14/07/13

há muitas maneiras de ser valente. umas enchem mais o olho, outras são mais úteis.


Julgo resultar meridianamente claro, do que tenho escrito, o apreço que me (não) merece o actual Presidente da República, bem como a falta de sentido que vejo na forma como veio pôr a marinar o governo e lançar, em termos um tanto obscuros, a ideia de um pacto a médio prazo.
Contudo, dada a excepcional gravidade da situação do país (e da Europa) e o estado de desesperança em que tantos de nós portugueses nos encontramos, acho que o Partido Socialista fez bem em aceitar o incómodo de se sentar à mesa das negociações com os líderes irresponsáveis do PSD e do CDS, que nas últimas semanas levaram ao cúmulo as suas demonstrações de impreparação para governarem o que quer que seja. Não se pode perder nenhuma oportunidade de levar o país para um rumo mais conforme ao que necessitamos. O PS, note-se, teve a correctíssima posição política de exigir que essas negociações incluíssem todos os partidos com assento parlamentar, recusando assim uma das graves entorses da abordagem de Cavaco Silva, que reservava o assunto à direita coligada e ao PS. Foi muito importante, por parte do PS, ter dado esse sinal claro de não estar entregue a uma visão restrita dos protagonistas que o país precisa para enfrentar este grave momento.
Infelizmente, parece que o PCP e o BE vieram recusar-se e entrar nesse processo negocial. A táctica política continua a sobrepor-se à necessidade de criar condições para uma discussão séria acerca de como chegámos aqui e de como daqui haveremos de sair. Lamento, porque tenho defendido, contra ventos e marés, que o PS deve esforçar-se arduamente para que o PCP e o BE tenham um verdadeiro papel no debate da governação. Só que, contra a preguiça intelectual e política de quem acha mais cómodo ficar de fora, sem ir à luta de tentar que algumas das suas ideias-chave possam fazer vencimento - o que se pode fazer? A posição do PCP e do BE será até mais cómoda: tanta coragem que se quer demonstrar só por recusar aparecer! Mais difícil é ir ao exercício da negociação: claro que partindo de posições divergentes, caso contrário nem seria uma negociação - mas não fugindo à exigência democrática de voltar a colocar as suas propostas em cima da mesa.
Fica assim claro que aplaudo o PS por ter aceite o repto de negociar: e deixo-o escrito por saber que é um risco ser visto em más companhias. Só espero que marque bem as suas "linhas vermelhas" e não se deixe envolver no mero tacticismo que a direita, hoje mais do que nunca, está a mostrar sem pudor.

2 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Mais uma vez de acordo, com um ou dois senãos:
1. A proposta de Cavaco não me parece assim tão esdrúxula, como também já escrevi.
2. O envolvimento do BE e do PCP não fazem sentido apenas porque o compromisso tem a ver com o memorando de entendimento, que esses partidos nem sequer se deram ao trabalho de tentar negociar. Como agora também não aceitam o repto do PS, como nunca aceitarão, enquanto forem estas as lideranças.
Acho mesmo muito importante que o PS aceite este desafio, até para que haja possibilidade de, tal como defende, renegociar o memorando – as tais linhas vermelhas.
É sempre um prazer ler (os seus posts) e ouvir (o programa de ontem na SICn como o André Freire e o Pedro Magalhães) textos e opiniões de quem foge ao mainstream. Obrigada.

Porfirio Silva disse...

Sofia,

O memorando (o original, o tantas vezes revisto, qualquer futura versão) tem tudo a ver com o que se passa e passará em Portugal nos próximos anos. Fugir a discutir o futuro de Portugal por causa de formalidades evanescentes, não posso aceitar.

Um abraço