05/03/13

Somos todos italianos?


1. O movimento de Beppe Grillo teve muitos votos e tem um significado anti-sistema. Contudo, contrariamente ao que parecem pensar algumas pessoas, isso não nos obriga a concordar com ele: podemos criticar o que ele faz e diz, podemos discordar das suas propostas e dos seus actos. Parece que este ponto ainde merece ser sublinhado, já que há por aí (nomeadamente nas redes sociais) quem agora idolatre o homem e trate de morder as canelas a quem quer que duvide das suas potencialidades milagreiras. Alguns dos instantâneos admiradores de Grillo até querem exigir-nos reverência: antes podíamos chamar palhaço a Berlusconi, mas agora não podemos chamar palhaço a Grillo, porque sua santidade o comediante parece estar em processo de canonização. Os mesmos que acham que podem dirigir todo o tipo de mimos a qualquer político do seu desagrado (de fdp para cima), agora adoptam a mascote “anti-política” e querem poupar-lhe os ouvidos. Uma bizarria, embora concorde que o presidente italiano tenha recusado receber o candidato do SPD a chanceler por este ter chamado publicamente palhaços a Berlusconi e Grillo – mas isso por razões de decência institucional. É que alguns, muito democratas, acham que alguns votos merecem mais respeito do que outros: a coligação liderada pelo Partido Democrático teve mais votos em ambas as câmaras do parlamento, mas qualquer um pode criticar esses políticos; o movimento de Grillo, esse, teria de ser acarinhado necessariamente – só “porque sim”, porque assim foi decretado não se sabe bem por que carga de água. O que os votos valem depende das nossas opções, não dependem de nenhum automatismo eleitoral: Hitler também se alcandorou ao poder pelos seus êxitos eleitorais, Pedros Passos Coelho ganhou eleições e isso não nos inibe a crítica – embora alguns apressados pensem que sim. Portanto, como não tenho tendência para correr atrás de ídolos, prefiro analisar o que as pessoas e os movimentos dizem e fazem e tentar ajuizar. É isso que vou tentar fazer parcialmente no que segue, quanto ao movimento de Beppe Grillo.

2. Em primeiro lugar, é claro que há uma série de fenómenos, mais do que diagnosticados, que não têm sido combatidos, pela política e pela cidadania, com suficiente foco, com o resultado de um arrastamento insuportável que puxa qualquer regime para o fundo. Se tem de vir alguém de fora dos “habituais” para romper com isso, que venha. Grillo não é um recém-chegado à vida pública italiana: há muitos anos que tem feito denúncias bem sucedidas contra políticos e dirigentes corruptos. Foi banido da televisão quando chamou ladrão a Craxi, coisa que parece que Craxi era mesmo; denunciou um juiz por corrupção, juiz esse que depois foi condenado por esse comportamento. Quando o sistema político se fecha sobre si mesmo e tolera o mal no seu seio, a gangrena tarde ou cedo fará mossa.

3. Há partes do discurso de Grillo que são apelativas, principalmente a sua vertente ambientalista, incluindo propostas para poupança energética, bem como certos aspectos relativamente ao funcionamento da política (p. ex., a proposta de que os deputados não possam fazer mais do que dois mandatos e não possam exercer outra profissão). Os aspectos instrumentais (como a arte de usar a internet como base das campanhas) não me aquecem nem me arrefecem: ser eficiente na propaganda não é sinal de boa nem de má política (duas coisas distintas que já foram confundidas antes, por exemplo a propósito de Obama). Mas pode ser interessante a proposta de que nenhuma cadeia de televisão nacional e nenhum jornal nacional possa ser detido maioritariamente por uma única entidade privada.

4. Outras facetas do discurso de Grillo só podem merecer a minha rejeição.
Podemos deixar-nos cativar pela proposta de um subsídio de desemprego mínimo de 1000 euros durante três anos? Talvez.
Podemos concordar com a redução da semana de trabalho a 20 horas por semana? Duvido que Grillo tenha feito as contas ao que isso significa. Mas, enfim, sonhar não custa. Outras coisas parecem-me mais graves.
Pode perfeitamente ser o caso que o homem não esteja apenas contra esta ou aquela política, estando mesmo contra a própria política democrática. Claro, navegar no mar anti-partidos, não sendo muito original, continua a pagar: a exigência da abolição do financiamento público dos partidos pode captar muitas simpatias em quem não quer parar dois minutos para pensar no seu significado, mas é claramente uma proposta antidemocrática, porque a alternativa seria só poderem fazer política aqueles que tivessem meios – quer dizer, riqueza – para o efeito (como expliquei anteriormente). Claro que isso joga bem com a tese de que os ordenados dos políticos fazem parte das causas da crise: mas aí temos apenas uma mentira que ajuda a suportar um ataque a um pilar da democracia. Além do mais, percebe-se: Grillo não tem um partido, tem uma massa que combina o “regionalmente cada um faz o que quer”, por um lado, e, por outro lado, o “quem manda aqui sou eu” (sem instâncias de decisão para além do líder, que tipo de democracia pode haver? as reuniões secretas de eleitos, que para já serviram para se encontrarem uma primeira vez?).
Ao mesmo tempo, enquanto vai dizendo que não é de direita nem de esquerda (começo a rosnar logo que ouço esta tese em particular), declara que seria desejável eliminar os sindicatos, porque são tão velhos como os partidos (serão os partidos tão velhos como a democracia?) e porque os sindicatos são os responsáveis pelas dificuldades dos trabalhadores. Revelador.
Mas a táctica, evidentemente, é muitas vezes um excelente revelador: não sendo nem de esquerda nem de direita sentiu-se à vontade para declarar a militantes de extrema direita, que queria captar para as suas listas: “o anti-fascismo não é da minha competência”.
Não seria pelo lado das suas ideias sobre imigração que a extrema-direita deixaria de o apoiar: tem-se pronunciado contra os imigrantes e é favorável a que os filhos dos imigrantes não possam adquirir a nacionalidade italiana.
A sua exigência de que cesse a participação italiana em missões de paz internacionais é também um indicador da sua visão.
E as suas “mãos limpas” também ganham algum esclarecimento com as suas declarações em Palermo: "a Máfia, pelo menos, não estrangula as suas vítimas, como faz o governo".
Julgo, pois, ter bastantes razões para desconfiar.

5. De qualquer modo, mais do que os discursos, a prática esclarecer-nos-á no futuro sobre o que é este movimento “cinco estrelas”. Agora, sob uma luz mais intensa dos holofotes, talvez se torne mais sofisticado – ou talvez seja mais fácil perceber como realmente encarna o seu papel de tomba-sistemas. O passado recente, contudo, deixa alguns alertas. Foi noticiado que o presidente de Mira, eleito pelo movimento, despediu uma assessora pela gravíssima falta de estar grávida – sem que Grillo tenha dito uma palavra de reprovação sobre esse acto. Durante a campanha eleitoral, Grillo nunca aceitou dar uma entrevista (uma vez aceitou, mas não compareceu), o que dá uma versão radical de algo que conhecemos por cá: um ex-PM e actual PR de Portugal que, numa certa campanha eleitoral, se escusou ao confronto por, segundo ele, não estar para que os outros candidatos se promovessem à sua custa (nos debates).

6. Posto isto, não posso dizer-me um entusiasta de Grillo. As recentes eleições em Itália são o espelho do momento que vivemos, a vários níveis: alguns políticos (especialmente os que vivem longe dos países e das pessoas em dificuldades, como o presidente da Comissão Europeia) continuam a falar como se não houvesse tanta gente a virar as costas ao corrente modo de fazer política neste Ocidente que nos toca; muita gente sente que a única escolha que lhe deixam já só tem duas vias: calar (e tentar comer as sobras) ou tentar deitar todo o edifício para o lixo; a “Europa” é cada vez mais percepcionada como culpada dos nossos males. Compreende-se bem que, aqui chegados, movimentos de ruptura com “o estado a que isto chegou” comecem a recolher apoio popular importante, não apenas nas ruas, mas também nas urnas.
Há, portanto, muito que pensar – até porque as situações de crise são também momentos para revelar as dificuldades que o pensamento tem em acompanhar a realidade. Também por cá há muito para reflectir – e agir. O descontentamento popular, quando provocado pela insistência em esmagar a vida das pessoas, ou encontra resposta na política que há – ou outra política terá que ser inventada. Mas, desesperados, não podemos embarcar no primeiro comboio que apareça. (Fui muito fustigado quando, no início da "primavera árabe", manifestei as minhas dúvidas quanto à possibilidade de dali saírem propriamente democracias; infelizmente, os que ardiam no desprezo pelas minhas cautelas, podem não ter chegado a aprender o valor das dúvidas.)
De qualquer modo, a Itália, nestes momentos, é a demonstração de que a palavra de ordem "o povo é quem mais ordena" não é, necessariamente, uma resposta aos problemas reais e complexos que vivemos. A democracia precisa de algo mais do que a mecânica dos votos; precisa de alguma forma de concertação activa, dinâmica, agregadora, mediadora. Como sempre defendi, uma democracia não se faz só com eleições de tanto em tanto tempo. Se temos ou não democracia, isso depende também de que os representantes se compreendam como representantes de uma parte, não do todo. E que, como representantes de uma parte, saibam como trabalhar com os representantes das outras partes. Nesse sentido, o problema da Itália é também o nosso. Ah, pois, agora “somos todos italianos”.


(Algumas das fontes: uma,duas, três, quatro, cinco, seis, sete.)

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