste combate dignamente: o PS não devia triturar o seu SG, nem este grupo actualmente na direcção, porque a grandeza do PS é a sua pluralidade. Mas é preciso que ele deixe...

Por isto digo que o combate no PS é um combate pela democracia. Pela qualidade da democracia, contra o populismo, contra o sectarismo. Um combate que o PS não pode perder, que a democracia não pode perder. E esse é um ponto prévio a qualquer outra escolha, de pessoas ou de projectos.

3 comentários:

Rosalvo disse...

Excelente posição! Felicito-o enquanto pessoa sem partido mas muito interessado num bom desfecho do combate pela liderança do PS. O que diz devia entrar pelo olhos dentro tanto de seguristas como de costistas, embora perceba quem está a resvalar mais para o populismo. Seria capaz de apostar que Seguro nunca leu o seu "divertimento" sobre os sinais de trânsito...

Jaime Santos disse...

Seguro vê o desafio de Costa como uma deslealdade intolerável, até porque ele e os seus fiéis não encaixaram a ideia que na prática o resultado de 25 de Maio representou uma derrota profunda da sua linha política. E mais o foi porque Seguro quis transformar a campanha das Europeias numa espécie de preparação para as legislativas, com a apresentação das 80 medidas (ou lá quantas foram) e o eleitorado ignorou-o (e muito bem, o que se deveria era ter discutido a Europa). Nesse aspecto, não deixa de ser revelador que Beleza, na mesma entrevista que referi, diga agora que a campanha foi de Assis (e Assis ainda está com esta gente?). E claro, nem vale a pena falar da reação de Seguro e Assis na noite eleitoral, ou da sua posterior reação ao desafio de Costa. Por isso, esta Direção está intrincheirada na sua fortaleza e é provável que mesmo que sejam derrotados por Costa, façam tudo para queimar as possibilidades do PS ganhar as legislativas em 2015 (já o estão a fazer, voluntariamente ou não)...

Jaime Santos disse...

Gostei de saber hoje pelo Público que o Porfírio está a trabalhar na moção que Costa quer levar às primárias. E parabéns a todos os intervenientes nesse artigo, de ambos os lados da refrega, as citações apresentadas são um exemplo de como se faz um debate com elevação, mesmo focando em aspectos ligados não ao programa político mas sim à prática política, o que implica falar das pessoas. Se Costa ganhar, há sem dúvida pessoas ligadas a Seguro que importará captar para uma nova liderança. Também estive hoje na Alfândega do Porto. A minha opinião vale o que vale, mas gostei do que ouvi, só não gostei de três coisas, duas ligadas ao discurso de Costa, e uma à organização da reunião. Primeiro, deixem lá a 'Música de Coroação' do início, o PS é um Partido republicano e a candidatura de Costa é uma candidatura republicana (dentro do PS só Soares teve tiques monárquicos). Quanto ao discurso, gostei da referência ao aproveitamento da riqueza do território, mas dez anos mal chegam para lançar um programa de exploração do Oceano, quanto mais para extrair dele riquezas. A intenção é meritória, mas sejamos realistas. Apostem antes na Floresta, ausente do discurso (ler a excelente posta recente de Seixas da Costa a respeito dos fogos florestais). Gostei igualmente da humildade de discurso quanto ao que poderemos conseguir na Europa, mas, como sabe, acho que deveríamos ter uma postura mais afirmativa e não ter medo de dizer que o PS quer discutir uma renegociação da dívida para além do manifesto dos 70... Isto porque já percebi que do abandono do Euro (ou pelo menos do estudo desse cenário) ninguém quer ouvir falar... Compreende-se, o PS é o mais euro-federalista de todos os Partidos (erradamente, na minha modesta opinião).