01/10/13

o PCP e o sistema.


A Joana Lopes (entre as brumas da memória), que respeito mas com quem estou frequentemente em desacordo, analisa, numa posta a propósito das últimas eleições ("a força do PCP"), o papel do PCP na contestação a esta apagada e vil tristeza. É um texto no qual vale a pena pensar: vou comentá-lo indo além do que se pode atribuir directamente ao que JL aí explicita.

Joana Lopes (JL) começa por fazer um certo tom de desprezo quando fala de um comentário que, segundo ela, esteve muito presente no rescaldo das recentes eleições autárquicas. O comentário é sobre o PCP e consiste em louvar o seu contributo positivo para "controlar" o protesto e para o manter "dentro do sistema". Aquilo que chamo "tom de desprezo" relativamente aos putativos produtores desse comentário consiste nos mimos que JL lhes dirige (cf. primeiro parágrafo do texto que estou a comentar). Ora, o que interessa é que, se JL despreza os autores do comentário, afinal a mesma JL concorda com a parte factual do mesmo, embora discorde da sua valoração. Isto é: o PCP realmente tem dado um enquadramento institucional ao protesto, mas isso, em lugar de ser bom (como dizem os "comentadores, encartados ou nem por isso", incluindo a "esquerda mole"), é mau, designadamente porque tem redundado num "enquadramento por vezes demasiado rígido das formas de protesto". JL passa depois a explicar que o PCP tem, pois, de ser complementado por outras organizações e iniciativas. Enfim, posto por palavras minhas, o carácter institucional (até legalista) da acção do PCP é visto como obstáculo ao desenvolvimento da luta contra "o sistema".

Nada disto é muito novo, nem muito original. O PCP costuma considerar estas posições como aventureirismos ou esquerdismos que não levam a lado nenhum. Não vale a pena revisitar essa linha de polémica. O que quero aqui dizer é, a meu ver, mais central à própria concepção de democracia. Eu conto-me entre os que valoram positivamente as forças que são capazes de expressar a contestação dentro do sistema. Porquê? Porque eu não concebo nenhum sistema democrático sem contestação, sem diferença, sem alternativa, sem tensão, sem oposição. E como não me consigo imaginar a viver num sistema sem essas forças de contradição, tenho de estar agradecido, como cidadão, a quem dá voz e articulação política ao desacordo e à contestação. Foi esse, aliás, o sentido profundo daquela declaração de Melo Antunes no rescaldo do 25 de Novembro, quando veio dizer, contra os revanchistas de vários quadrantes que sonhavam ilegalizar os comunistas, que o PCP era indispensável à democracia. Quer dizer: um democrata não pode viver bem sem todos aqueles que expressam a diferença dentro da democracia. Porque sem isso não haveria democracia alguma. A estória de "cair fora do sistema" reduz-se aos sonhos gémeos dos que, de um lado, convivem mal com a contestação e dos que, de outro lado, concebem a contestação como mais útil se não contribuir nada para "o sistema". Em qualquer dos lados está a ideia de que a visão dos outros é tão insuportável que nós não queremos que ela conviva com a nossa própria visão.

Pois, para mim, talvez por pertencer à tal "esquerda mole" da expressão da JL, são muito importantes as forças políticas que articulam a dissensão dentro do sistema. É que, sem isso, o sistema seria puramente totalitário. E mais: se estamos como estamos - incapazes de traçar uma estratégia minimamente nacional para sair do atoleiro - devemo-lo em parte aos dirigentes políticos (a começar no PR) que pensam que podem traçar "planos de salvação nacional" excluindo à partida o PCP e o BE e os parceiros sociais na sua pluralidade. Infelizmente, os que concebem a democracia como uma coutada do "arco da governação" encontram um útil aliado naqueles que prezam mais "estar fora do sistema" do que aprofundar a própria democraticidade do sistema.



8 comentários:

Jaime Santos disse...

Agora é a minha vez de concordar consigo, mas deixe-me acrescentar algo que julgo estar implícito àquilo que diz. A existência de Partidos de Protesto à Esquerda dentro do sistema democrático não apenas o enriquece, como previne o risco de derivas de sinal contrário por parte dos grupos sociais que esses mesmos Partidos enquadram. O enfraquecimento do PCF contribuiu para que os seus votantes fossem engrossar o score eleitoral da FN. Em Portugal, a inexistência de uma Extrema-Direita organizada provavelmente deve muito à ancoragem dos mesmos grupos sociais ao PCP. Dito isto, reitero que seria bom que quer o PCP quer o BE fossem capazes de integrar soluções de Governo à Esquerda, em vez de classificarem sempre o PS como parte da Direita, mas a sua Natureza como Partidos de Protesto e o seu dogmatismo ideológico, estão em contradição ou pelo menos em tensão profunda com a sua capacidade de se coligarem com o PS... Quem ganha é a Direita...

Francisco Clamote disse...

Na "mouche"!

Ricardo António Alves disse...

Nem mais! E como se chamará, metaforicamente é claro, à 'esquerda' que se opõe à nossa moleza? 'Esquerda de ferro'? Não gosto, tem demasiado garbo; sempre prefiro o velho 'social fascismo', menos glamouroso e mais de acordo com o 'sucialismo (ir)real' que pc's e derivados têm para nos oferecer.

Porfirio Silva disse...

Caro Ricardo,

Eu acho que os insultos antigos já são pouco eficazes. Por isso prefiro não tentar inventar respostas para eles. Eu adoro ser da esquerda mole, talvez por achar que o pessoal muito duro tende a quebrar ingloriamente...

Anónimo disse...

E cá do alto ao lado do Povo vos digo de minha justiça...camaradas pá...então? não há necessidade....não se atropelem com pseudo-insultos, pseudo-intelectuais, pois na realidade o povo que vocês tanto falam, não compreendem um terço das mensagens subliminares que os senhores aqui e não só expressam. Não tenham arrogância intelectual e falem num tom claro para que TODOS possam compreender as vossas mensagens. É porque os senhores deixam-se cair muito rapidamente na falácia de direita que é a escrita intelectualizada que só alguns entendem. Agora o que interessa. Sim, o grande vencedor das últimas eleições foi o PCP, com muito orgulho. Vamos lá todos ajudar os camaradas a conseguir outra grande vitória em 2015, por TODOS nós....senão seremos eternamente escravos....não deixemos que a direita consiga fazer chantagem com o Povo que adoptarmos o modelo Comunista (diga-se o único em que não haverá diferenças de classe), ficaremos sem Tablets de última geração e que já não vamos vestir calças da Levis ou que se acaba a Cola-cola....alertem o Povo com mensagens simples que ele entenda por favor. Abraços camaradas,
Vítor

Porfirio Silva disse...

Oh Camarada Vítor, é só para lhe lembrar que isto aqui não é nenhuma edição paralela de O Militante. E agradeço que não trate aqui a loja como um jornal de parede para propaganda. Muita saúde é o que lhe desejo.

Anónimo disse...

Caro Porfirio Silva obrigado pelas suas palavras e pelo debate às ideias que espero ter acrescentado ao debate em causa. Não sou de forma alguma o mediador deste debate, contudo, uma vez que já só se discutia o acessório, típico de direita para fugir ao que realmente interessa, e à normal falta de argumentes dos elementos afectos a essa facção, pretendi dar um contributo com algumas ideias e pontos de vista. Agora, se ofendi alguém, queiram desculpar os que se sentiram ofendidos, certamente a vossa largura de vistas não vai para além das palas que vos colocaram quando militava, nas vossas jotas e que os senhores se habituaram e até gostam. Passar bem camaradas, o povo um dia será unido. E o povo, somos todos nós, mesmo aqueles que fazem de palermas a fazer discursos empolados por algum português mais semi erudito que lhes põem na frente para ler e se não for aquele a ler, será um outro qualquer daquelas fileiras, que a tv endeusa. Mais uma vez, passar bem Camaradas
Vítor

Anónimo disse...

Já agora aproveito para relembrar que não fui eu quem deu o mote do debate recordo o nome do mesmo "O PCP e o Sistema". Obrigado, Vítor