05/09/13

a guerra do piropo.


Para abreviar, estou a referir-me a umas ideias do Bloco de Esquerda sobre uma prática muitas vezes designada imprecisamente por piropo.

A forma como está a ser ridicularizada a questão é bem o espelho da degradação a que chegou o debate público de coisas sérias em Portugal. Escorados em alguma falta de jeito no lançamento de uma ideia, há uma tropa de "comentadores" que se agarram ao osso dos pormenores e deitam para o lixo, sem um mínimo de cuidado com o que importa, o essencial da ideia. O que é que importa? Importa se há ou não um fenómeno social que merece atenção e merece cuidado. A atenção e o cuidado que são espezinhados pela ligeireza. Não me venham falar de piropos inteligentes e de piropos delicados e de piropos amorosos e de mais trinta bezerros num prado: não é nada disso que está em causa. O que está em causa são situações de abuso, em campo aberto, em que homens tratam mal mulheres, contra a vontade destas, contra a dignidade das relações entre as pessoas. Tratam mal falando, sim, porque a linguagem é muito poderosa. E, muitas vezes, o falar é também ameaça de outras coisas.

Já contei que não me esqueço, à porta da escola secundária que frequentava em Aveiro, ter passado um grupo de homens e um deles dizer para uma colega nossa, realmente muito jeitosa, "dava-te uma foda" - tendo a resposta deixado o paspalho de cara à banda: "só uma, seu paneleiro?". Isto aconteceu mesmo e fartei-me de rir com o barrete do atrevido, mas não se pode exigir a todas as mulheres que reajam assim e fazer de conta que isso é solução para o problema. Ninguém pode ser obrigado a aceitar esse jogo.

A questão das mulheres tem sido cada vez mais difícil de tratar politicamente, porque tem crescido o número daqueles e daquelas que se contentam com estarem bem e são incapazes de tentar perceber o peso de certos fenómenos na sociedade real, com as pessoas reais. Não me venham com teorias sobre os feminismos e o diabo a sete: o que me interessa é que as práticas de agressão às mulheres continuam a existir e a viver bem com a indiferença de muitos. Por isso é bom que essas coisas se discutam seriamente - e não aproveitando eventuais erros na apresentação política das ideias para as ridicularizar. Esse método, muito seguido, é uma verdadeira doença da cidadania. Daí que me custe ver a alegria apalhaçada com que tantos participam desse jogo, dizendo "graças" muito "inspiradas" sobre o tema do piropo. O problema dessas "graças" é serem mais "inspiradas" do que informadas.

Há dias assim, em que as vossas brincadeiras com assuntos sérios me irritam.

4 comentários:

Paulo disse...

"dava-te uma foda" não é um piropo. As moças do bloco comprometeram os seus objectivos com dois erros: o do piropo, e o do crime de género. Bem sei que há mais homens a amandar 'piropos', mas se pode ser feito por ambos os sexos deve ser proibido para ambos, é assim num estado de direito. É um erro crasso, não acha?

Porfirio Silva disse...

Paulo, faça-me lá um favor: dê uma definição de piropo que sirva todos os alvos dessa prática e ao mesmo tempo sirva todos os praticantes da coisa. Essa técnica da definição é uma das coisas que denuncio no meu post um tanto raivoso. Et pour cause.

Quanto ao "crime de género": é pura hipocrisia fazer de conta que as vítimas de certos comportamentos são tanto os homens como as mulheres. E há assuntos em que a hipocrisia me aborrece um bocado.

Quando houver tantos homens assassinados pelas suas amantes como mulheres assassinadas pelos seus queridos maridos, passarei a estar disponível para certos floreados. Até lá, estou muito violento com floreados. É mesmo uma questão de estômago.

Francisco Clamote disse...

Mais uma vez, certo.

cereja disse...

Muito apoiado! A campanha para ridicularizar o tema tem-me irritado muito. Que há-coisas-mais-importantes, é indiscutível. Mas tal como foi apresentado, não é ridículo como se faz crer. É falta de respeito que ainda por cima não é visto como tal.