13/06/13

Tem chovido muito este ano…


(Deixo aqui uma transcrição da minha coluna de opinião no último número - de Maio - da "Eiffel", Revista da Cooptécnica Gustave Eiffel, para a qual escrevo a cada "fornada" há alguns anos.)



É daqueles temas de conversa que fazem o seu aparecimento em qualquer lugar ou circunstância: “nunca mais acaba o inverno”, “não há maneira de chegar a Primavera”, “li no jornal que há não sei quantas décadas que não chovia tanto por cá”… Mais ou menos incómoda, essa situação tem uma característica boa: sabemos que a chuva não é culpa nossa.

Convém lembrar que nem sempre foi assim. Lembremo-nos do terremoto, seguido de maremoto, de Lisboa, em 1755. Esses acontecimentos não abalaram apenas a cidade, nem o abalo foi apenas físico. Abalaram também o pensamento: desencadearam uma crise tremenda no pensamento teológico e filosófico da época. Foi um assunto discutido por essa Europa fora, por grandes figuras da intelectualidade de então. A questão estava na dificuldade de compreender como pode acontecer o mal num mundo bem ordenado criado por Deus. Como pode um Deus bom deixar que aconteçam coisas más? Como pode Deus, ainda por cima, deixar que sejam vítimas dessas coisas más aqueles que são bons, tais como as criancinhas e demais inocentes? Se Deus é benevolente, se Deus é todo-poderoso, como poder haver todo este mal no mundo? Claro que hoje, independentemente das nossas posições sobre o papel de Deus no mundo, percebemos mais facilmente uma diferença fundamental: uma coisa pode ser “má” (no sentido de causar sofrimento) e não ser provocada pelo “mal” (pela maldade); uma coisa pode ser “boa” (no sentido de ser agradável) e não ser sinal de “bem” (de bondade). Quer dizer: o prazer ou desprazer (uma coisa ser boa ou má) não estão necessariamente ligados à sua qualidade moral (o bem e o mal). Em particular, os acontecimentos naturais não são acontecimentos morais: o terremoto é mau se causa sofrimento ou estrago, mas não é um sinal do mal, da maldade.

Depois do terremoto de 1755, houve entre nós quem tentasse explorar essa antiga confusão entre a natureza e a moral. Os que acreditavam no significado moral das coisas da natureza encararam os acontecimentos como castigo divino pelos pecados dos lisboetas e de quantos aqui partilhavam a grandeza, a riqueza e o brilho do melhor que havia no mundo dessa época. Os boatos de que o terremoto se repetiria num aniversário do primeiro "castigo divino", e então de forma mais determinante, iam no sentido de confirmar a interpretação moral do facto natural. Os jesuítas foram considerados responsáveis pelo boato e pela tese – que o padre Malagrida corporizou, desafiando numa série de sermões o intento prático do Marquês de Pombal (que desempenhava o cargo equivalente ao de primeiro-ministro no actual sistema). O Marquês de Pombal achava que preciso era deitar mãos à obra, "enterrar os mortos e alimentar os vivos", aproveitar a oportunidade para refazer a urbe. Pretendia Malagrida, ao contrário, que a reconstrução era um assunto banal, que não devia distrair os portugueses do assunto realmente relevante, que era o arrependimento dos seus pecados. Em hora tão fatídica, construir e distribuir não eram as prioridades relevantes, mas antes jejuns e flagelos.

Malagrida deu-se mal com a teoria, tendo sido condenado e morto. Mas entre nós na “capital do reino” continua a haver quem tenha um errado sentido das prioridades. Há quem esteja mais interessado em encontrar culpados “fáceis” para as nossas dificuldades, por vezes recorrendo a teorias fantasiosas, em vez de fazermos o que é necessário: encontrar maneira de minorar o sofrimento dos que são afectados nos seus direitos básicos pela crise que atingiu o nosso país. Para isso precisamos de muitos “Marqueses de Pombal”, que tratem de encontrar soluções para os problemas em vez de fazer sermões castigadores, como preferia Malagrida. Mas, por outro lado, a crise não é como a chuva: a chuva não é culpa nossa, esse é um assunto da natureza; mas, nos assuntos da nossa vida em comum, a responsabilidade é de todos nós, colectivamente. Temos de perceber o que nos trouxe até aqui: que Europa é esta que esquece os seus apregoados valores da solidariedade face aos países em dificuldades; que governos são estes que pensam em “resolver a crise” à custa de abandonar as pessoas à sua sorte. O que a natureza nos dá de mau não é por maldade, porque natureza e moralidade são coisas diferentes. Mas o sofrimento causado pelos outros homens e mulheres em sociedade não é como a chuva ou o terremoto: desse há mesmo uma responsabilidade moral, que tem de ser assumida e compreendida. Só assim lhe poderemos fazer frente.



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