12/01/14

Coriolano: Shakespeare e a nossa crise.


(Foto de Victot Hugo Ponte no sítio do TNDMII)

Ontem fomos ao Teatro Nacional D. Maria II ver "Coriolano", de William Shakespeare, peça escrita nos primeiros anos do século XVII e que agora é apresentada como uma reflexão pertinente sobre as nossas crises actuais. É dito que as escadas onde tudo se passa nesta encenação são como as escadas do Palácio de S. Bento, onde funciona o nosso parlamento. Ainda bem que disseram, porque não se nota: mas anota-se a intenção.

Um texto do programa, depois de citar uma frase da peça - "A fome é grande, o povo está revoltado" -, diz que Coriolano é o "protagonista antipático que a genialidade de Shakespeare torna simpático a nossos olhos". Duvido que Shakespeare tenha querido tornar Coriolano simpático ou antipático aos nossos olhos: acredito mais que tenha querido baralhar os dados para nos obrigar a pensar, em vez de nos quedarmos sentados nos preconceitos habituais. De qualquer modo, a tentativa de dar um aspecto "subversivo" a este espectáculo neste momento, parece-me uma leitura claramente desajustada: se esta peça, em vez de ser entendida como uma reflexão sobre os perigos que corremos, fosse entendida como um programa, ou como um desafio, seria uma peça anti-democrática. Se há ideia central em "Coriolano" é a ideia de que a representação do povo na assembleia é pura demagogia e manipulação, acompanhada da ideia de que o povo é fraco e deita tudo a perder quando não se deixa conduzir pelas classes mais astutas que sabem como as coisas se fazem. Mesmo que o texto de partida seja mais complexo, a encenação reforça este elemento anti-democrático: ridiculariza a populaça e os seus representantes. Daí que, francamente, estranhe que o espectáculo esteja a ser entendido como uma espécie de oportuna reflexão sobre a nossa crise. Quer dizer: o espectáculo pode até ser uma reflexão sobre a nossa crise, mas, nesse caso, será mais um aviso contra os perigos de deixar o povo falar do que um apelo a uma melhor participação do povo. E, isso, se é sobre as nossas crises actuais, seria uma reflexão atirando bastante ao lado do alvo.

Quanto ao resto: gostei das interpretações que dão vida às personagens que se destacam individualmente e gostei do movimento geral, que não se perde em rodriguinhos e trata apenas do essencial, sem distracções inúteis.

6 comentários:

Jaime Santos disse...

Visto de forma simplista, Coriolano insere-se num conjunto de textos críticos da soberania popular, que se filiam, provavelmente, na tradição da crítica de Xenofonte às instituições atenienses (Shakespeare baseou-se em Plutarco, segundo creio). Mas é preciso não esquecer que Coriolano é levado a trair Roma por despeito e pelo desprezo a que vota as instituições democráticas e que só não destroi a sua Cidade por um puro ato de amor filial, sacrificando a sua vida por isso, aliás. Ora, as posições da 'Direita Libertária' não se afastam muito desta atitude de desprezo pela Soberania Popular (a submissão à vontade coletiva coarcta a Liberdade Individual e deve por isso ser rejeitada, se necessário manipulando essa vontade colectiva). Considerando a influência que esta corrente tem tido também na Europa, e provavelmente nas cabecinhas daqueles que nos governam, e que estão entregar alegremente alguns dos nossos centros de decisão económica a grandes grupos estrangeiros, alguns públicos e de Países como a China, que não são exatamente Estados de Direito, eu diria que Coriolano (juntamente com Júlio César, que o Porfírio já aqui trouxe na representação magistral de Brando) é talvez a peça de Shakespeare que mais tem a ver com o que se passa nos dias de hoje no nosso País (das que eu conheço, isto é).

Porfirio Silva disse...

Jaime,

"Coriolano" parece um texto útil para espoletar um debate acerca dos dias de hoje. Nisso concordo. Creio, no entanto, que a recepção que a imprensa tem dado a este espectáculo é enganadora acerca do que podemos ler nesta peça. Por exemplo, a cena de "indignados apedrejantes" nas escadas do palácio, com que abre a peça, pisca o olho à contestação: mas esse piscar de olho é enganador, porque esses contestatários são tratados, no conjunto do texto e da peça, como um bando de tolos que se deixam manipular pelos seus tribunos (deputados) e que agem, afinal, contra os seus próprios interesses (os seus interesses estariam em ser mais cordatos com o ditador e com os de cima).
Claro que Shakespeare é sempre mais problematizador do que estas leituras apressadas, mas o argumento anti-democrático, que já está no texto, é branqueado por uma recepção demasiado entusiasta e simplificadora.

Jaime Santos disse...

Bom, Porfírio, não conheço esta encenação da peça, mas o que disse talvez me faça vê-la se vier aqui para o Porto, onde vivo. Por isso falei genericamente. Talvez devesse ter ficado calado (é sempre má ideia falar do que não se conhece). Mas parece-me que existe na Nova Direita uma pulsão anti-democrática de cariz só aparentemente populista, mas na verdade profundamente elitista e oligárquico (veja-se a proposta da Juventude Centrista de reduzir a escolaridade obrigatória de novo para 9 anos). Ora, isto não é mesmo nada de novo, está lá desde pelo menos as lutas entre Patrícios e Plebeus durante a República Romana, senão desde o tempo dos Demagogos Gregos... Pelo que diz, não foi este o ponto de vista adotado pelo Encenador, que acabou por enfatizar a leitura mais simplista...

Porfirio Silva disse...

Acho que vai ao Porto (penso que é co-produção com o TNSJ) e julgo que vale a pena ver.

Jaime Santos disse...

Posso finalmente responder com conhecimento de causa, porque assisti hoje, seguindo o seu conselho, a esta representação da peça. Não considerando a encenação como brilhante, achei-a bastante boa, assim como ao trabalho dos atores (é sempre difícil, suponho eu, levar Shakespeare à cena numa língua que não o Inglês). O encenador levanta, na entrevista que é publicada com o programa, alguns paralelos interessantes com a situação atual, embora também diga que sendo 'Coriolano' uma obra intemporal, convém não tentar estabelecer paralelos diretos, sob risco de anacronismo... Sob a retórica de elogio da violência, da oligarquia e da inflexibilidade de princípios, que pode ser lida com ironia, dado o fim de Caio Márcio, perspassam também dois vagos momentos de humanidade: as saudades da Esposa, durante a primeira campanha, em oposição à atitude da Mãe e o discurso irónico dos serviçais volscos sobre a Guerra. Para além, claro, da súplica final da Mãe de Coriolano... Não há dúvida que os elementos anti-democráticos fazem parte do coração do texto, mas são também eles subtilmente sujeitos à crítica, do modo que aponto acima. Mais uma vez, obrigado pelo conselho, foi dinheiro bem gasto!

Porfirio Silva disse...

Caro Jaime Santos,
Temos subtis diferenças na leitura "ideológica" do espectáculo, mas fico satisfeito de sentir que não o enganei.