01/02/14

“Se eu fosse ladrão… roubava”.



Ontem à noite fui à Cinemateca ver o último filme de Paulo Rocha, o cineasta que morreu no final de 2012. Esta ante-estreia prenuncia uma próxima passagem ao circuito comercial. A sessão foi também de homenagem ao realizador, com a presença de vários intervenientes na obra, actores e outros. A Cinemateca recebeu, por testamento, tudo o que era de Paulo Rocha e estava relacionado com o cinema, deixando nas mãos desta instituição pública uma oportunidade e uma responsabilidade enormes.
Não vou tentar fazer uma crítica do filme, já que não sou competente para tanto. Apenas direi que o filme revisita a nossa história colectiva, pelo menos à escala do último século, revisitando a história de uma família (talvez importe que seja a família do realizador, talvez isso não importe assim tanto). E, quanto à forma, revisitando quase todas as longas-metragens anteriores de Paulo Rocha, fazendo do último filme um testamento global, uma síntese, uma releitura, um outro-mesmo olhar sobre a totalidade do mundo.
O filme intitula-se “Se eu fosse ladrão… roubava” e é de uma enorme complexidade, com várias camadas dificilmente captáveis numa primeira visualização. Apenas começamos a entender. Contudo, o filme é, indesmentivelmente, sobre o medo. Como é medonho e prenhe de sentido o medo. Ou, mais exactamente, sobre como mete medo essa tarefa necessária e talvez inglória de tentar perder o medo ao medo. O pai, a morrer, interpretado por Luís Miguel Cintra, diz ao filho a quem aquela doença do mundo aterra: “Vitalino, não tenhas medo, olha que o mundo é maior do que isto que se vê…” E essa declaração ecoa pelo filme todo. É o raio de luz dentro do breu.
Precisamos – continuamos a precisar – de olhar para o medo. O medo de cada um, o medo de um povo. O medo de sempre, mesmo que com vozes novas. Este filme faz isso, de forma vital, que nos deixa esmagados. Mas vivos.


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