12/03/14

a Ucrânia e nós.


Já expliquei que nada no assunto Ucrânia me parece linear ("Um apontamento Ucraniano"). Contudo, o que tem acontecido nesse país merece uma reflexão mais geral sobre os processos de contestação. Deixo, por hoje, só a minha contradição de partida.

Por um lado, a forma violenta como se processou a mudança de poder na Ucrânia deu acesso aos comandos do Estado a uma série de forças indesejáveis, nomeadamente extremistas de direita, incluindo saudosistas dos partidários de Hitler, sendo que algumas dessas forças não hesitam em usar a violência para abrir caminho. Isso poderia ter sido evitado com uma transição pacífica e negociada, ou se, pelo menos, o anterior poder tivesse respeitado mais lealmente as oposições.

Por outro lado, provavelmente nada teria acontecido se as oposições se tivessem mantido pacíficas. O anterior grupo dirigente estava agarrado às suas cadeiras e nunca mudaria no essencial o seu estilo autoritário (para dizer o mínimo). É quase certo que só a violência permitiu desestabilizar a anterior situação.

Vale a pena obedecer só para evitar a violência e as suas consequências? Ou "perdido por cem, perdido por mil"? As respostas "burocráticas" não ajudam a explicar nada. E, um destes dias, podemos voltar a pensar nisto a partir do caso da Grécia: vendo as coisas da actualidade, valeu ou não valeu a pena agitar a rua num dado momento de um passado recente?

2 comentários:

Jaime Santos disse...

Não tenho como responder a isto: efectivamente, o novo Poder surgiu às costas de um golpe de Estado, que derrubou um governo corrupto e autoritário, para o substituir por algo que será pior ainda... E essa Inconstitucionalidade abre a Boceta de Pandora, com a possibilidade da Secessão da Crimeia... Eu diria que, para evitar um clima de pré-guerra civil, como o que se vive na Ucrânia, não basta o respeito pelo Estado de Direito, é também necessário que exista um consenso mínimo dentro das Sociedades sobre aquilo que as pessoas designam por bem comum. A atual fratura ideológica, agravada pela crise económica, não augura nada de bom, mesmo nas sociedades ocidentais com democracias maduras (não sei sequer se coloco Portugal nessa prateleira). Mas o atual manifesto sobre a reestruturação da dívida faz-me ter a esperança que o consenso e o diálogo são possíveis entre pessoas decentes e razoáveis... Só é pena é que os principais partidos parecem desde logo apostados em olhá-lo no mínimo com desconforto, senão com desdém...

Anónimo disse...

"Só é pena é que os principais partidos parecem desde logo apostados em olhá-lo no mínimo com desconforto, senão com desdém..." Olhe que não!!! Se se refere ao SG do PS, esteja mais atento a declarações anteriores, desde 2011, insistentemente repetidas, embora com fraca audiência no espaço público. Mais exatamente, barragem quase total/ distorção/manipulação na CS que só está interessada em promover namoro/noivado/casamento, se não voluntário, não interessa à força