30/10/13

o carrilhismo.


É justa a indignação que por aí vai com o recente comportamento de Manuel Maria Carrilho em questões familiares. A violência doméstica, do homem contra a mulher, da mulher contra o homem, da mulher contra a mulher, do homem contra o homem, dos filhos contra os pais, dos pais contra os filhos, em qualquer formato ou modalidade, por palavras ou actos, é uma infâmia. É levar a exploração violenta para o âmago do sítio onde nos queremos mais abrigados. É o cúmulo da incivilidade, é a selva em acto. Sobre isso, que a justiça consiga fazer o seu trabalho exemplarmente é o que desejo, sem antecipar por minha recriação qualquer condenação que não me compete antes de apurados os factos e as responsabilidades. Sim, porque deverá estar em causa muito mais do que as palavras inaceitáveis de um tipo que tem no CV "professor universitário" e "ministro".
Mas vale a pena pensar no atraso com que chega este escândalo à comoção da opinião pública. A verdade é que Carrilho anda há muito tempo a espalhar veneno e lixo neste país, tratando a honra dos outros como mero combustível dos seus interesses de imagem e de condição. Muitos foram os que toleraram esse comportamento e acolheram ao palácio da publicidade as manobras de Carrilho. Quando deu jeito, os contorcionismos de Carrilho foram admitidos como coisa normal. Por quê? Porque, em geral, os alvos das suas picadas eram políticos. E, claro, cuspir em políticos é, para muitos, aceitável. Agora, depois de terem alimentado o ego da víbora, estremeceis? Que lata, meus senhores.
Carrilho já era um cretino quando só conspurcava os políticos. Mas nessa altura o povão achava graça. Agora perceberam o que a casa gasta. Já não era sem tempo. A ver se, de futuro, topam a maior distância a pinta das aves de rapina da decência pública. É que isto não é coisa de revistas cor-de-rosa, nem assunto de saias: é uma questão de higiene pública.

7 comentários:

V disse...

O ódio que paira por esses lados..

Porfirio Silva disse...

Agradeceria a passagem dos Parodiantes de Lisboa por esta caixa de comentários se o assunto não fosse sério. Como o assunto é sério, tenho de dizer que confundir higiene mental com ódio é uma tara perigosa.

cereja disse...

Completamente de acordo!

Anónimo disse...

Muito bem escrito, e completamente de acordo já agora.

António

Julieta Feliz disse...

Concordo que a higiene mental é importante e nada tem a ver com ódio. De qualquer maneira, ficam as minhas questões: A separação entre ação individual e ação coletiva não é relevante para a higiene pública? Dar significado a este tipo de ações não conspurca ainda mais a esfera pública?

Porfirio Silva disse...

Julieta, as suas questões são pertinentes. Note, contudo, que eu não trouxe estas questões para a praça pública. Eu "limitei-me" a não ignorar o que se estava a passar: "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar". Seria hipócrita fazer de conta que não sabia de nada. E, sabendo, achei ser meu dever chamar a atenção de um determinado fenómeno.
Agora, o que une a acção individual e a acção colectiva? A pessoa. Precisamos olhar para a pessoa na sua concretude: quando sofre as consequências da política (as decisões não podem ignorar os efeitos), quando suja o ambiente (não o que faz privadamente, mas o que prejudica os outros, seja em casa seja na cidade).
Acha que eu tinha obrigação de não ter escrito isto? Acha que devia evitar falar dos dois assuntos no mesmo post? Não sei exactamente o que pensa, mas, para mim, é claro: quando se tolera a violência, a violência tende a alargar-se, a entrar em novos domínios - e o violento tende a sentir-se impune. Nada disto se aplica especialmente a esta ou aquela pessoa, antes sendo algo de importância geral para a nossa vida em comum nestes tempos conturbados.

Anónimo disse...

Pela minha parte: foi um excelente, talvez o melhor, Ministro da Cultura deste país.

Diz, quem com ele trabalhou, que era de difícil trato. Há muitos assim.

A partir de certa altura, depois de Ministro, começou a dizer disparates, fruto, sem dúvida, de alguma frustração política.

Do resto, não faço ideia.