10/06/14

a política anti-políticos.


Cavaco Silva (não, o tema não é o desfalecimento, não é a primeira vez que ele desfalece em público, isso não tem nada a ver com política, não falo da pessoa privada) e o cavaquismo, se alguma coisa têm como linha duradoura da sua narrativa de sempre, é o discurso anti-política. Cavaco Silva, um dos políticos que mais tempo ocuparam funções da mais alta responsabilidade política em Portugal, andou décadas a tentar vender a sua imagem como sendo ele um não-político. Para essa operação de combate político ser rentável, tinha de vir acompanhada de uma recorrente crítica "aos políticos". Para ele ser melhor que os outros, os outros tinham que ser, genericamente, uns canalhas. Essa operação tem raízes no mais profundo do que ficou do salazarismo: devem mandar os que servem "o bem" (a Pátria, talvez Deus), nunca "os políticos". Quem quer atacar a democracia, se o quer fazer em profundidade, ataca os políticos: porque sem políticos não há democracia (embora fosse desejável que a política fosse mais feita por todos e menos feita por alguns). Esta guerra aos políticos, além de ser um estratagema de propaganda essencialmente anti-democrático, é instrumental noutra direcção fundamental: facilita a tentativa de desqualificar as diferenças programáticas e de diabolizar os interesses diferentes: se eu "interpreto o bem", quem se me opõe é, por definição, um defensor do mal.

Felizmente, poucos políticos têm tentado replicar esta estratégia entre nós.

Felizmente, nunca nenhum dos maiores partidos da esquerda portuguesa tentou a cartada anti-políticos.

Infelizmente, a campanha de António Seguro por uma vitória no PS está a lançar mão da cartada anti-políticos. Como se a política fosse um mundo de porcaria e António Seguro fosse uma ilha de honestidade neste mundo. Infelizmente, essa cartada, sendo radical, serve apenas para justificar o radical apego à cadeira: quer dizer, o uso de todo o tipo de expedientes (designadamente, truques pseudo-legalistas) para evitar um debate político em campo aberto e sem armas escondidas.

A tentação de alguns políticos para se fazerem passar por uma espécie de maravilhas do universo, insubstituíveis e indiscutíveis, ainda não morreu. Infelizmente.

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Eu diria mais: olhando para o exemplo egrégio do percurso político e profissional daqueles que rodearam Cavaco (Oliveira e Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro), o que concluimos é que a linguagem anti-políticos também parece afirmar um perpétuo estado de santidade que tudo justifica. Sócrates, com todos os seus defeitos (incluindo a queda para o populismo do 'o voto lava mais branco', coisa que Cavaco invocou igualmente no seu infame discurso de vitória em 2011), pelo menos não se quis vender como homem impoluto e infalível. Só é pena que este tipo de tácticas salazarentas estejam igualmente a fazer escola no PS, acompanhadas das habituais acusações de traição à pátria em relação àqueles que se limitam a constatar o óbvio, a saber, que AJS não tem estaleca para ser líder do PS...