09/04/13

Podemos aprender alguma coisa com Thatcher ?


Podemos.
A dama de ferro foi uma ideóloga da direita radical, da classe dos que só vêem indivíduos-individuais à sua volta, dos que não percebem que só somos humanos em sociedade. Ela negava o próprio nível ontológico do social, quando, na verdade, isso implica ignorar que os nossos comportamentos agregados não são nunca o resultado linear do conjunto dos comportamentos individuais. Por isso há problemas dos colectivos. Thatcher, ideologicamente, ignorava isso. Mas, além disso, essa sua ignorância era violenta. Ela usou o Estado para fazer violência às pessoas - claro, em nome das pessoas. "Tanto amor, tanto ódio", como titula o Público, resulta de um certo tipo de estratégia política. Quem prefere as políticas do ódio, do confronto, quem prefere rasgar, quem prefere ferir e faz disso a sua via, terá grandes títulos. Será amado e será odiado. Podemos encontrar políticos desses tanto à direita como à esquerda. A meu ver, temos de aprender a negar o pão a esses políticos. É isso que podemos aprender com a senhora. Se soubermos recusar essa aura de heroicidade que às vezes concedemos aos violentos.

(retratos)

6 comentários:

Anónimo disse...

Olá, Porfírio, como vai?
O que os admiradores dos inflexíveis desconhecem é que essa característica é uma mantinha acalentadora para o medo. Os ditadores no ovo, que até será de serpente, temem (e como!) que não os considerem, que não os levem a sério. E se a isso juntarmos o facto de ela ser mulher e por isso ter sempre que ser mais dura para ser ouvida dentro de um partido difícil como o dela, temos uma estirpe Thatcher do mais puro sangue (trabalhador...) britânico:-)

Dri



Anónimo disse...

Porfírio: ao reler o que escrevi acima receio não ter sido clara.
Caso o tenha deixado confuso, coisa de que duvido!, os parentesis referem-se ao meio de que ela proveio:-)

Carinhosamente
Dri

Porfirio Silva disse...

Claro, Dri, os traidores de classe são sempre os mais charmosos.

Tenha um sol para a aquecer. (Isto é para si, não para "ela".)

Jaime Santos disse...

Infelizmente, eu acho que existe em nós uma admiração secreta por aqueles que se mostram convictos e decididos, independentemente de qual a sua convição seja. Ter dúvidas, assumir erros, escutar em vez de falar (às vezes em tom ensurdecedor, para calar os outros), isso é dar parte de fraco. Thatcher era, sendo mulher, a expressão de um machismo muito particular, aquele que não admite nuances. Basta ver os ódios e os afetos que figuras como Cavaco Silva ou José Sócrates levantam entre nós (salvaguardadas as devidas distâncias entre eles e entre eles e Thatcher, bem entendido). A tentação de falar duro e cortar a direito é irreprimível em políticos com certas características pessoais, porque ela é genuinamente apreciada por aqueles que neles votam...

josé ribeiro disse...

1. Parece contraditório que o admirador do inflexivel seja habitado pelo medo. Ou o é por falta ou boa medida de esclarecimento, no que se enquadra no último caso a adesão varia consoante a qualidade do admirado. A questão hoje, partindo do pressuposto que o homem evolui, não se pode colocar em termos de carência antes em termos de conhecimento ou falta de dele.

2. Traidores de classe e charme: consubstancia esta visão, uma perspectiva redutora da humanidade. Não há, ou há parcamente dimensão humana, fora do colectivo não pode habilitar à sua inclusão no colectivo a expensas de lhes sancionar o carácter. Veladamente se apologia o homem em si (o "individuo-individual), porquanto se admite que o homem social é mais susceptível ao vicio e à paixão.

3. Todo este amistoso consenso parece mais esconder falta de esclarecimento por porosidade à inclinação, que esclarecimento. Todos vós no passo mesmo que unanimemente criticaram a inflexibilidade desta figura no sentimento que radica no temor ao culto da personalidade, afirmaram-se escravos do culto da ideia, e não menos mal fez ao mundo uma pessoa inflexível quanto uma ideia inflexível, mais: uma ideia inflexível (que é capaz de ser mais ou menos um dogma, de conceptualismo percebem vós), defendida por uma pessoa inflexível

Melhores cumprimentos a todos.

Anónimo disse...

Porfírio: Recebi em excelente estado de combustão o sol que me enviou. Obrigada. Mais quero referir que ele começou a irradiar, preconizando melhores e compridos dias, apenas a partir da tarde de ontem:-)

Dri