28/03/14

podemos receber lições de estrangeiros, sim senhor.


Henrique Raposo, indo além dos dislates políticos, deu recentemente à publicidade no espaço do Expresso um texto (São as portuguesas mais feias do que as outras?) absolutamente nojento naquilo que revela da forma como vê o mundo. Seria interpretável como um texto mais ou menos privado de um adolescente com falta de jeito para tomar conta das mãos, mas, naquele espaço, desafia até a nossa capacidade de interpretação.

O Embaixador da Polónia em Portugal também achou que o texto passava das marcas. A ponto de se dar ao trabalho de escrever ao Expresso (como se pode ler no sítio da Embaixada da República da Polónia em Portugal). Entre outras coisas, escreve o Embaixador: «Nós não contamos que, num jornal tão prestigiado - seja na página oficial ou na edição impressa - haja espaço para comentários tão sexistas e vulgares.» De acordo. E mais: «E o Sr. Raposo não só ofende as mulheres polacas, inglesas ou brasileiras, mas também as portuguesas, cujo valor é avaliado apenas em termos de serem " boas" e "fáceis". O "artigo" de Henrique Raposo reforça o estereótipo de que os homens portugueses são sexistas e machistas, vendo as mulheres apenas como objetos sexuais e avaliando-as só atraves de valores sexuais.» De acordo.

Portanto, podemos receber lições de civilidade vindas de estrangeiros, sim senhor. Já que, por cá, os "responsáveis" por jornais "de referência" permitem estas porcarias. Obrigado, Senhor Embaixador da República da Polónia em Portugal, por nos lembrar que não somos só nós, alguns portugueses, a achar vergonhosas aquelas palavras de um "colunista". Um colunista sem coluna, imagino.


6 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Fui ler na diagonal a crónica. O Henrique Raposo consegue este feito notável: é das pessoas que melhor escreve na imprensa, sendo igualmente um dos que mais vezes resvala para a parvoíce. Dito isto, não me parece que, sendo ele um cronista convidado pelo Expresso possa ou deva estar sujeito a "permissões" dos responsáveis pelos jornais, sem que isso configure censura.
Também acho que o embaixador polaco foi hipersensível, já que o articulista se refere a todas as mulheres para lá da fronteira com Badajoz (não o faz por menos...), fala de polacas, brasileiras, inglesas e italianas, como falaria de outras tantas nacionalidades. Enfim, parece-me excessívo vir um embaixador dar tanta importância ao Raposo, não falando daquele parágrafo preocupante (para as polacas e para os polacos), se não fosse ridículo: "A nossa Embaixada também recebe por diversas vezes indicações de casos de disseminação do estereótipo negativo dos portugueses na Polónia, mas nós esforçamo-nos para garantir que este estereótipo não seja duplicado nos meios de comunicação polacos."
Gostava de perceber a natureza dos "esforços" do embaixador.

Saudações cordiais



Jaime Santos disse...

O texto do Henrique Raposo é completamente alarve, mas valerá um segundo da atenção do Embaixador? Se se tratasse de um texto escrito por uma pessoa com responsabilidades na Governação, eu sentiria vergonha, neste caso trata-se apenas do pseudo-historiador Henrique Raposo, que diabo... E a escrever no Expresso, que há muito deixou de ser um representante do jornalismo de referência, só que se calhar o Embaixador ainda não percebeu isso, sendo polaco. Ainda assim, vai ser divertido ver o Ricardo Costa a descalçar a bota...

Jaime Santos disse...

Numa segunda leitura da carta do Embaixador, parece-me que ela não é apenas espúria, como disse no meu texto anterior, é inteiramente desadequada para alguém com esse estatuto e falando nessa condição. Porque é que aquilo que é publicado num orgão de imprensa privado, sem nenhuma ligação ao Governo ou Estado Português, pode ser prejudicial às relações luso-polacas? Em Portugal existe liberdade de imprensa, mesmo que seja para publicar um texto tão alarve como o do Henrique Raposo, o que desde logo vincula apenas o Henrique Raposo e o Expresso àquilo que foi escrito, nunca o Estado ou o Governo Português. Se o Embaixador escrevesse a carta na condição de simples cidadão indignado com a forma boçal como Raposo se refere às mulheres, eu não poderia estar mais de acordo, assim, parece-me uma forma de pressão que não é aceitável. Se criticamos o Governo de Angola pelas pressões relativamente ao que se publica em Portugal, não podemos aceitar isto, mesmo que eu me sinta muito mal a defender alguém tão reacionário como o Henrique Raposo...

Porfirio Silva disse...

Caro Jaime Santos,
Acho que há um erro na sua análise: o Embaixador escreve ao Expresso, não ao governo, e escreve no quadro das relações entre aquela embaixada e aquele jornal. Isso é diferente do que seria uma carta a nível de Estado e este factor torna a sua análise um pouco "misturada".
Muita da representação "diplomática", hoje, nomeadamente entre membros da UE (que se relacionam em grande parte nas instituições da União) coloca-se mais ao nível do diálogo entre sociedades do que entre Estados. Acho que esta questão cabe inteiramente aí.
Mesmo que o Jaime tivesse razão no plano da forma, eu tendeeria a compreender inteiramente reacções desusadas a um texto tão porco como aquele do HR.

Jaime Santos disse...

Sim, Porfírio, eu percebo bem que a missiva se destina ao Expresso e não ao Governo, mas nela diz-se que a publicação do texto é prejudicial às relações luso-polacas. Como??? A dita publicação é quando muito prejudicial para as relações entre o Expresso e o Embaixador da Polónia (como você bem diz), mas eu não tenho nada que ver, enquanto Português, com esse relacionamento (as coisas seriam diferentes se Raposo trabalhasse para a RTP ou RDP, por exemplo). Compreenderei inteiramente se o Embaixador quiser terminar a sua colaboração com o jornal, eu também não quereria ter nada a ver com uma publicação que emprega pessoas como o Henrique Raposo. Mas dizer que a publicação do texto é prejudicial às relações entre Portugal e a Polónia soa a pressão sobre um orgão de imprensa privado, o que é inadmissível... Por isso, ao redigir a missiva da forma que o fez, o Embaixador deu foi um grande tiro no seu próprio pé. Tinha a razão toda e perdeu-a num minuto...

Porfirio Silva disse...

Jaime, percebo o seu ponto de vista. Na realidade, o que diz é até bastante "ortodoxo" (no bom sentido) no plano da diplomacia mais "oficial". Também é claro que há ali sugestões que lembram a "velha Polónia" (a ideia de que evitariam publicações inconvenientes sobre nós no país deles). Contudo, entendo isto dentro de um tipo de diplomacia que me parece hoje natural dentro da UE. Na verdade, as grandes discussões Estado a Estado acontecem "em Bruxelas", deixando às embaixadas menos trabalho do núcleo duro das funções tradicionais da diplomacia estatal. Essa situação faz com que muitas representações diplomáticas se virem mais para outros planos do relacionamento, adoptando outros estilos. Acho que é o caso. E acho que é especialmente o caso quando a carta do embaixador se dirige a um jornal, não ao MNE. Na verdade, se procurarmos bem, percebemos que muitas embaixadas de membros da UE fazem hoje coisas que não era costume fazerem. É outro tipo de interacção. E, nesse quadro, vejo isto com normalidade. Como parte de um debate. E, como disse, percebo perfeitamente que alguém leia aquilo e não se contenha... Tudo isto sem deixar de reconhecer a validade do seu ponto de vista.