24/02/14

da "Ilusão" verdadeira numa Cornucópia de amadores - ou, que fazer quando "o mundo é um brinquedo sem dono"?


aqui falei do projecto: a companhia Teatro da Cornucópia faz-se a este tempo de crise sem se vergar e, ao mesmo tempo, sem nos querer arregimentar - antes, criando um espaço de liberdade partilhada, um espaço onde chegamos cada um com a sua Ilusão para fazermos, juntos, o espectáculo "Ilusão", a partir de textos do muito jovem Lorca lidos e poderosamente reinventados por Luís Miguel Cintra.

aqui escrevi sobre o espectáculo propriamente dito, como outras vezes escrevi sobre o trabalho que esta casa apresenta, por ser do teatro que por cá se faz que mais responde às minhas necessidades (digamos assim) espirituais.

Hoje, o primeiro dia de pausa desde a estreia, quero simplesmente deixar um testemunho pessoal: o testemunho de apenas mais um dessa "Cornucópia de amadores" que está agora em cena - como realidade humana, está tanto em cena como a própria peça.

O Teatro da Cornucópia acolheu quase 60 pessoas, muito diferentes entre si, muitas sabendo muito bem o que representa representar, outras nada sabendo deste mundo além do papel de espectador (como é o meu caso), misturou tudo com a inteligência colectiva do encenador e demais artífices desta máquina de fazer mundos e... criou "Ilusão". Não creio ser capaz de explicitar quanto esta experiência me tem melhorado, mas sempre quero dar nota do que me vai na alma. E isso só pode, com verdade, ser feito na forma de agradecimentos.

Em primeiro lugar, fomos todos (e fomos sempre muitos) acolhidos com uma genuína humanidade e com um profissionalismo irrepreensível. Podemos, assim, continuar a acreditar que o profissionalismo só por desordem da inteligência e das paixões pode ser associado a comportamentos desumanos e exploradores, como tantas vezes nos querem obrigar a aceitar nesta selva da pseudo-produtividade e da pseudo-competitividade. Se dúvidas havia, elas foram-nos aqui uma vez mais esclarecidas: ser profissional e ser humano é possível. E necessário. E muito mais produtivo do que qualquer outra combinação de doses. Isto pede-me que agradeça a todas as pessoas da Cornucópia que nos acolheram e trabalharam.

Em segundo lugar, fazendo eu parte do grupo dos amadores e dos mais velhos, dos que nesta "Cornucópia de amadores" nada sabem de representar e que já vão um pouco tarde para aprender muito nesse campo, sinto-me profundamente agradecido aos que, neste grupo, são os mais novos e os que mais seriamente pertencem a essa arte/profissão de representar (mesmo que ainda em fase de aprendizagem). Tem sido francamente refrescante conviver com todos, plenos de empenho, de vontade, de projectos, de "Ilusão", pois, precisamente. E, claro, alguns visivelmente prometedores, que espero ver em palco por muitos dos anos que aí vêm, para minha felicidade e sucesso deles e delas. Já pensaram que, também nisso, devemos todos um agradecimento à companhia Teatro da Cornucópia, que foi capaz de juntar peças tão diferentes para criar um mundo onde todos cabemos a contento e sem apertos?

O vídeo que deixo abaixo (Agora, RTP2) permite vislumbrar algumas das razões pelas quais este projecto tem sido marcante para muito de nós.


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