26/05/14

juntar os cacos: a Europa aqui tão perto.


A Europa mete água por todo o lado: partidos dos extremos entram pelos territórios habituais dos partidos do sistema, fascismos de vários tons chegam-se descaradamente à frente no voto do povo, europeus votam em grande escala contra esta Europa, partidos de governo são humilhados nas urnas e partidos da oposição clássica (à direita e à esquerda) são desfeiteados. O cenário é de desastre para o "bloco central" europeu: Populares e Socialistas continuam a ter a maioria no Parlamento Europeu mas, em vez de serem o duo de alternativas que se oferece aos povos como mecanismo de uma democracia a funcionar, ficam agora como o pólo único do sistema cercado por todos os lados, a terem de se juntar para não soçobrarem. Os senhores da Europa já têm pouco para delapidar: o tesouro está em manifesta decomposição.

A nível nacional, a direita no governo, que passou a campanha toda a falar de política interna, entre a narrativa esquálida do despesismo e o papão de Sócrates, descobre na noite das eleições, depois de um desastre eleitoral sem precedentes, que as eleições eram europeias e não se deve falar de política interna a propósito desse assunto distante que é a Europa. Como se ainda não tivessem percebido que a política europeia e a política nacional são uma e a mesma coisa.

O Partido Socialista, que, depois de três anos de massacre, consegue chegar umas migalhas à frente da direita, recuar em relação às últimas eleições autárquicas, ter menos 12 ou 13% do que a percentagem obtida nas últimas europeias em que estava na oposição, reclama uma grande vitória - e consegue fazê-lo sem se rir, o que é espantoso. Com um novo pequeno PRD em campo (Marinho e Pinto), com o Livre a obter resultados que lhe dariam deputados numas legislativas, com a esquerda da esquerda em recomposição, com uma vitória tangencial para si próprio, o SG do PS aparece para dizer banalidades e para a costumeira propaganda, para mero uso interno, com que tenta vender a preço de ouro o mero chumbo que conseguiu nesta jornada. O nível de compreensão da realidade mais uma vez demonstrado por António José Seguro está ao nível da moção de censura de Jerónimo de Sousa, cuja aversão ao parlamentarismo o leva a confundir sistematicamente o ritual com a vida real.

A esquerda, a começar pelo PS, pode optar por fazer de conta que ganhou o país nestas eleições. Mas será uma pena se insistir nessa cegueira. Mesmo o PCP, que avançou eleitoralmente, estará a ser obtuso se fizer de conta que isso, só por si, tem alguma utilidade para o avanço da sua proposta política. Os fiéis de sempre em cada máquina partidária vão propalar as maravilhas do costume acerca do desempenho dos seus atletas, mas isso não vai mudar o país para melhor, apenas pode aprofundar a actual incapacidade dos opositores para juntar os cacos do país e apresentar um programa alternativo mobilizador que seja capaz de arrancar algo de bom à realidade tão real que insiste em não se vergar às meras utopias de conveniência.

Para não abandonarmos o país aos derrotados que nos governam, é preciso que algo de novo aconteça do lado das alternativas. E o que falta acontecer só pode acontecer se muitos compreenderem quão próximo estamos do abismo - e compreenderem que a retórica habitual já nem chega para manter os rebanhos na cerca, quanto mais para inventar soluções novas que caibam no estreito caminho que ainda nos é possível e necessário.

3 comentários:

Laura disse...

Excelente reflexão, Porfírio.
Quero só acrescentar que a campanha feita para estas Europeias (como para as de 2009) foi vergonhosamente nacional. A função dos deputados europeus eleitos por cada E-M é a de defender interesses nacionais num cenário europeu.
A falta de debates inteligíveis sobre as questões europeias em voga e importantes em termos nacionais (por exemplo, o alargamento da ZEE e as políticas marítimas europeias) foi uma das grandes falhas. Aliás, o único debate realmente europeu foi o dos candidatos à Comissão.
Não se podem encarar Europeias como se fossem Legislativas. Parece que não conseguimos abarcar a ideia dessa dupla pertença - à UE e a Portugal. E a culpa, em grande parte, é dos pretendentes a atores. Propositadamente? Por desinformação? Ainda sou ingénua...

A Europa está aqui tão perto, sim. Mas tão ausente, que até dói.

Jaime Santos disse...

Belíssima reflexão esta, assim como a de cima sobre os populismos. Não posso estar mais de acordo. A ausência cada vez mais notória de diferenças entre os dois campos centrais do debate político, o PSE e o PPE, leva os eleitores a enveredarem por votar em quem lhes promete soluções fáceis. Mas o bloqueio do sistema político por via da ocupação do aparelho do Estado pelos aparelhos partidários e pela transumância do pessoal político entre o sector privado e o público também são causas da deriva populista, assim como a incerteza dos novos tempos, que leva as pessoas a procurarem soluções fáceis pelo puro desejo de segurança. A questão que se coloca é como fazer um debate sério sobre possíveis soluções para esta crise da civilização europeia que não se fique pelo mero diagnóstico, como de costume. De recordar ainda que a fúria dos eleitores num País como a França se deve às promessas não cumpridas de Hollande, que uma vez no Poder se rendeu à cartilha austeritária... A capacidade de não renegar às promessas feitas é muito importante, porque o pior que se pode fazer a alguém é roubar-lhe a Esperança...

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Totalmente de acordo.